Um ano que não te vi mais

Um ano que eu acordei depois de ter dormido ao lado da sua cama, no chão, e fui trabalhar num dia chuvoso. Te dei tchau e rezei, silenciosamente, para que o senhor melhorasse ao longo do dia. e, desde então, não te vi mais, pai.

Um ano que sai da sua casa e enfrentei o evento que é um dia de chuva no Recife. O que eu mal sabia é que o verdadeiro e catastrófico acontecimento era o que ainda estava por vir.

Um ano que cheguei na minha casa e nem me importei de ter que meter os pés na água que inundava a vizinhança. Tudo bem enfiar os pés na lama se o senhor estivesse bem lá do outro lado da cidade.

Um ano que me arrumei às pressas, como sempre tomada pela culpa de chegar atrasada no trabalho, mesmo de posse da justificativa mais plausível do mundo. Se eu soubesse o que estaria para acontecer, teria sido menos traumatizante não ter ido. Melhor seria aproveitar as últimas horas contigo.

Um ano que recebi a pior das notícias dos lábios mais compreensivos. E percorri aquela que é uma das maiores avenidas do Recife sem enxergar nenhuma imagem nem escutar qualquer som.

Um ano que tive tanto medo de entrar naquele seu quarto já murcho, onde costumávamos fazer nossas palavras cruzadas e jogo dos sete erros para passar o tempo, e encontrar teu corpo sem vida. Te vi pela última vez desejando fortemente não ter sido daquele jeito o nosso encontro derradeiro.

Dizem que a dor do luto passa. Mas não passa. Você só aprende a conviver com ela. Não tem um dia sequer que eu não pense no senhor, pai. Na falta que você me faz. Rolo nossas conversas virtuais tentando preservar a todo custo as memórias que insistem em escapar. Inclusive ainda não consegui jogar fora aquela escova de dente que o senhor deixou aqui em casa, pai. Eu não quero perder o contato. Engraçado, é uma simples escova de dente que me faz pensar que você continua aqui em casa, chegando para mais uma visita despretensiosa.

Quem me garante que vamos nos encontrar de novo, pai? Quem? Será que eu vou poder apertar sua bochecha e assanhar seu cabelo no céu? Quem me garante que eu vou conseguir trilhar esse caminho todo sozinha? Que vou aguentar a barra e ser forte? Ninguém. Ninguém me garante.

Eu não sei lidar com as perdas da vida, por isso sempre pedi a Deus para não encarar a morte dos meus pais nem tão cedo. E cá estou eu, 365 dias sem painho. Dói. Dói. Dói que deixa sem ar. Mas aí eu me lembro dos dias em que seu Ricardo me ajudava a vencer tempos sombrios. E tenho a certeza que ele me ajudará outra vez.

Te amo tanto, pai. Queria ter tido tempo para te amar muito mais.

2 comentários

  1. Fico impressionada com a tua força e talento pra transformar essa dor! Crônica forte, emocionante e linda! Te amo ❤️🌻

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