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Só por hoje faça o caminho oposto

Imagem de caminho (Foto: Free Images)
Só por hoje procure outras saídas, busque outras trilhas e acredite que um dia vai dar certo (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Só por hoje faça o caminho oposto. Procure outras saídas, busque outras trilhas, abra novas portas, pule algumas janelas. Só por hoje, saia sem destino, não se preocupe tanto com a viagem de volta, não se importe apenas com a data em que termina suas férias. Só por hoje, encare o mundo de uma outra forma, saia do preto no branco, drible os tons de cinza, enxergue tudo colorido.

Só por hoje não escute besteiras, não fale algo que possa magoar o outro, não entre em discussões. Só por hoje pare e observe as flores, pegue uma folha que caiu no chão. Faça uma gentileza, abra o caminho, ligue a seta. Só por hoje, vista uma roupa diferente, saia do lugar comum, escute um brega. Cante no chuveiro, dance na frente do espelho, ria por uma besteira.

Só por hoje se permita sair da linha. Marque saídas em cima da hora, não queira saber de horários marcados, suma do mapa. Só por hoje, aprecie o som dos chuviscos na janela, corra na chuva, saia correndo atrás do seu guarda-chuva que foi arrastado com a ventania e tente parar simplesmente para olhar o céu! Nem que seja por um tempinho. Só por hoje, acredite que vai dar certo. Mesmo que ontem não tenha dado.

Só por hoje diga eu te amo para alguém que vale a pena. Dê um abraço apertado em alguém que precisa, faça um elogio, compre uma lembrança para quem é querido. Só por hoje deite numa rede e leia um bom livro, saia para caminhar sem ter que se preocupar com quantas calorias você vai gastar. Só por hoje dê um de seus sorrisos para um estranho que passa na rua, responda ao ‘bom dia’, pare na faixa mesmo que não tenha um sinal, respeite o assento preferencial.

Só por hoje dê o seu máximo, não pense em desistir, não deixe ninguém lhe atrapalhar. Fale sozinho, escute seus desejos, respeite seus sonhos, aceite suas limitações e passe para a próxima. Só por hoje se permita ser sensível. Só por hoje repita dez vezes: ‘eu posso’, não desanime e coloque sempre um sorriso na cara. Só por hoje, aprenda a dizer não, saiba como se afastar de quem só lhe faz mal, aceite que não há nada de errado em viver sozinho. Só por hoje não hesite em pedir ajuda, não se esquive se por acaso precisarem de você, não faça com o próximo o que não queria para si mesmo.

Só por hoje acredite no amor, tente alcançar as estrelas, curta as metáforas e não ligue para as opiniões alheias. Analise as segundas chances ou escolha se libertar de vez. Só por hoje agradeça o poder das lágrimas e acredite na força que brota dos nossos piores dias. Só por hoje!

Só por hoje, pare de se angustiar com o futuro, não procure respostas para perguntas difíceis, não questione o destino. Tente se aceitar como você é, destrua preconceitos, deixe de ser maldoso, pare para escutar o que o outro tem a dizer. Só por hoje não se ache melhor que ninguém, não imponha seus métodos, suas regras ou sua forma de enxergar a vida. Só por hoje, agradeça pelo que passou e espere como uma criança pelo presente que está por vir.

Só por hoje faça o caminho oposto. Só por hoje. Hoje. Hoje. Hoje e hoje. Até que se torne todos os dias.

Resiliência, para não desistir de nós

É ela, a resiliência, que nos faz florir mesmo nos períodos mais secos (Foto: Free Images)
É ela, a resiliência, que nos faz florir mesmo nos períodos mais secos (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Um ano atrás, descobri uma lesão na coluna que me impossibilitou de fazer tarefas no cotidiano que me proporcionavam muito prazer. Dormir causava incômodo, ficar em pé não adiantava e sentar era extremamente desconfortável. Apesar desse tripé desanimador, não havia contusão que me bloqueasse os movimentos ou que me impedisse de realizar o obrigatório do dia a dia. Quando questionava o médico, a resposta – apesar de vir em um tom terno e paternal de quem tenta consolar um filho – me assustava: entre cuidados paliativos, períodos de crise e momentos de tranquilidade, eu teria que aprender a conviver com aquilo.

