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Tudo passa, este amor vai passar também

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O tempo nos dá força para esquecer as coisas ruins e nos garante amor para continuar acreditando nas coisas boas (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do portal NE10

Em uma mesa de bar, uma amiga contava como se sentia após o término de um relacionamento. Tentava explicar o que era seguir em frente, mesmo com tanta coisa deixada para trás. Porque ainda havia amor. Um pouco de apego. Aquela insegurança que sufoca. Uma saudade que bate todo dia na nossa porta. Eram tantas perguntas não respondidas e algumas respostas que, agora, pareciam não fazer muito sentido. De todas as incertezas, porém, uma garantia lhe confortava. Tudo passa.

Veja bem, tudo passa. O tempo nos dá força para esquecer as coisas ruins e nos garante amor para continuar acreditando nas coisas boas. Você vai chorar, vai desacreditar, vai se perguntar o porquê e em muitos momentos não vai conseguir entender a razão dos rompimentos. Você vai se descabelar, vai ficar debaixo das cobertas para curar as feridas. E é muito provável que você não consiga dormir, por isso a noite vai virar sua inimiga.

Você vai querer desbravar o mundo. E nessas aventuras você vai questionar as partidas alheias e lamentar os descasos do próximo. Por muitas vezes você vai pedir abrigo, vai querer um abraço apertado. Um telefonema demorado. Você vai precisar de colo de mãe, pai, irmão, amigo.

Algumas vezes você não vai conseguir segurar as lágrimas e vai se esconder para não ter que lembrar de tudo isso. Você vai querer voltar atrás tantas vezes que vai até perder a conta. Muita gente vai parecer não entender a sua dor, mas, confie. Tudo passa.

Nesse barquinho que não afunda mas também não segue em frente, você vai terminar encontrando algum pequeno motivo para não desistir. E vai se agarrar a todos eles. Pode ser uma ligação despretensiosa. Um elogio inesperado. Um convite animador. Uma palavra sincera. Um tempinho dedicado só a você numa rotina atarefada. Um recado cheio de carinho. Sinais de que você deve seguir na luta. Esta é a sua batalha. E, pode acreditar, tudo passa.

Em alguns muitos momentos você provavelmente vai querer sumir. Tirar férias. Um tempo só seu. Vai tentar fugir de tudo que pode te fazer mal. Mas logo, logo, você vai entender que os problemas correm mais rápido. E então você vai ter que aprender a ser forte. Vai ter que sair da zona de conforto. Vai ter que tomar muitas decisões morrendo de medo. E depois dessas escolhas, você vai notar que continua vivo.

Até que um dia, finalmente, o sol vai brilhar lá fora e você vai encontrar o seu caminho. Você conseguirá desatar alguns nós. Se livrar de várias amarras. Vai entender que viver agarrado ao sofrimento é travar o amadurecimento – doloroso, mas necessário. Você vai perceber que os relacionamentos foram feitos para quem está preparado. E vai ser nessa hora que você vai comemorar por compreender que, apesar de tudo isso, você continua disposto. Afinal, tudo passa. Este amor vai passar também.

Ai de nós se não fossem os recomeços

Só mais um dia comum. Cheguei em casa, tomei um banho demorado, troquei de roupa, acendi um incenso, desforrei a cama, ajeitei várias almofadas debaixo da cabeça e abri mais um livro. De repente pensei: “felicidade é isso”. Suspirei ironicamente, já que naquele momento eu nem tinha tantos motivos assim para sair espalhando a felicidade pelo mundo. Mas eu tinha dentro de mim uma espécie de calma que em muitos momentos não consegui sentir. Era o prazer de estar só, comigo, e por isso mesmo em ótima companhia. Sem ruídos, sem conflitos, sem precisar me adequar. Era tudo o que eu queria: não me moldar a nada nem ninguém.

IMG_0581Ali curti uma solidão que não me foi imposta e sim conquistada para momentos que precisava, e muito, estar sozinha. Ali pensei que estar só quando você pode estar na companhia de tanta gente é uma sorte incrível. Para se reinventar, para contemplar a vida, para uma auto-análise sem julgamentos, para fazer duras críticas e no final da noite ter alguém em quem se amparar: você mesmo. E no começo do dia, você já conseguiu elaborar uma série de recomeços. Daqueles que, assim como o prazer da própria companhia, nos proporcionam uma felicidade contida que sussurra nos nossos ouvidos: não tem medo, não. Você não está só.

Assim como não tenho medo de estar sozinha, podendo estar no meio de tanta gente querida, não tenho medo de recomeços. Na verdade, alguns deles até me fascinam. Fico maquinando mil formas de me superar. De vencer meus medos, de acabar com meus receios, de encontrar sempre motivos para rir daquilo que me fez sofrer. Gosto de ver que fiz malabarismo com a dor e não deixei a peteca cair. Vai, risca mais um dia no calendário e busca pequenos motivos para sorrir. Isso é recomeçar.

Ai de nós se não fossem esses pequenos grandes recomeços. Daqueles que nos reconstroem, daqueles que nos fazem revirar na cama milhares de vezes no meio da noite até a noite virar dia. Essas pequenas grandes conquistas que nos fazem ver o quão fortes nós somos mesmo no meio das maiores crises existenciais antes mesmo de chegar na casa dos 30. Essas grandes pequenas batalhas que cansam, fustigam, detonam, mas são elas que nos fazem deitar a cabeça no travesseiro e voltar a pensar: “felicidade é isso”. Aquelas pequenas grandes dores que deixam nosso coração apertado e mesmo assim a gente se convence e diz: “aprendizado é isso”, mesmo que naquela hora nossa deusa interior se remexa convulsivamente e grite desesperadamente: “a gente não precisava passar por isso para saber o quão importante algo é em nossas vidas”.

Não entender e mesmo assim seguir em frente. É não aceitar e mesmo assim seguir aceitando. É cair e levantar, mesmo que tropece logo em seguida. É sentir doer e mesmo assim continuar sorrindo. É adorar cada transformação que você precisou passar nessas caminhadas bandidas que são os recomeços. É olhar para trás e não sentir falta de nada que ficou no passado. Vai, respira fundo. Um, dois, três. Três, dois, um. Recomeço é tudo, tudo isso.