Relembrar o passado é sofrer duas vezes

Parece fácil dizer para aproveitar o momento, quando até o passar dos ponteiros do relógio é sofrido para alguns (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

É inevitável que levemos para casa as vivências que passamos no ambiente profissional. E existem alguns ofícios que, apesar de penosos, nos trazem lições de vida diariamente. Esse é o meu caso. Posso não ter muita grana na conta bancária, mas acumulo inúmeras riquezas nesses bons (e poucos) anos como jornalista. Não tem nem um mês tive a oportunidade de ser escalada para uma pauta (para quem não entende do vocabulário ‘jornalístico’, pauta é quando somos direcionados para certo acontecimento a fim de produzir matéria sobre o tema ou acompanhar repórter que fará a reportagem) no Hospital da Mirueira, em Paulista. Engraçado como a gente pode aprender tanto, sobre tanta coisa, num só dia.

A começar, aprendi que não importa quão bem você conheça a região onde mora, sempre haverá um rincão pelo qual você nunca sequer imaginou passar um dia ou nunca ouviu falar da existência. Segundo, por mais adulto que você seja, algumas situações sempre te farão voltar a ser criança. Pode ser comida de avó, cheiro de terra molhada ou aquelas viagens de carro que pareciam intermináveis e que você insistia em perguntar: “Já está chegando?”. Terceiro, se você encontrar uma roda de jovens senhores conversando sobre a vida, não perca a chance de sentar por perto, assim, como quem não quer nada. Pode ter certeza que você sairá dessa experiência cheio de aprendizados na mala.

Na minha ingênua (e errônea) percepção, o local ficava no extremo ponto contrário de onde de fato está situado. Já devidamente localizada, nunca imaginei que passaria tanto tempo dentro de um carro se nem sequer sai da região metropolitana. Matuta que sou, consegui ficar enjoada e melhorar das náuseas no mínimo umas três vezes antes de chegar ao destino – e vale ressaltar que na volta também. E o pior, não importava quantas vezes o motorista afirmasse que “estava chegando”, o local parecia ainda mais distante. Sim, é a vida nos mostrando que podemos viver diversas aventuras antes mesmo de concluir a rota.

A unidade é referência no atendimento aos pacientes de hanseníase. Em outros tempos, quando a doença, carregada de preconceito, ainda era chamada de lepra, o hospital servia às recomendações do Serviço de Profilaxia e funcionava com uma verdadeira microcidade. Dessa forma, os acometidos pela doença viviam totalmente isolados do resto da sociedade. Até hoje, antigos pacientes ainda vivem nas vilas construídas. Durante toda a tarde, acompanhei um senhor que viveu no hospital nos tempos de outrora. Ali ele constituiu família e, mesmo curado, continuou trabalhando nas dependências do complexo hospitalar. A cada história que ele contava, eu reafirmava uma certeza: quem na vida passou por muitas dores é quem mais tem algo a nos ensinar.

Enquanto esperava o repórter terminar seu levantamento de dados, aproveitei para fazer um chamego num gato que perambulava entre alguns antigos moradores que conversavam na frente de suas casas. Aproveitei e pedi licença para me abrigar com a patota. Com o entardecer, outros vizinhos foram se juntando e, ao perceber que eu era figura estranha no pedaço, compartilhando suas histórias. Não havia um que não carregasse alguma sequela física da doença. E mesmo assim todos estampavam sorrisos marotos – mesmo ao contar suas piores agruras ao longo da vida.

Eu queria demais ter esse ânimo diante das crises. Como seria incrível se conseguíssemos passar pelas tempestades com a vivacidade de quem consegue enxergar e seguir atracado ao lado bom das dificuldades. Qual é a fórmula? Como alcançam essa proeza? O que fazem para nunca desanimarem diante dos fatos? Onde recarregam as boas energias? O segredo está na dieta? No ar que respiram? Nas orações que fazem na calada da noite?

No desespero de tentar entender o caminho, questionei os ‘jovens’ senhores. Após recordar com os amigos de suas estripulias na juventude, seus grandes feitos na estadia no hospital, suas histórias de família, suas conquistas pessoais, o líder do grupo respondeu sem titubear:

– Mas para que eu vou ficar recordando das coisas ruins que passei? Relembrar o passado é sofrer duas vezes…

Talvez seja esse um dos nossos principais erros. Não faço ideia das artimanhas que eles usam para seguir firmes e fortes aproveitando o que o ‘hoje’ tem de bom para nos dar. Mas fiquei pensando, no longo caminho da volta, que os verdadeiros sábios são aqueles que conseguem essa façanha.

Eu já esbarrei nos mais diversos discursos, mas poucos me atingiram de forma tão profunda. Me parece tão fácil dizer que devemos viver no presente quando nossa trajetória nunca se mostrou complicada. Que precisamos viver um dia de cada vez quando os dissabores se perpetuam ao longo das horas. Que devemos aproveitar o momento, quando até o passar dos ponteiros do relógio é sofrido para alguns.

Viver apenas o presente. Uma missão para os fortes, é o que eu diria. E ali, ao enjoar mais um tantinho de vezes no percurso de volta, olhando o sol se por pela janela do carro, fiquei pensando: quando eu crescer quero ser igual a eles… vou tentar não mais recordar o passado. Quem sabe esse é o segredo para viver de verdade.

*Você sabia que O amor que guardei para mim virou livro? Isso mesmo! Na metade de maio lancei minha primeira obra: Tudo passa, esse amor vai passar também. A publicação reúne 20 crônicas – dez publicadas ao longo desses dois anos de parceria com o portal NE10 e dez textos inéditos. Quer saber mais? Só acessar o instagram do blog (@oamorqueguardeiparamim) ou mandar um e-mail para mim no maluspmelo@gmail.com.

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