O perdão é doloroso

Crônica publicada no livro
Tudo passa, esse amor vai passar também
Em maio de 2018

Ao fazer um atendimento num trabalho voluntário, escutei da outra pessoa, em seu desabafo, que o perdão é um processo extremamente doloroso. Aquela fala ficou ecoando na minha mente durante todo o meu turno, como um alerta do meu coração de que eu precisava refletir um pouco mais sobre o assunto. Um lembrete para olhar um pouco mais atenta para minhas próprias feridas.

Vivemos em um mundo que, ao mesmo tempo em que estimula o perdão, incita a mágoa entre os próximos. Às vezes somos forçados a perdoar precipitadamente quem nos decepcionou porque é mais “cool” ser alguém benevolente. Por outro lado, nos instigam a propagar nossos dissabores.

A verdade nua e crua é que, em vários momentos, não estamos preparados para perdoar o outro. Seria ótimo relevar tão rapidamente os deslizes alheios. Seria. Mas, para muitos de nós, não é fácil, principalmente se nossas vivências foram cruéis. Se já desculpamos demais, se já nos surpreendemos demais, se já nos machucaram demais.

Gostaria muitíssimo de deixar ir. De ser abnegada o suficiente para colocar todos os meus descontentamentos na margem de um rio e deixar que a correnteza os leve para bem longe. Dessa forma me sentiria renovada e poderia continuar minha caminhada sem receio de ser mais uma vez desapontada.

O fato é que, quando escutei de uma outra pessoa o eco dos meus próprios sentimentos, pude enxergar como quem é magoado termina sofrendo duas vezes. Com a dor de ter sido desiludido e com o sofrimento de ter de aprender a perdoar. E o pior é que precisamos vigiar nossos pensamentos – muitas vezes rancorosos e ofensivos – em relação ao nosso vilão.

Talvez eu não seja (ainda) tão altruísta. Provavelmente ainda tenho um longo caminho a percorrer. E por ainda doer tanto, ainda sentimos, em vários momentos, que é preciso controlar nossa raiva por termos sido assim tão machucados.

O perdão é um processo extremamente doloroso. Precisamos aceitar que os outros têm suas próprias técnicas para tratar as feridas. E não vamos ser hipócritas: nem todo mundo tem a facilidade de desculpar quem foi sacana. É preciso respeitar o momento de cada um. Essa revolução deve ser, antes de tudo, verdadeira.

Um comentário

  1. Difícil mesmo qnd já foi mt ferida pela mesma pessoa , mas guardar rancor só faz mal pra quem o guarda mesmo, né? Difícil seguir em frente!

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