Ele não vai voltar atrás

Crônica publicada no livro
Tudo passa, esse amor vai passar também

Em maio de 2018

Uma amiga vivia me dizendo, quando rompi com um casinho, que ele iria voltar atrás quando eu já estivesse em outra – muito bem, obrigada -, com meu novo príncipe encantado. Ela bradava com tanta certeza que eu mesma tinha convicção que, um dia, teria a chance de olhar na cara dele e dizer: sinto muito, estou com outra pessoa, já não te amo mais.

Mas a verdade é que eu passei a nutrir a esperança de que um dia ele se arrependeria de ter me dado um fora. E aí voltaria querendo me reconquistar. Pior: achava que, com o passar do tempo, ele se daria conta de que eu era o grande amor da sua vida e que éramos feitos um para o outro. Eu chegava, inclusive, a imaginar como seria o grande reencontro. Nós iriamos discutir sobre as mágoas passadas, ele me pediria desculpas por tudo o que havia feito e me pediria uma segunda chance. E eu? Daria quantas chances fossem pedidas.

Todo dia eu ia deitar esperando que ele entrasse em contato comigo. Por telefone ou e-mail. Tanto faz. Qualquer mensagem que denunciasse uma possível reaproximação. Torcia para que ele comentasse com amigos em comum o quanto sentia minha falta e como eu era especial para ele. Esperava que esses amigos fizessem uma ponte entre nós dois, funcionando como cupidos responsáveis pela nossa volta.

No fundo eu sabia que nada disso ia acontecer. Se ele havia saído da minha vida deixando bem claro que não me amava, não havia motivo para que retornasse. Mas, mesmo com o atestado de rejeita carimbado em meu coração, eu seguia alimentando uma doce ilusão.

Cada vez que eu o via com outras mulheres, meu coração ameaçava parar de bater. Era como se a vida tentasse me mostrar de todas as formas que ele realmente não gostava de mim. Eu ia dormir decidida a esquecê-lo e entregar meu coração a outras pessoas. Seguir em frente, os outros diriam. Mas ao amanhecer, lá estava eu, torcendo secretamente para que ele caísse na real e percebesse que aqueles novos romances não o entendiam tão bem como eu. E então, ele correria de volta ao meu encontro muito, muito arrependido.

Eu sabia que, se parasse para analisar tudo o que permiti naquela relação, não nem olhar na cara do cidadão. Mas coração bobo não se importar com desfeitas, não. Se me perguntassem: “Você o aceitaria de volta?”, eu sabia que vergonha nenhuma no mundo me impediria de dizer que sim, o aceitaria de volta. Com todos os seus sinuosos caminhos e questionáveis vícios.

Por isso, eu passei muito tempo desejando, com todas as minhas forças, que aquela profecia da minha amiga se cumprisse. E que se cumprisse antes de eu encontrar um novo amor. Que ele voltasse atrás. De todas as maneiras, de todos os jeitos. Eu o perdoaria, como já o havia perdoado outras inúmeras vezes.

Hoje, ao ver outras pessoas passando pelo o que passei, sei que, mesmo negando, elas ainda torcem secretamente para que seus amores voltem às suas vidas. Esperando que um milagre aconteça e tudo retorne, inexplicavelmente, melhor que antes.

Observo os familiares e amigos tentando dissuadi-las de tamanho absurdo, mostrando todas as desvantagens de ainda acreditar em tal relação, e me recordo de todas as vezes em que meus pais, amigos, conhecidos, chefes, psicólogas, psiquiatras – e, se duvidar, até os desconhecidos nas esquinas – me disseram que não valia a pena embarcar naquela furada.

Sinto muito, mas não há chacoalhada do mundo que faça uma pessoa rejeitada cair na real. Tá aí uma fantasia que dura por um bom tempo. Não tem fórmula, eu já constatei. Difícil ver uma esperança mais forte do que a de quem ama e não é correspondido. É uma vontade danada de despertar o amor do outro, mesmo que todas as cartas na mesa mostrem que a situação não é favorável. Eis um mistério difícil de resolver.


Um comentário

  1. Abrir os olhos é mt doloroso mesmo, mas qnd abre é outra vida!
    Amando as crônicas agora no blog!
    Parabéns, sua linda 🤩

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