Amadurecimento aperta o coração, mas é um abraço na alma

Imagem de pessoa de costas olhando para arco-íris (Foto: Free Images)
Amadurecimento é, entre tantas coisas, suportar a tempestade ansioso pela chegada do arco-íris (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Quando eu era mais nova, acreditava que ser adulto era ter a capacidade de realizar meus sonhos. Entrar nas festas que os mais velhos viviam falando sobre ou ter meu próprio dinheiro. Dinheiro esse que eu imaginava que poderia gastar somente com besteiras. Ser adulto na minha imaginação era morar em um apartamento sozinha. Um espaço onde eu poderia receber todos os amigos que quisesse e sempre que estivesse afim, de preferência todos os dias, já que minha mãe só me deixava ver os amigos entre a sexta e o domingo.

Ser adulto para mim naquela época era ter o privilégio de abraçar o mundo com sem dificuldade e ajudar todos que precisassem com a grana que eu ganharia. Grana essa que viria muito mais fácil que nas partidas de Banco Imobiliário. Era ter um carro e poder dirigi-lo sempre que meus pais pegassem no meu pé. Ser adulto para mim, entre tantos outros planos maravilhosos e metas invejáveis, era encontrar o grande amor da minha vida antes dos 25 anos e já ter, pelo menos, dois filhos com ele.

Pense como dói crescer e perceber que ser adulto, na verdade, é ficar sem chão milhares de vezes. É sentir, por diversos momentos, aquele aperto no coração por saber que não há para onde fugir quando o seu mundo está uma confusão. É ter vontade de desistir da brincadeira porque ela está pesada demais e ninguém lhe avisou que era na vera. Crescer é se desesperar ao entender que nem sempre teremos colo de mãe ou pai para pedir abrigo quando alguém lhe machuca ou tudo sai errado no seu dia. Entrar na vida adulta é perceber, meu amigo, que ninguém admite que você seja café com leite.

Assusta saber que não há um ritual de iniciação neste processo. Você começa chutando algumas pedras bem pequenas. Faz umas firulas aqui, paga uma conta ali, outra acolá. Depois aparecem alguns obstáculos maiores, beleza. Primeiro as barreiras são espaçadas, dá tempo da gente respirar e relaxar um pouco. Mas aí depois, você pula um e já vem outro. É a vida mostrando que ser adulto é tomar um monte de decisões sem ter a chance de pensar e torcer para não cair logo depois.

Venho percebendo que ser adulto não é só realizar sonhos, é ter a força e a resistência de correr bastante atrás deles, já que muitos vão se esconder pelo meio do caminho. Que meu dinheiro quase não dá e quando dá é muito pouco. Por isso mesmo ser adulto não tem nada a ver com a permissão para entrar em festas, até porque você quase nunca tem grana para bancar todas elas. Ainda sonho com aquele apartamento e vivo agoniada tentando manter contato – nem que seja virtual – com meu punhado de amigos. A brincadeira me fez ver que é humanamente impossível abraçar todos os meus projetos e às vezes eu vou ter que ir dormir chorando porque não pude ajudar quem eu queria ver feliz. O carro, na maioria das vezes, só serve para te deslocar ao trabalho e mesmo que você queira fugir, acredite, não terá para onde ir.

Mas se tem uma coisa que a vida adulta nos concede como um presente, nunca de mão beijada, é esse tal do amadurecimento. Um presente que ela nos dá todo santo dia. Quando nos desfazemos de vícios antigos, quando cortamos relações abusivas, ao olharmos sempre em frente, quando aprendemos na marra a cuidar das nossas feridas sozinhos, quando decidimos não nos importar mais com besteiras e quando tentamos ser um pouco mais flexíveis com as artimanhas que surgem na estrada.

Ao falar apenas o necessário e tentar escutar o que o nosso silêncio tem a nos dizer. É preferir estar sozinho a viver ao lado de um amor que de grande não tem é nada. Crescer é suportar a tempestade ansioso pela chegada do arco-íris. É entender qual o momento certo de bater em retirada. É saber que chorar não nos faz fracos, nos faz humanos. E também compreender que os erros não nasceram para serem repetidos, eles vieram ao mundo como uma oportunidade de nos mostrar que é possível fazer diferente.

Eu não fazia a menor ideia que ser adulto tinha a ver com amadurecimento. E muito menos que amadurecer dói bem fundo no coração. Mas que delícia saber que é como um abraço gostoso e apertado na nossa alma. Então é isso, acho que estamos prontos. Que comecem os jogos!

Nem começo nem final, felicidade é o meio do caminho

Vivemos de acreditar que a nossa linha do tempo deve ter períodos traçados apenas com linhas crescentes (Foto: Free Images)
Vivemos de acreditar que a nossa linha do tempo deve ter períodos traçados apenas com linhas crescentes (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Este texto provavelmente é para você, que procura um real sentido na sua trajetória. Ou para você, que vive agoniado em busca de encontrar algo que ama fazer. Ou para você, que agora que encontrou o que lhe dá satisfação não consegue entender porque depois de espremer seu sonhos de todas as maneiras possíveis não restou quase nada ou muito pouco daquilo que você jurou amar um dia. Mas esse texto é, principalmente, para você, que acorda todo dia em busca daquela sensação plena e de-li-cio-sa de alegria e que tem a certeza mais que absoluta que deve haver um ponto de chegada para conquistar este maravilhoso prêmio que é a felicidade.

