As coisas sempre podem piorar

Crônica publicada no livro
Tudo passa, esse amor vai passar também
Em maio de 2018

Eu gostaria muito que a vida fosse um mar de rosas e que meus textos sempre tivessem um olhar “Pollyana” sobre os acontecimentos. Seria maravilhoso escrever sobre como só vivenciamos episódios auspiciosos em nossas caminhadas neste plano. Mas não funciona dessa forma, a gente sabe. Prefiro falar da vida como ela é. Sem dourar a pílula ou ludibriar os mais ingênuos. É bom logo entender que as coisas sempre podem piorar.

Eu me dei conta de como sabemos desse lado sombrio do acaso e preferimos levar na serenidade de Jah quando, numa reunião de amigos, contei uma sucessão de acontecimentos que, por mais que parecessem surreais, ficavam piores no decorrer da minha interpretação.

É que, nos últimos tempos, venho passando por uma série de provações que me fizeram pensar, em inúmeros momentos, que Deus só podia estar de sacanagem comigo. Como se eu estivesse numa espécie de pegadinha divina ou teste dos Céus. Por mais que eu confiasse que o destino ia dar uma guinada e mudar o rumo dos fatos, as coisas sempre pareciam piorar.

Às vezes, por mais otimista que você tente ser, as lapadas do destino doem para cacete. Eu entendo que seja difícil levantar dia após dia ainda se recuperando do baque anterior e ter de se deparar com novas quedas. Cansa a mente e também a alma. Por isso, eu quero te dizer que: está tudo bem se sentir cansada. Exausta, exaurida. Sem forças. Preciso te falar que não há explicações para tamanhas injustiças. Elas apenas acontecem. É duro ter de aceitar que coisas ruins acontecem com pessoas boas.

Também não sei te dizer de onde você vai precisar tirar forçar para continuar acreditando que haverá um amanhã melhor se, quando amanhece, a desordem parece a mesma. Entendo também o quão complicado é escutar os outros dizerem que as coisas vão melhorar se, no fim do dia, a desgraça para ainda mais espantosa.

Por várias vezes o fardo é tão pesado que é difícil levar tudo na brincadeira. Eu entendo. É preciso ser duplamente forte. Para aguentar as adversidades e para ter coragem de rir, nem que seja um pouco, delas.

Conta a lenda que um rei, entediado com todos os bens materiais que sua riqueza podia comprar, ordenou que seus servos confeccionam um artefato para que, quando o monarca se sentisse triste, ao olhar para a peça, tivesse seus ânimos renovados. O objeto também teria de ter o poder de, toda vez que o rei estivesse demasiadamente feliz, ao se deparar com o aparelho, lembrasse de pôr os pés no chão.

Os súditos, na ânsia de agradar o monarca, invadiram o palácio com as mais diversas engenhocas. Nenhum deles, no entanto, conseguiu satisfazer a vontade do rei.

Eis que chega um dos serviçais do reino. Um camponês bastante humilde que segurava uma linda coroa cravejada com os mais lindos diamantes. Ao olhar para o objeto, o rei, já cansado de todas as coroas que havia ostentado ao longo dos anos, nem se entusiasmou. Ao segurar a tiara nas mãos, já se preparava para dispensar o servo. Quando leu no topo da tiara a inscrição: tudo passa.

Pois é. Na roda gigante que é a vida, não importa a fase, é importante ter em mente que vai passar. Essa roda não para. Confie, principalmente nos maus momentos. Um dia ela vai girar.

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