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Texto originalmente publicado em coluna no Portal NE10

Pense num baque que é escutar a frase ‘ninguém é insubstituível’. Bem que parece uma prerrogativa de que somos todos iguais. Como se um certo alguém não trouxesse consigo uma bagagem especial, um mundo particular, tantos sonhos, tantas ideias divertidas, tantos trejeitos engraçados, tantas expressões que lhe são totalmente características. Como se não houvesse nada de diferente, nem um tantinho único. Singular, então, nem pensar.

Cansa só de lembrar das vezes que nos disseram que encontraríamos novos amigos, novos amores, criaríamos novos ciclos sociais. Daqui a pouco, olha lá!, as mesmas antigas interações, declarações iguaizinhas, saídas bem parecidas, abraços com a mesma intensidade. Você até confunde, não sabe quem ficou, quem foi e quem é de verdade. Relaxa, é o que dizem, você nem vai lembrar.

Termina que não apertamos os laços, não críamos raízes, não nos deixamos ficar, parece até que também nem queremos que os outros fiquem. Não estreitamos relações, não deixamos um pouco de nós no próximo e não levamos nada conosco. É como se repetíssemos sempre o mesmo erro, afinal na próxima parada haverá mais um outro alguém para construir uma mesma nova e velha história.

Temos a impressão de que em cada esquina encontraremos as mesmíssimas pessoas de antes em outras novas pessoas e que assim a caminhada continuará com os mesmos ideais. E então vamos criando relações frágeis, que nada aguentam, que pouco suportam, que em qualquer momento podem acabar. A gente não sabe o que fazer para ficar e depois pensa que na verdade não queríamos era continuar.

E assim desfazemos amizades, sejam elas virtuais ou reais, cortamos relações familiares, rompemos relacionamentos com uma facilidade que impressiona. Ninguém deixou uma marca. É a terra dos substituíveis. Colocamos preços nos outros e eles são fáceis demais de alcançar. É o reino da ‘vida que segue’. A gente faz uma besteira aqui, outra acolá e nos perdoamos. Mas seguimos fazendo sempre as mesmas coisas.

Claro, existirão novos amigos, novos amores, novas famílias – sejam elas de sangue ou não. Faz bem respirar novos ares, muito mais frescos. Mas a impressão que fica nesta frase é que, em muitos momentos, não sabemos agregar. É como se tivéssemos uma facilidade enorme de seguir em frente sem ter cuidado com aqueles que encontramos lá atrás. E, às vezes, quem tanto importa termina sendo substituível fácil demais. Que baque essa mania de dizer que ninguém é insubstituível.

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