Talvez o principal motivo de frustração nas nossas vidas seja essa mania de acreditar que os começos, apesar de desafiadores, sempre terminarão em finais que, uhul!, serão incríveis histórias de sucesso. Vivemos de acreditar que a nossa linha do tempo deve ter períodos traçados apenas com linhas crescentes. Que barra perceber que, na verdade, vivemos em um constante rabisco desgovernado que só sabe por onde começou mas não faz a mínima ideia de onde vai parar.

Deve ser realmente aterrorizante se dar conta que os começos são sempre assustadores e os finais quase sempre tristes. Frusta compreender que não há garantia de recompensas no final, mas, acredite, alivia saber que o que realmente importa é o meio. A gente precisa se lembrar disso quando estiver começando algo. Vamos sempre começar novos caminhos mas nunca saberemos onde iremos parar. Não dá para dizer, apenas aproveitar. Por isso, dê uma chance à esperança de florescer e ela eventualmente conseguirá fortalecer nossos recomeços.

Serão neles que você perceberá todo dia que felicidade é simplesmente aproveitar os detalhes, sair da zona de conforto, superar obstáculos, encontrar novas maneiras de enxergar a vida, desfrutar uma viagem com gente querida, realizar um punhado de sonhos, dar um abraço apertado em alguém que a gente gosta num dia meio nebuloso. Felicidade é conseguir mudar nossos defeitos, ajudar alguém que precisa, receber um telefonema especial, fazer as pazes com quem amamos, engolir nosso orgulho, é correr na chuva ou arrumar um tempinho para olhar o céu.

Felicidade é aprender algo novo todo dia, é agarrar as segundas chances, é matar a saudade de vez em quando, é receber um elogio, é ver que tem muito mais gente por nós do que contra nós. Felicidade é até a tristeza – somente por saber que alguém vai enxugar as nossas lágrimas ou estar por perto sempre pronto para ajudar. É conseguir, mesmo morrendo de medo, dizer tudo que você tem para dizer.

Pode ser tanta coisa – plantar uma árvore, fazer um filho, escrever um livro. Felicidade é receber uma carta em tempos digitais. Mas pode ser um whatsApp também. Felicidade é ser lembrado de alguma forma e também lembrar de alguém. É agradecer por perceber que tem muita gente por aí que é mais nós do que nós mesmos. Felicidade é um fim de semana de folga, é acordar tarde ou conseguir despertar cedo. Felicidade é conseguir riscar todas as tarefas do dia, mas também sair da linha! Nem que seja só um pouquinho.

Felicidade é parar de acreditar que ela só está no fim da estrada e simplesmente aproveitar a viagem. Aí então você vai saber o que é vibrar com as conquistas do próximo, vai conseguir correr atrás de alguns erros, vai querer amar sempre mais e melhor e vai agradecer todo santo dia. Pelas alegrias e até pelos atropelos. Tudo porque você finalmente entendeu que felicidade é muito mais do que ser, é também fazer por onde.

Amor próprio não é uma vingança, é uma reconciliação pessoal

Amor próprio não tem muito a ver com quem você é com o outro. É a capacidade de estar sozinho e não se sentir só (Foto ilustrativa: Free Images)
Amor próprio não tem muito a ver com quem você é com o outro. É a capacidade de estar sozinho e não se sentir só (Foto ilustrativa: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Uma vez li que amor próprio não tem nada a ver com se manter longe de conversas confusas ou relacionamentos destrutivos. Na verdade, em quase nada tinha relação com a superfície dos sentimentos. Era algo mais parecido com uma reconciliação particular, um acordo íntimo, uma paz peculiar. E, quem um dia consegue sentir, sabe que tem muito mais a ver com uma harmonia de pensamentos do que com uma mistura de posturas que mais tentam atingir o próximo do que curar a si mesmo.

É bem verdade. Amor próprio não tem muito a ver com quem você é para o outro. É muito mais sobre quem você é quando ninguém mais está vendo. Tem a ver com a capacidade de estar sozinho e não se sentir só. Não diz muito respeito a se dar valor. É compreender que, nesta área, você não precisa discutir preços.

Amor próprio em nada tem a ver com quem consegue sair para mais festas ou registrar os melhores sorrisos. Tem a ver com chegar em casa à noite, sozinho, e agradecer por não ter problemas com quem você é durante o dia. É conseguir sossegar ao colocar a cabeça no travesseiro.

Depois de algum tempo, você também percebe que amor próprio é muito mais uma ideologia do que um ponto de vista. É lutar todos os dias, não com os outros, mas consigo: para conseguir desfazer alguns preconceitos e abrir a mente para outras perspectivas. É mais como contar até dez e respirar fundo do que ficar apenas suspirando pelos cantos. Diz respeito como aprender a ser forte quando não se tem mais forças. É entender que vão rir de você nos momentos difíceis e esnobar suas maiores conquistas. Até que você descobre como observar tudo e apenas deixa ir.

