Preciso aprender a dizer adeus

Crônica publicada no livro
Tudo passa, esse amor vai passar também
Em maio de 2018

Por todas as vezes que insisti em relacionamentos falidos, por todas as rasas amizades a que dei inúmeras chances, por todas as situações insustentáveis que optei por aguentar sem necessidade, declaro oficial: tenho sérias dificuldades em dizer adeus. E é bem capaz de você se identificar comigo.

Há dois tipos de indivíduos: aqueles que se desprendem facilmente de acontecimentos e pessoas e os que não conseguem engatar marcha e seguir na estrada após os rompimentos. Estes não conseguem levar a sério a máxima de que “foi eterno enquanto durou”. Eles acreditam no “para sempre”, mesmo que o conto de fadas mais pareça ter virado um pesadelo.

Nas estações do trem que é a vida, me agarrei a todos aqueles que pediram parada. Cada despedida mais parece um parto no cotidiano de quem não sabe deixar o outro ir ou não suporta ter de fechar ciclos. No meu caso, foi dessa forma em todos os términos. No colegial, não conseguia me imaginar sem meus amigos após a formatura. Na faculdade, tinha pavor de me distanciar dos colegas mais próximos ao concluir a graduação. Ao ser demitida em um emprego, queria com todas as forças minha rotina de volta.

Partir em direção ao desconhecido é uma missão no mínimo desafiadora. E não são todos que têm a ousadia necessária de desbravar mares inexplorados com tanta facilidade. Alguns, ao encontro de tais aventuras, precisam lutar para entender que deixar para trás o que (ou quem ficou) não quer dizer que vão se afogar nas águas profundas.

Quem tem medo de dizer adeus geralmente não lida bem com mudanças. Temporárias ou – pior ainda – permanentes. Muitos têm medo de que o novo não seja tão bom quanto o velho, ainda que o futuro se mostre muito mais promissor que o passado. Outros creem que situações confortáveis não deveriam acabar. Mesmo que assim seja o ciclo irrefreável da vida.

Quem não suporta as despedidas acredita que até mesmo os cenários mais bizarros merecem uma segunda oportunidade, mesmo que não tenham mudado nem com reza braba. É muito provável que os que odeiam dizer adeus tenham também problemas até em aceitar os rompimentos espontâneos, que dirá os forçados pela vida.

Venho aprendendo a duras penas que não adianta adiar a partida. Elas vão acontecer, eu querendo ou não. O que me resta é juntar todos os meus retalhos e partir. E, por mais que eu queira o colo de mãe, abraço de amigo, beijo de parceiro, em muitos casos o “start” na nova trilha terá de ser um processo solitário. Preciso estar em mim, me bastar e apenas seguir.

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