Olha que engraçado. Entre todas as fases, desde a revolta até a resignação, a gente acaba descobrindo uma palavra de ordem essencial para não desistir jamais. Ela que, me acompanhou em inúmeras consultas na fisioterapia. Que me fez acordar cedo para enfrentar dores incompreensíveis de técnicas que eu, sinceramente, nunca tinha ouvido falar. Que me fez engolir todos os xingamentos matinais ao ter que suportar várias sessões de pilates. Que esteve junto ao me fazer resistir e repetir de um até dez cada posição. Sem parar, em todo e qualquer movimento. Sobe, desce. Estica a coluna, enrola a coluna. Alongue direito, fique ereta, engula o choro.

Uma companheira que me consolou por tantos momentos, ao me aninhar quando eu não conseguia dormir. Ao me lembrar a cada dez minutos que eu teria que escolher uma nova e definitiva forma de sentar. Ao voltar comigo mais cedo para casa quando a dor não me deixava continuar até mais tarde nos mais diversos lugares. E a estar comigo, contendo meus pulos de alegria, quando recebi a notícia ‘sim, você agora já pode voltar a treinar’. Foi ela, é ela e vai continuar sendo, a resiliência.

Sem explicações, sem tempo para grandes questionamentos e profundas reflexões, ela é uma companheira que não te dá espaço para lamentar. Está ali, em cada minutinho do seu dia, no passar das semanas, ao longo dos anos. Soprando baixinho no seu ouvido que não há tempo para se perguntar o porquê de certas coisas terem acontecido.

Foi ela, é ela e vai continuar sendo a resiliência que segura nossa mão nos momentos mais difíceis, que nos dá o entendimento necessário para compreender que o importante não é ser forte, é conseguir ser flexível. Ela, que nos faz aprender que não importa quanto a gente consegue consegue bater, ser resiliente é saber quanto você consegue apanhar (obrigada, Balboa).

É ela, que nos faz florir mesmo nos períodos mais secos. Que nos cerca de primavera para que esqueçamos as pedras que aparecem no meio do caminho. Que alivia os dias chuvosos com algumas boas ideias para não esquecer de seguir em frente. Que nos faz transformar as lágrimas em risada para, lá na frente, entender que enxergar o lado bom da vida é imprescindível para a alma. Ela, que nos dá paciência para suportar as intempéries do tempo, riscando no calendário os dias mais desgastantes. Resiliência, que nos acompanha mesmo quando não queremos companhia. Um colo nas horas da solidão. Um afago nos momentos de pressão. Uma palavra amiga quando tentam te colocar pra baixo. A decisão de ficar quando o que você quer mesmo é fugir.

Lá trás, escutei outros casos, absorvi experiências e agradeci todos os dias mesmo sem saber o porquê naquele período. Eis que foi ali, no meio de uma das maiores tempestades da minha vida, que descobri o essencial. Para muitos de nós, resiliência não é mais uma opção. Passa a ser necessidade e urgência. Para não desistir dos outros e, principalmente, de nós.

Amadurecimento aperta o coração, mas é um abraço na alma

Imagem de pessoa de costas olhando para arco-íris (Foto: Free Images)
Amadurecimento é, entre tantas coisas, suportar a tempestade ansioso pela chegada do arco-íris (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Quando eu era mais nova, acreditava que ser adulto era ter a capacidade de realizar meus sonhos. Entrar nas festas que os mais velhos viviam falando sobre ou ter meu próprio dinheiro. Dinheiro esse que eu imaginava que poderia gastar somente com besteiras. Ser adulto na minha imaginação era morar em um apartamento sozinha. Um espaço onde eu poderia receber todos os amigos que quisesse e sempre que estivesse afim, de preferência todos os dias, já que minha mãe só me deixava ver os amigos entre a sexta e o domingo.

Ser adulto para mim naquela época era ter o privilégio de abraçar o mundo com sem dificuldade e ajudar todos que precisassem com a grana que eu ganharia. Grana essa que viria muito mais fácil que nas partidas de Banco Imobiliário. Era ter um carro e poder dirigi-lo sempre que meus pais pegassem no meu pé. Ser adulto para mim, entre tantos outros planos maravilhosos e metas invejáveis, era encontrar o grande amor da minha vida antes dos 25 anos e já ter, pelo menos, dois filhos com ele.

Pense como dói crescer e perceber que ser adulto, na verdade, é ficar sem chão milhares de vezes. É sentir, por diversos momentos, aquele aperto no coração por saber que não há para onde fugir quando o seu mundo está uma confusão. É ter vontade de desistir da brincadeira porque ela está pesada demais e ninguém lhe avisou que era na vera. Crescer é se desesperar ao entender que nem sempre teremos colo de mãe ou pai para pedir abrigo quando alguém lhe machuca ou tudo sai errado no seu dia. Entrar na vida adulta é perceber, meu amigo, que ninguém admite que você seja café com leite.