E, se você quer saber, amor próprio não coloca ninguém em um pedestal. Pelo contrário, joga todo mundo na selva. E é justamente nessa hora que alguns percebem que amor próprio, creia, não tem muito a ver em mostrar algo para quem quer que seja – por ressentimento ou vingança. É, simplesmente, aprender a fazer as pazes com você mesmo.

O que é estar em paz

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Em certo momento da vida, é preciso perceber que não somos obrigados a nada. Nada que nos faz mal, nos consome, nos destrói ou nos humilha (Foto ilustrativa: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Dia desses passei por uma situação extremamente desconfortável. Daqueles momentos em que você procura um buraco para se enfiar, um táxi para chamar ou alguém para abraçar. Por um instante, me forcei a ficar e encarar algo que realmente não me fazia bem. Mas, que sorte a nossa essa que é termos amigos. Ela me olhou e disse: “Vamos sair daqui?”. “Bora”. E, pronto, fomos.

Ao contar a história para outras pessoas, nos recriminaram. Pelas regras da etiqueta, deveríamos ter ficado. Ora, mas você deve encarar. Deveria ter enfrentado. Seja superior. Enfrente, supere.

Esse é o problema. É muita gente apontando as melhores saídas para as questões do nosso coração. Mas, em certo momento da vida, é preciso perceber que não somos obrigados a nada. Nada que nos faz mal, nos consome, nos destrói ou nos humilha. Andando ou correndo, que saibamos sempre o momento certo de partir, sem dar a oportunidade para que nos maltratem.

Eis outro problema. Nos obrigam a aceitar joguinhos, dançar conforme a música, baixar a cabeça para atitudes que só nos colocam para baixo. Somos quase que coagidos a ignorar maus tratos, compreender o egoísmo alheio e aturar a imaturidade do próximo.

O maior problema de todos, no entanto, é que, pelos outros, tantas e tantas vezes nos anulamos. Temos que falar com quem não nos faz bem, temos que cumprimentar quem nada nos acrescenta e precisamos engolir um monte de sapos só para satisfazer a sociedade. É como não saber o que é felicidade de verdade. Viver se arrastando e não conseguir dizer como se sente de verdade. Como se os outros tivessem uma enorme capacidade de nos fazer perder a voz.

Mas o bom de momentos como esse é que ele nos ensinam que, acredite, não precisamos provar nada para ninguém. E quando nós aprendemos que, sinceramente, não somos obrigados é como se soubéssemos de verdade o que é estar em paz.

Esta incrível geração que muito fala e pouco escuta

Ilustração: Guilherme Castro / NE10
Será que vivemos em uma geração que só sabe contar seus problemas, mas parece não ter forças para ajudar nos contratempos que não lhe compete? (Ilustração: Guilherme Castro / NE10)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Uma peculiar geração que não sabe o que é ter paciência, que não compreende os sinais, que não gosta de fazer perguntas pelo pior motivo: nunca têm interesse nas respostas. Uma diferente geração que não se importa com os problemas alheios, não questiona seus próprios erros e que não tenta entender os seus anseios.

Uma particular geração que não responde ‘bom dia’, não sabe dizer ‘obrigada’, não sente necessidade de pedir ‘desculpas’ e simplesmente não entende o poder de um elogio. Uma espécie de desânimo pelas questões do próximo e um profundo desinteresse pela confusão que não faz parte do seu próprio mundo.

Uma especial geração que só sabe contar seus problemas, mas parece não ter forças para ajudar nos contratempos que não lhe compete. Que reivindica atenção, mas não sabe o que é estar junto, mesmo quando não está perto. Uma classe que compartilha o amor nas redes sociais, mas não tem a capacidade de estender a mão amiga se o seu momento não é tão ruim como o do outro.

Uma diferente geração na qual as trocas não são uma via de mão dupla. O lugar do outro, creia, é um destino pouco escolhido. As conversas são interrompidas a cada cinco minutos para uma longa checagem no celular. Os registros são muito mais importantes do que o momento – mesmo que de verdadeiro tenha muito pouco, quase nada.

Uma geração que pouco se incomoda com as injustiças do cotidiano. Que transforma em risada as lágrimas alheias. Que faz pouca ou nenhuma questão de aprender com quem sabe. Que não tira um momento para refletir. Que subestima a importância do luto e tem a certeza que a felicidade é a chegada, nunca a caminhada.

Essa é a geração que vive escrava dos padrões que lhe impõem diariamente. Essa é a geração que só sabe dizer ‘sim’ para todos os pequenos abusos, mesmo que algo lá dentro lhe peça sonoros ‘não’. Que só encarna seu próprio eu quando ninguém mais está vendo. Que tem vergonha de clichês por serem batidos demais, de lugares comuns porque todos já foram lá, de sentimentos banais porque parece que é pecado sentir demais.

Esta é a incrível geração que muito fala e pouco escuta. Os outros e a si mesmo.