Por que queremos ser tão especiais para o outro?

Crônica publicada no livro
Tudo passa, esse amor vai passar também
Em maio de 2018

Há algum tempo passei por uma situação desconfortável que me fez compreender, ao menos parcialmente, o motivo pelo qual tenho sérias dificuldades em certas relações afetivas. Foi um acontecimento tão incômodo que até hoje tenho vergonha de lembrar que vivenciei tamanho abacaxi. Vou resumir a ópera. Me perdoem por deixar os pormenores entre Deus, minha psicóloga e eu – é que ainda não me considero tão evoluída a ponto de compartilhar fatos que me constrangem toda vez que me recordo deles.

Durante um bom tempo, me consultei com uma psiquiatra para tratar um distúrbio que desenvolvi depois de tantas lapadas da vida (esta é a minha teoria, porque não está fácil para ninguém). Por acompanhar as pessoas em momentos extremamente delicados, esses especialistas tendem a estreitar o vínculo com seus pacientes, pelo menos nos períodos mais agudos da doença.

O fato é que meu cérebro – e coração – deve ter associado aquela figura a um meio de salvação para a encruzilhada em que me encontrava. Me agarrei a ela com todas as forças e desenvolvi uma dependência emocional difícil de explicar. Coisas de uma alma carente, hoje consigo entender.

Por causa disso, infelizmente nosso vínculo terapêutico precisou ser rompido. E isso me assustou demais. Uma parte de mim tinha receio de não conseguir evoluir no tratamento com outro médico. Outra parte sentia uma vergonha gigante de chegar ao ponto de precisar romper um tratamento médico por esperar demais de pessoas que não tinham obrigação – e também o interesse – de responder às minhas expectativas.

E foi ali que eu entendi, depois de tantos anos, que o problema era comigo. A verdade crua me rasgou por dentro com uma força surpreendente. Chorei em inúmeras sessões de terapia por compreender, afinal, que minhas carências afetivas terminavam por direcionar meu amor “não correspondido” para indivíduos que jamais poderiam lidar com a ausência de carinho em outros campos da minha vida.

Hoje vejo que este é o principal obstáculo na vida de pessoas carentes. De que forma canalizamos nossas faltas emocionais? Alguns engatam relacionamentos seguidos só para não ficarem sozinhos. Outros precisam estar sempre na companhia de amigos que preencham suas lacunas afetivas. Há também aqueles que têm a necessidade de sempre expressar seu amor e gostam de ter um feedback constante sobre suas relações. São inúmeros os jeitos que nós encontramos de suprir nossas ausências.

Mas o fato é que dói demais perceber que nem sempre conseguiremos inteirar aqueles pedacinhos que nos faltam. Que nem todo mundo que desperta nossa afeição – tantas e tantas vezes exageradas – vai estar disponível para exercer o papel que outras pessoas não desempenharam em nossas vidas.

Foi preciso um acontecimento extremo para que eu enxergasse que temos uma necessidade tremenda de sermos especiais aos olhos dos outros. E a constatação de que, em vários casos, somos simplesmente indiferentes para eles costuma dilacerar por dentro. Mais do que doer no coração, costuma atingir nosso ego com toda a força possível.

Chorei até que minha alma ficasse um pouco mais conformada. Agora estamos tentando compreender que tá tudo bem essa urgência em se sentir especial para alguém. É que muitas vezes fomos obrigados a aceitar vários descasos e negligências em nossas rotinas.

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