Melhor ser quente ou frio, morno jamais

Ser intenso é prejuízo, dizem por aí. Não é descolado, nem muito menos atraente e causa até gastrite (Foto ilustrativa: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

‘Sabe qual é o seu problema? Não me leve a mal. É que você é intensa demais’, escutei um dia desses. Talvez seja esse o problema de tantas pessoas, admito. Não saber o que é o meio termo para tantos dilemas na vida. Se entregar por inteiro ou não se abrir de forma alguma. Não querer nada de pouco, sempre de muito. E quando não quer, não quer de jeito nenhum. Sentir a alegria que quase beira a euforia e amargar o fundo do poço dos mais profundos. Não ter opinião formada sobre tudo ou defender ao extremo seus princípios. Mas nunca ficar em cima do muro.

Talvez seja essa a mancada de muita gente, pensei. Não saber ser pequeno. Querer ser grande, sempre muito maior. Aquele tipo de pessoa que é sim ou não: nunca talvez. Gente que odeia conversas triviais que não passam de cumprimentos desinteressados. Gente que gosta de textão, um papo mais interessante, arraigado mesmo. Que bate bem lá no íntimo. Que só sabe chorar de muito ou não consegue derramar uma lágrima que seja. Ah! pensei naquela hora, talvez seja esse o inconveniente de muita gente: se importar demais.

Apesar do impacto inicial com a crítica, lembrei de momentos anteriores que já haviam me ‘diagnosticado’ com esse infortúnio. Como se os intensos demais fossem afrontas à uma sociedade milimetricamente ajustada. Colocados num cantinho qualquer, totalmente excluídos, pagando o castigo por serem too much para um mundinho bom demais para ser descontrolado.

Ser intenso é prejuízo, dizem por aí. Não é descolado, nem muito menos atraente. Faz mal, causa até gastrite, acredita? É melhor ser desapegado do que estar sempre por perto. O elegante é guardar tudo que se tem para dizer, pecar pela falta do que investir no excesso. Menos é mais.

Não há como não se sentir estranho no ninho…

… alguns decidem reprimir os sentimentos, outros optam por subir no muro de vez. Com a maturidade, outros aprendem a medir a dose e tentam não transbordar o copo, num malabarismo eterno em busca do equilíbrio. Muitos inclusive entendem a danada da fórmula perfeita para controlar os impulsos e compreendem que ser intenso não necessariamente é um defeito, afinal… Melhor ser quente ou frio, morno jamais! 🙂

Pessoas que abraçam nossa alma

Imagem de gatos se abraçando (Foto ilustrativa: Free Images)
Alguns momentos nos obrigam a olhar para o lado e entender a importância de não se sentir só (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Definitivamente, a vida é feita de encontros. Alguns doces, outros amargos, outros bem insossos. Uns que demoram e outros muito breves. Ultimamente venho questionando duramente a razão pela qual tantas pessoas entram e saem das nossas vidas. Muitas vezes sem aviso e tantas outras sem despedidas. Na maioria do tempo, os encontros vão se sucedendo, como esbarrões ao acaso, sem que a gente tenha noção de como alguns presentes têm um motivo especial para aparecer em nossa caminhada.

Eu nunca tinha questionado a fundo o poder que algumas pessoas exercem em nossas trilhas. Como no automático, vamos seguindo nosso caminho sem nos preocupar em quem ocupa o lugar do passageiro ou escolhe ir na garupa. Seguimos, porque é urgente e necessário. Tantas vezes sozinho, muitas vezes acompanhado. Apenas seguimos. Porque é obrigatório.

Até que alguns acidentes na rotina nos obriga a entender o quão essencial é olhar para o lado. Pedir ajuda, estender a mão. Deixar que enxuguem as nossas lágrimas. Nos sentir amparados é a expressão. Deixar que nos embale, nos conforte. Vá lá que seja por alguns minutos ou por várias horas. Por dias, não importa. Não se sentir só é o termo correto.

Eu também nunca tinha pensado como reservar um momento do nosso dia para alguém que esteja precisando dele pode lançar um raio de luz na escuridão de quem enfrenta batalhas internas. Não necessariamente estar por perto, mas estar presente. Até porque pedir ajuda não é sinal de fracasso. Ignorar o pedido, no entanto, é sinal de que algo está muito errado na humanidade.