Assusta saber que não há um ritual de iniciação neste processo. Você começa chutando algumas pedras bem pequenas. Faz umas firulas aqui, paga uma conta ali, outra acolá. Depois aparecem alguns obstáculos maiores, beleza. Primeiro as barreiras são espaçadas, dá tempo da gente respirar e relaxar um pouco. Mas aí depois, você pula um e já vem outro. É a vida mostrando que ser adulto é tomar um monte de decisões sem ter a chance de pensar e torcer para não cair logo depois.

Venho percebendo que ser adulto não é só realizar sonhos, é ter a força e a resistência de correr bastante atrás deles, já que muitos vão se esconder pelo meio do caminho. Que meu dinheiro quase não dá e quando dá é muito pouco. Por isso mesmo ser adulto não tem nada a ver com a permissão para entrar em festas, até porque você quase nunca tem grana para bancar todas elas. Ainda sonho com aquele apartamento e vivo agoniada tentando manter contato – nem que seja virtual – com meu punhado de amigos. A brincadeira me fez ver que é humanamente impossível abraçar todos os meus projetos e às vezes eu vou ter que ir dormir chorando porque não pude ajudar quem eu queria ver feliz. O carro, na maioria das vezes, só serve para te deslocar ao trabalho e mesmo que você queira fugir, acredite, não terá para onde ir.

Mas se tem uma coisa que a vida adulta nos concede como um presente, nunca de mão beijada, é esse tal do amadurecimento. Um presente que ela nos dá todo santo dia. Quando nos desfazemos de vícios antigos, quando cortamos relações abusivas, ao olharmos sempre em frente, quando aprendemos na marra a cuidar das nossas feridas sozinhos, quando decidimos não nos importar mais com besteiras e quando tentamos ser um pouco mais flexíveis com as artimanhas que surgem na estrada.

Ao falar apenas o necessário e tentar escutar o que o nosso silêncio tem a nos dizer. É preferir estar sozinho a viver ao lado de um amor que de grande não tem é nada. Crescer é suportar a tempestade ansioso pela chegada do arco-íris. É entender qual o momento certo de bater em retirada. É saber que chorar não nos faz fracos, nos faz humanos. E também compreender que os erros não nasceram para serem repetidos, eles vieram ao mundo como uma oportunidade de nos mostrar que é possível fazer diferente.

Eu não fazia a menor ideia que ser adulto tinha a ver com amadurecimento. E muito menos que amadurecer dói bem fundo no coração. Mas que delícia saber que é como um abraço gostoso e apertado na nossa alma. Então é isso, acho que estamos prontos. Que comecem os jogos!

Nem começo nem final, felicidade é o meio do caminho

Vivemos de acreditar que a nossa linha do tempo deve ter períodos traçados apenas com linhas crescentes (Foto: Free Images)
Vivemos de acreditar que a nossa linha do tempo deve ter períodos traçados apenas com linhas crescentes (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Este texto provavelmente é para você, que procura um real sentido na sua trajetória. Ou para você, que vive agoniado em busca de encontrar algo que ama fazer. Ou para você, que agora que encontrou o que lhe dá satisfação não consegue entender porque depois de espremer seu sonhos de todas as maneiras possíveis não restou quase nada ou muito pouco daquilo que você jurou amar um dia. Mas esse texto é, principalmente, para você, que acorda todo dia em busca daquela sensação plena e de-li-cio-sa de alegria e que tem a certeza mais que absoluta que deve haver um ponto de chegada para conquistar este maravilhoso prêmio que é a felicidade.

Talvez o principal motivo de frustração nas nossas vidas seja essa mania de acreditar que os começos, apesar de desafiadores, sempre terminarão em finais que, uhul!, serão incríveis histórias de sucesso. Vivemos de acreditar que a nossa linha do tempo deve ter períodos traçados apenas com linhas crescentes. Que barra perceber que, na verdade, vivemos em um constante rabisco desgovernado que só sabe por onde começou mas não faz a mínima ideia de onde vai parar.

Deve ser realmente aterrorizante se dar conta que os começos são sempre assustadores e os finais quase sempre tristes. Frusta compreender que não há garantia de recompensas no final, mas, acredite, alivia saber que o que realmente importa é o meio. A gente precisa se lembrar disso quando estiver começando algo. Vamos sempre começar novos caminhos mas nunca saberemos onde iremos parar. Não dá para dizer, apenas aproveitar. Por isso, dê uma chance à esperança de florescer e ela eventualmente conseguirá fortalecer nossos recomeços.

