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Precisamos falar sobre desapego

Desapego talvez seja aprender a desatar nós e compreender os laços (Foto: Pixabay)
Desapego talvez seja aprender a desatar nós e compreender os laços (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Eu pensava que seria só uma vez. Mas se repetiu. Pela segunda, pela terceira. Até que se tornou infinitas vezes. Aconteceu com outras, com outros. Com tanta gente. Se duvidar, aconteceu até comigo também. De repente, meus murais virtuais estavam lotados de textos vinculados a fotos de pessoas bem resolvidas, desprendidas, indiferentes. Meus feeds de notícias e imagens estão preenchidos, mas não é de amor, é de desinteresse. Mensagens que falam muito – mas muito pouco – sobre um tal de desapego.

Sim, nós precisamos falar sobre ele. Necessitamos urgentemente entender o desapego. Eu não entendo, talvez você não entenda. E muito provavelmente um bocado de gente está sem entender também. Mas sim, devemos e necessitamos urgentemente discutir o assunto. Precisamos falar sobre relacionamentos falidos, pessoas apáticas, papos egocêntricos, ciclos viciosos.

Precisamos conversar sem medo sobre paixões não correspondidas, diálogos frios, dores inexplicáveis e pés na bunda. Precisamos dizer o que sentimos mas, principalmente, deixar de fingir sensações que não nos pertencem. Precisamos sentir o luto, botar pra fora as angústias, procurar respostas e não desculpas. Devemos digerir nossas inseguranças, admitir nossos fracassos e deixar cair nossas lágrimas.

Sim, precisamos demais refletir sobre o desapego. Precisamos destruir uma corrente que não une, apenas separa. Precisamos tirar os celulares do modo avião, responder mensagens, deixar tudo claro, permitir que o outro siga em frente e evitar meias respostas. Precisamos e necessitamos parar de confundir maturidade com egoísmo. Precisamos urgentemente saber ir embora sem destruir o caminho que deixamos pra trás.

Precisamos e devemos conversar sobre desapego. Até que esteja bem claro não apenas nas nossas intenções, mas principalmente nos nossos gestos. Para isso, precisamos – e podemos – entender o que é o respeito com a dor do próximo, empatia com a tristeza do outro e paciência com os defeitos alheios.

Certa vez eu li que amar com desapego é deixar que nossos afetos sigam suas trilhas, mesmo que isso signifique lidar com a distância. É deixar ir, mesmo com a ilusão de que o outro vá ficar. É aprender a desatar nós e compreender os laços. Até que o vínculo seja tão forte que não haja uma necessidade inconsequente de posse.

Volto a dizer. Eu não entendo, você talvez não entenda e posso apostar que mais um tanto de gente fique sem entender também. Mas uma coisa é mais que certa: desapego, definitivamente, não é desinteresse. Pouco tem a ver com desprendimento ou indiferença. Precisamos urgentemente falar sobre ele. Até que entendamos que desapego não é desamor. É aprender a ter consciência – não só de si, mas principalmente do outro.

Deixar livre para voar e a lei do amor próprio

“Eu amo você. Mas me amo muito mais. E sei o momento que devo partir. E, por te amar, vou te deixar livre para voar”, eu disse.

Nunca pensei que fosse tão difícil dizer adeus em tempos de tanto apego. Não imaginava que seria tão incômodo abrir a gaiola e finalmente entender que as pessoas que amamos têm o direito de voar. Difícil lidar com a pseudo perda. Porque você perdeu mas, olha que engraçado, eles continuam ali. Maçante ter que conviver com uma ausência forçada: aquela que machuca um pouco mais dia após dia.

Por onde andamos, sinais daqueles que deixamos para trás. No filme, na novela que você nem assiste mas, por acaso, parou para escutar um diálogo. Naquela música aleatória que toca na rádio que você quase nunca escuta. Nos incontáveis “eu avisei” que somos obrigados a escutar dos outros. Sinais de que deveríamos ter deixado ele voar há muito tempo. “Ele nunca foi seu. Você nunca foi dele. Não era para ser”. É o que dizem.

Aí paramos para pensar: era amor ou era apego? Amor é sentimento puro. É genuíno. Não é egoísta. Amor é altruísta. Apego é posse, é querer demasiado. É se anular diante das vontades do outro. Mas, mesmo assim, não acredito na lei do desapego que pregam por aí – porque eu não acredito nesta lei do desamor. Isso não é desapego, é egoísmo.

No primeiro dia do ano, sentei na areia da praia, olhei para o céu que tanto me diz mesmo quando eu não pergunto nada e jurei: “sabe de uma coisa?! Vou é praticar um pouco mais a lei do amor próprio”.

Vou, antes de mais nada, respeitar as minhas vontades. Vou lidar com minhas fraquezas. Vou enfrentar meus medos. Vou olhar um pouco mais para mim – eu, que sempre olhei tanto pelos outros. Vou conviver com estes sinais que deixaram no meio do caminho e entender que eu não preciso machucar ninguém com essa tal da lei do desapego.

Mas não vou deixar de ser quem sou. Nem por um momento. Vou entender que ele nunca foi meu. Eu nunca fui dele. Sou minha. Deixei ele livre para voar. Mas, na verdade, abri caminhos para que eu voasse também.