Se puder fazer valer os encontros…

… tire um tempo para ligar para um amigo. Colocar o papo em dia. Esquecer as desavenças e desfazer os nós. Vai lá, ele pode estar precisando de você neste exato momento. Se puder fazer valer os encontros, faça uma visita ao seu pai, sua mãe ou seu filho. Deixa para depois as intrigas e as cobranças. Eles podem estar na pior, só esperando alguém que os coloque para cima.

Se puder fazer valer os encontros, escute os problemas dos outros. Tenha paciência com as queixas alheias e faça uma boa ação por dia para alguém que você ama. Tem pressa não, mas também não deixe passar da hora. Se puder fazer valer os encontros, tente entender aqueles que estão sempre por você e não esqueça nem por um minuto: quem vai sozinho pode até chegar mais rápido, mas quem segue acompanhado com certeza percorre distâncias maiores.

Venho passando os dias entendendo, a duras penas, que alguns encontros não fazem sentido. Como peças de um quebra cabeça que não encaixam, é melhor deixar que eles sigam no próximo trem. Alguns encontros, no entanto, valem todo o esforço. Posso dizer o por quê? É como se essas pessoas tivessem o poder de abraçar nossa alma.

É urgente amar, mas é necessário falar sobre o amor também

Teimamos em achar que aqueles que amamos já sabem da grandeza de nossos sentimentos. Custa nada reforçar (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Lá estava eu, passando o feed de notícias, quando me deparo com uma publicação de uma grande amiga. O texto dizia que devíamos parar de falar sobre o amor. Qualquer um poderia falar sobre o amor. Mas o que realmente importava era o que fazíamos para aqueles que amávamos. Era a única coisa que contava. Fiquei chocada. Não poderia discordar mais ferrenhamente.

Aceito que cada um tem seu jeito de amar, de demonstrar carinho e preocupação. Acato qualquer que seja as manifestações afetivas: dos gestos mais simples do dia a dia até aqueles que nos salvam de grandes tempestades. Um abraço, uma ligação no meio da noite, um presente, quem sabe até um aperto de mão. Isso é amor, não duvido. Mas acho também que não é a única coisa que conta. Conta muito, mas não fecha a conta.

Nesta rotina que tantas e tantas vezes nos sufoca, acabamos por asfixiar as palavras mais bonitas que temos para dizer ao próximo. Teimamos em achar que aqueles que amamos já sabem da grandeza de nossos sentimentos por eles. E eles sabem. Mas custa muito reforçar?

Compreendo que o amor se expressa muito mais nas nossas ações do que em palavras que se esvaziam de sentido muito rápido. Não vou mentir: sei que é muito melhor estar presente de fato do que apenas saber escrever um texto bonito. Ter alguém do seu lado, em dias bonitos ou nublados, é essencial. Nos faz sentir mais fortes e prontos para enfrentar qualquer guerra, mesmo que algumas batalhas precisem ser enfrentadas sozinhos.

Mas não vou mentir também: ter a certeza que somos amados é bom demais. Funciona mais ou menos assim: quando recebemos um abraço seguido de um eu te amo. Ou aquele recado especial em um dia que de importante nada tem. Funciona principalmente quando, nos momentos em que mais precisamos, aqueles que amamos nos dizem com todas as letras: eu estou aqui. E realmente estão, sem que para isso precisemos sempre pedir ajuda.

Venho tentando entender o porquê de reservamos nossos mais lindos discursos apenas para as datas comemorativas. O medo de nos sentir bobos e piegas nos afugenta de tal forma que não sabemos agir quando somos obrigados a demonstrar verbalmente nosso afeto em dias comuns.

Lembro que, em um curso de meditação, nos mandaram ligar (ou enviar uma mensagem) para três pessoas que considerávamos essenciais em nossa vida. Precisávamos dizer, com todas as palavras, o quão importantes elas eram para nós. Ao ligar para uma amiga – a mesma do início do texto – eu só consegui dizer: estou te ligando para dizer que você é muito importante para mim. Ela não entendeu bem: é o que, amiga? Não consegui terminar a frase, só fazia chorar. De vergonha, por nunca ter dito isso antes. De felicidade, por ter a oportunidade de dividir minha vida com ela. E de gratidão, por saber que ela estaria sempre ao meu lado. Choramos juntas na ligação.

Repeti esse curso uma outra vez. Nesse momento específico, aproveitei e liguei para minha irmã. A minha voz, já embargada, a preocupou. O que foi, Malu, o que aconteceu? Você está onde? Eu disse: Calma, não aconteceu nada. Só liguei para dizer que te amo. Acho que ela nem acreditou, já que na maioria das vezes só nos ligamos para pedir carona ou esculhambar a outra. Às vezes, dizer eu te amo assim, sem mais nem menos, é mais difícil que entrevista de emprego.