Serão neles que você perceberá todo dia que felicidade é simplesmente aproveitar os detalhes, sair da zona de conforto, superar obstáculos, encontrar novas maneiras de enxergar a vida, desfrutar uma viagem com gente querida, realizar um punhado de sonhos, dar um abraço apertado em alguém que a gente gosta num dia meio nebuloso. Felicidade é conseguir mudar nossos defeitos, ajudar alguém que precisa, receber um telefonema especial, fazer as pazes com quem amamos, engolir nosso orgulho, é correr na chuva ou arrumar um tempinho para olhar o céu.

Felicidade é aprender algo novo todo dia, é agarrar as segundas chances, é matar a saudade de vez em quando, é receber um elogio, é ver que tem muito mais gente por nós do que contra nós. Felicidade é até a tristeza – somente por saber que alguém vai enxugar as nossas lágrimas ou estar por perto sempre pronto para ajudar. É conseguir, mesmo morrendo de medo, dizer tudo que você tem para dizer.

Pode ser tanta coisa – plantar uma árvore, fazer um filho, escrever um livro. Felicidade é receber uma carta em tempos digitais. Mas pode ser um whatsApp também. Felicidade é ser lembrado de alguma forma e também lembrar de alguém. É agradecer por perceber que tem muita gente por aí que é mais nós do que nós mesmos. Felicidade é um fim de semana de folga, é acordar tarde ou conseguir despertar cedo. Felicidade é conseguir riscar todas as tarefas do dia, mas também sair da linha! Nem que seja só um pouquinho.

Felicidade é parar de acreditar que ela só está no fim da estrada e simplesmente aproveitar a viagem. Aí então você vai saber o que é vibrar com as conquistas do próximo, vai conseguir correr atrás de alguns erros, vai querer amar sempre mais e melhor e vai agradecer todo santo dia. Pelas alegrias e até pelos atropelos. Tudo porque você finalmente entendeu que felicidade é muito mais do que ser, é também fazer por onde.

Amor próprio não é uma vingança, é uma reconciliação pessoal

Amor próprio não tem muito a ver com quem você é com o outro. É a capacidade de estar sozinho e não se sentir só (Foto ilustrativa: Free Images)
Amor próprio não tem muito a ver com quem você é com o outro. É a capacidade de estar sozinho e não se sentir só (Foto ilustrativa: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Uma vez li que amor próprio não tem nada a ver com se manter longe de conversas confusas ou relacionamentos destrutivos. Na verdade, em quase nada tinha relação com a superfície dos sentimentos. Era algo mais parecido com uma reconciliação particular, um acordo íntimo, uma paz peculiar. E, quem um dia consegue sentir, sabe que tem muito mais a ver com uma harmonia de pensamentos do que com uma mistura de posturas que mais tentam atingir o próximo do que curar a si mesmo.

É bem verdade. Amor próprio não tem muito a ver com quem você é para o outro. É muito mais sobre quem você é quando ninguém mais está vendo. Tem a ver com a capacidade de estar sozinho e não se sentir só. Não diz muito respeito a se dar valor. É compreender que, nesta área, você não precisa discutir preços.

Amor próprio em nada tem a ver com quem consegue sair para mais festas ou registrar os melhores sorrisos. Tem a ver com chegar em casa à noite, sozinho, e agradecer por não ter problemas com quem você é durante o dia. É conseguir sossegar ao colocar a cabeça no travesseiro.

Depois de algum tempo, você também percebe que amor próprio é muito mais uma ideologia do que um ponto de vista. É lutar todos os dias, não com os outros, mas consigo: para conseguir desfazer alguns preconceitos e abrir a mente para outras perspectivas. É mais como contar até dez e respirar fundo do que ficar apenas suspirando pelos cantos. Diz respeito como aprender a ser forte quando não se tem mais forças. É entender que vão rir de você nos momentos difíceis e esnobar suas maiores conquistas. Até que você descobre como observar tudo e apenas deixa ir.

E, se você quer saber, amor próprio não coloca ninguém em um pedestal. Pelo contrário, joga todo mundo na selva. E é justamente nessa hora que alguns percebem que amor próprio, creia, não tem muito a ver em mostrar algo para quem quer que seja – por ressentimento ou vingança. É, simplesmente, aprender a fazer as pazes com você mesmo.