Em uma roda de conversa, uma amiga tentava convencer a outra de que nem todos demonstram do mesmo jeito o amor que sente pelo próximo. Que às vezes a gente dá demais e, PACIÊNCIA!, não recebe o mesmo de volta. Enquanto eu escutava a conversa, me veio à cabeça todas as vezes que depositei muito de mim no outro. De quantos “como está você?” nunca escutei uma resposta e, o pior, quando a pergunta nunca me foi merecidamente devolvida.

Pensei nas expectativas. Um pouco de cada. Aquelas que doem lá no fundo, daquelas que angustiam. Ou aquelas que plantamos, regamos e esperamos brotar. E quando elas não brotam, deixam as decepções. Daquelas que magoam e que desencantam. Que deixam um rastro de desconfiança. Seja por um mês ou um ano.

Lembrei de alguém que nunca lembrou de volta. Dos momentos que forcei amigavelmente – ou talvez não – uma aproximação mas, deliberadamente, não fui bem interpretada. Dos mau entendidos que nunca fizeram questão de desfazer. Dos nós que nunca voltaram a ser laços, por pura e simples falta de vontade. Lembrei também das conversas que tentei iniciar e não houve o mínimo de interesse. Aquela vontade de saber de mim, de estar por mim e ser por mim. Lembrei um pouco das diversas amizades que acabaram ou passaram para aquele plano dos apenas conhecidos. Por culpa dos outros e por muita culpa minha também. E, mesmo assim, me pareceu inevitável continuar criando expectativas. Até porque somos feitos delas.

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Criar expectativas é como construir um castelo de areia e ver ele indo embora com as ondas (Foto: Free Images)

Criar expectativas é como construir um castelo de areia na beira da praia. É um construir vagaroso e ansioso. Bem sonhadoramente. É ter controle sobre sua própria criação. E sentir a frustração da perda quando as ondas levam ele para bem longe. Criar expectativas é como desejar uma torta e, na primeira garfada, perceber que o sabor dela não tinha nada a ver com o que você fantasiava. É ganhar um presente que não tem nada a ver com você. É adorar a roupa na vitrine e, no provador, ter a certeza que ela não foi feita para você. Criar expectativas é contar seu maior segredo e não saber o que o outro vai fazer com ele.

É sempre assim. Quando a gente quer muito algo, se agarra a qualquer coisa para esquecer a realidade. Somos assim no fim de relacionamentos. Nos dramas familiares. Em crises nas amizades. Quando não temos medo de criar expectativas, temos medo de não corresponder às expectativas criadas por nós e para nós.

Acabou que nem terminamos a conversa. Ficamos ali, no meio desse assunto que não tem fim. Não tem meio termo. E quase não tem mágica. Mas, pensando bem, mesmo sem fórmulas, sempre podemos seguir por alguns caminhos. Pare pra pensar: Quem quer dar um jeito. Quem não quer sempre arruma uma desculpa. Quem gosta faz questão de demonstrar. Nunca se esconde, nunca te deixa na zona do desconforto. Sempre te coloca na direção certa. Quer sua companhia. Nas melhores e piores horas também. Quem quer, faz por onde. Deixa uma mensagem. Faz uma ligação.

Quem gosta, esquece as brigas. Engole o orgulho e aceita alguns defeitos. Faz questão de estar ali. De alguma forma e de tantos e tantos jeitos. Quem se importa nunca te deixa cheio de dúvidas! É, amiga, o mais interessante é que quando o amor é via de mão dupla não precisamos das expectativas. Elas são as próprias respostas.

4 comments on “Por que criamos tantas expectativas?”

  1. Tava com saudade dos teus textos. E eu acho que esse tempo sem postar, foi bom. Porque esse texto foi inspirador demais. ???? Parabéns pela sensibilidade e delicadeza em descrever esses nossos dilemas diários. ❤️

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