Aceito que amar é abdicação, entrega e doação…

É buscar no colégio, cuidar do enfermo na doença e preparar uma festa bacana para alguém especial. É não dormir enquanto o filho não chega das festas, é preparar um jantar gostoso ou emprestar dinheiro na pindaíba. Se expressa de tantas maneiras, seja no tempo que gastamos com o outro ou nas adversidades alheias que precisamos enfrentar em consideração ao próximo.

Eu entendo que é urgente amar e sei que, na maioria das vezes, assim o fazemos em silêncio – sem levantar bandeiras nem ostentar cartazes. Mas eu venho me enchendo cada vez mais de uma certeza que me acalenta em dias difíceis: é necessário falar sobre o amor que sentimos também.

Amar alguém não é uma desculpa

Amar alguém não dá carta branca para permitir indelicadezas. Precisa fazer sentido, a conta tem que bater (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Existe um senso comum de que quem ama tudo suporta. Tudo releva ou deixa passar. Na maioria das vezes, tapa os ouvidos, fecha os olhos ou prefere se calar. Há também quem espalhe a crença de que quem ama aceita preencher vazios, ocupar lacunas ou ignorar as falhas. Dizem por aí que quem ama, aceita todos os defeitos – assim mesmo, sem tirar nem por. Engole um monte de sapos e rebobina a fita quando o dia acaba. Tem jeito não, quem ama muito aguenta.

Quem ama, dá um jeitinho pra tudo. Tolera cara fechada ou mau criação. Esquece os erros passados e vive na torcida para que o acaso resolva os contratempos. Eu bem sei que quem ama vive de passar por cima. Das mágoas, dos medos, das angústias. Desconsidera todos os bloqueios e assim segue – tantas vezes pisando em falso. E digo mais: quem ama, perdoa. Uma vez, duas vezes, três vezes. Até perder a conta. E não é fácil, não.

Quem ama não mede esforços. Não segue regras e esquece a vergonha. Há quem pense que merece a rebordosa. Deixa sempre para lá. Se anima com qualquer sinal de atenção e até agradece aos Céus pelas raras manifestações de interesse. Quem ama, conta as horas para estar junto e quer estar sempre por perto. Eu sei que aqueles que amam se acabam em lágrimas por motivos sensatos. Mas esboçam um enorme sorriso por minúsculas atitudes.

Quem gosta de verdade permite tanta coisa – das mais amenas até as mais difíceis. Mais uma vez, a gente bem sabe que quem ama aguenta de tudo. Arranja desculpas, se agarra àquelas poucas boas lembranças, bota panos quentes nas confusões e morre de medo de perder o outro de vista. E assim, meio sem querer, quem ama, tantas e tantas vezes, entra em ciclos viciosos com inesgotáveis maneiras de se anular. Entende como é? Quem entra não sabe como sair e quem consegue se livrar não sabe explicar direito como conseguiu.

Eu nunca entendi muito bem como nós temos uma santa paciência com quem não exerce nenhuma diferença no nosso cotidiano, mas sabemos ser extremamente grosseiros com quem realmente importa. Amar alguém não serve como justificativa para aceitar tantas intempéries de um lado. Nem muito menos é motivo para descontar as nossas agonias em quem está sempre por ali. Quem realmente gosta termina concedendo tantos benefícios que esquece que

amar alguém não é uma desculpa…

… nem para um, nem para o outro. Não é uma justificativa para admitir maus tratos, tolerar os erros repetitivos e aceitar os vícios de cárater. Amar alguém não significa carta branca para permitir tantas indelicadezas. A conta não bate, não faz o menor sentido.

Outro dia fiquei extremamente irritada ao perceber como amar certas vezes cansa para caramba. Estava voltando para casa depois de uma rotina maçante, naquele momento que imaginamos não ter ninguém nos observando. Sentia uma enorme vontade de desistir de me contentar com as lacunas. Umas lágrimas teimosas que ardiam por demais me fizeram repetir inúmeras vezes: “Eu não mereço isso!”. O estresse não vale a pena.

