Não vulgarize o amor

Crônica publicada no livro
Tudo passa, esse amor vai passar também
Em maio de 2018

Sentada numa mesa na área de convivência do hostel de uma amiga, conversávamos sobre uma ação de voluntariado que pretendíamos fazer numa comunidade no Recife. Para falar um pouco sobre o objetivo da iniciativa, minha amiga chamou o pescador à frente do projeto, velho conhecido da família.

Daquelas pessoas antigas, o que o senhor gostava mesmo era de jogar conversa fora. Passamos um bom tempo escutando seus causos e anedotas. Entre os diversos tópicos do trabalho, ele aproveitava para contar como conseguia sustentar um casamento tão longo. Afora companheirismo, paciência, lealdade e todos os outros adjetivos que funcionam como pilares para um relacionamento, uma coisa chamou minha atenção: questionado o porquê de tantos divórcios na sociedade, ele foi taxativo: “é que essa juventude anda vulgarizando o sentimento amor”. Pense num soco bem no estômago.

Talvez seja bem dessa forma. Fiquei tão incomodada com aquela simples colocação, que passei o resto do papo refletindo sobre quantas e quantas vezes vulgarizei as inúmeras formas de amor. Ou de amar. E olhe que com certeza não sou a mais experiente em relacionamentos.

Me peguei pensando em todas as vezes que subestimei um recado de alguém querido me pedindo atenção. Ou das vezes em que fiquei com preguiça de fazer uma visita a alguém amado que precisava de companhia. Ou naqueles momentos em que desprezei os sentimentos do outro por mim, somente por achar que não era tão sério assim.

Em vários momentos talvez nem tenha percebido o estrago das minhas ações. Pela pressa na rotina, esqueci de dar um abraço apertado antes de sair de casa. Ou de dizer “eu te amo” após um longo tempo distante. Quem sabe talvez eu tenha deixado passar uma data importante e não reparei minha negligência, depois alegando falta de tempo.

Martelei sobre aquela afirmativa por um bom tempo e cheguei a tantas conclusões plausíveis que muito provavelmente deu um nó na minha cabeça. Vulgarizar o amor seria tudo isso?

Talvez, atualmente, nos acostumamos a desistir muito fácil do amor. Ou investimos muito pouco tempo nele. Ou quem sabe estamos optando por sensações mais intensas do que tal sentimento, porém totalmente efêmeras? Talvez seja vergonha. Ou imaturidade, quem sabe? Os mais compassivos arriscariam a inabilidade de lidar com a imensidão desse sentimento como o principal motivo de tantos desenganos amorosos. Eu realmente não sei. Talvez só descubra no fim da vida.

O fato é que o puxão de orelha daquele jovem senhor me fez ver que é preciso tentar constantemente – mesmo que não seja recíproco. É urgente procurar amar de maneira mais efetiva. Nos gestos, nas palavras e até nos pensamentos. Vamos deixar de ser banais com esse presente. Não há fracasso em apostar no amor – que tal investir nele todo santo dia?

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