Você não é assim tão culpado pelas expectativas que cria

Crônica publicada no livro
Tudo passa, esse amor vai passar também
Em maio de 2018

Eu já fui mais complacente, tenho que admitir. Já fui, inclusive, daquelas que fazem de tudo para aceitar teorias excêntricas mesmo que, na minha opinião, não façam o menor sentido. Mas toda vez que alguém tenha me convencer de que somos culpados pelas expectativas que criamos, eu perco a compostura. Como se eu já não tivesse peso suficiente para carregar, ainda me inventam mais uma responsabilidade.

Se você procurar na internet pelo termo “expectativas”, a maioria dos resultados trará um tutorial em cinco passos de como não criá-las. Como não criar expectativas na vida amorosa, na carreira, nas amizades, na família, nas viagens, no futuro, no presente. Cacete, parece que nada escapa. É como se a gente tivesse que viver em uma bolha, sem ao menos poder vislumbrar o quão maravilhoso seria se nossos sonhos se tornassem realidade.

Parece que os “desconstruídos” esquecem que criar expectativas, assim como ter medo em situações de risco, é inerente ao ser humano. Se embarcamos em alguma trilha, sonhamos com os próximos momentos. É como combustível para seguir a vida. Se começo em um novo emprego, conjecturo avanços promissores; se engato um romance, e de fato, estou envolvida com as pessoa, confio que a relação subirá degraus afetivos; se planejo uma viagem, desejo, com todas as forças, voltar com recordações inesquecíveis. Criar expectativas é torcer, com uma dose dupla de esperança, para que as coisas deem certo.

O problema é que já estamos tão habituados com a frieza humana que nem percebemos mais que estamos optando por fazer o sentido inverso das coisas. Não nos animamos com o novo trabalho porque não queremos criar expectativas para então sermos demitidos; não nos empolgamos com o novo relacionamento porque temos medo de levar um pé na bunda; não fazemos mil planos para viagens porque não queremos nos frustrar se não forem como nós imaginamos.

Nesse bloqueio, acabamos por podar nossos desejos, frear nossos sonhos, reprimir nossas vontades. Apenas para não dar trela a uma possível maldade do próximo ou pegadinha do acaso. O que nós temos é medo de sermos decepcionados. Pelas pessoas ou pelo destino. Mas preciso dizer uma coisa, meu bem: isso vai acontecer de qualquer forma – um dia ou outro, infelizmente.

Por isso, não quero e nem posso levar a culpa por esperar o melhor de mim, dos outros e da vida. Talvez o que precisamos é ter apenas um pouco mais de cuidado no terreno em que estamos pisando. Sermos um pouco mais conscientes se vale a pena depositar algo tão valioso como nossas expectativas – o combustível dos nossos sonhos – em um solo que não trará bons frutos.

Essa dica pode valer para tudo na vida. Nos relacionamentos, nas amizades, no trabalho. Aposte todas as suas fichas naquilo que te faz vibrar de alegria. Se seu sentimento é autêntico, plante ali os seus sonhos e cuide do seu jardim à espera da felicidade. E saiba que não há mal nenhum em aguardar fielmente a sua chegada.

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