Há uma crença que diz que, em certo momento, aqueles que amam desistem de se contentar com espaços vazios. Se desgastam com tantas meias conversas e se sentem extremamente esgotados com a tão comum impaciência que afasta as pessoas de bom coração. Vão procurar outros caminhos, buscar novas formas de acalentar a alma. Dizem por aí, e eu sigo acreditando fielmente nisto, que tem muita gente batendo em retirada, não por não amar mais – mas por não aguentar nem por outro minuto aquela insuportável sensação de se sentir difícil demais de ser amado.

Eu te deixo ser, me deixa ser também

Imagem de mulher pulando (Foto: Free Images)
Ter alguém apontando seus defeitos é como uma prisão sem grades ou uma força que te puxa quando você quer pular (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Quando me questionavam o que mais me irrita nas relações humanas, eu sempre tinha uma resposta na ponta da língua: o desapego. Gente fria, conversa sem graça, desinteresse no próximo. Este trio realmente me entedia. Mas nos últimos tempos venho me deparando com algo que me desestabiliza ainda mais. É aquele grupo que não nos deixa ser. Assim como somos, com nossos defeitos, nossas virtudes e nosso jeitinho particular. A real? Gente que não me deixa ser.

Em outros tempos, eu tinha essa mania. Queria moldar os outros. Tinha frases feitas, sabia articular meus argumentos, sempre vencia uma briga. Não suportava que não pensassem como eu pensava. Queria ser justiceira. Escrever e ditar regras. Ser a líder do grupo, coordenando todas as ações. Queria estar em todos os lugares, organizar todas as tarefas para que tudo sempre saísse do meu jeito. Eu sabia convencer, desestruturar, tirar qualquer um do eixo. No fim do dia, eu me sentia vitoriosa – era uma super mulher, creiam: me imaginava sem defeitos.

Eu sabia falar bonito. Mas então descobri que muitos não concordavam com o poder das minhas palavras. Alguns se afastaram, outros me jogaram algumas verdades na cara, muitos nem tinham mais paciência para os meus discursos. Até que, no fim do dia, eu me sentia esgotada. Queria tanto convencer os outros da minha verdade que nem percebia que era eu quem precisava saber o que me faltava: deixar cada um ser e agir como quiser.

Deixar cada um ser e agir como quiser é tentar se preocupar um pouco mais com você. Olhar para dentro. Diz respeito a estar atento às suas atitudes, deixando o outro livre para fazer o mesmo – ou não. Dar conta dos nossos defeitos e das nossas angústias já é trabalho demais. Cuidar da vida dos outros é um fardo que não nos compete. Um exemplo? Escrever esta coluna já me rendeu diversos comentários maldosos. E, acreditem ou não, de pessoas que me conhecem bastante. “Você fala tanto que devemos ser felizes, mas ontem mesmo eu te vi mal humorada!”. “Eita, a tua coluna é assim: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Realmente… devo ser uma falácia então.

Estar sob o radar das outras pessoas é viver na pressão. Dói demais. Hoje eu entendo. Dar justificativas, arrumar desculpas para nossas atitudes, ter medo de ser quem somos, reprimir nossos instintos ou precisar se adequar a comentários maliciosos. É muito pesado. Eu não preciso provar nada para ninguém. Odeio o jeito relapso de uma amiga, a constante falta de tempo de outra, o jeito dramático de muitos ou o temperamento tantas vezes egoísta de gente que convive ao meu redor. Posso dar uns toques aqui, outros acolá, mas será que nos cabe estar sempre apontando os defeitos do próximo?

Quem se conhece sabe. Chatice, egoísmo, temperamento forte, manias insanas. Aguentar nossos fracassos já é desgastante demais, será que precisamos de mais alguém nos empurrando de encontro ao abismo? Eu balanço a bandeira de que não precisamos de ninguém nos pressionando, apontando cada erro, qualquer tropeço. É quase como uma prisão sem grades. Uma mão invisível puxando a corda do seu balanço. Uma força que te puxa quando você quer mesmo é pular para bem longe.

Lá atrás, em meio a uma discussão uma amiga explodiu comigo. Eu queria argumentar, ela queria o silêncio. Enquanto eu forçava, ela soltou: “Me deixa em paz. Você sempre quer brigar. Será que não percebe que eu prefiro ficar calada?”. Então eu entendi que não adianta viver tentando fazer os outros enxergarem o nosso universo particular. Vamos afrouxar os nós, dar espaço, maneirar nos comentários! Ou respirar bem fundo quando alguém nos faz mal e entender que nem sempre assim agem conosco com más intenções. Faz tão bem receber o amor do próximo sem fazer comparações. Ou contar até dez antes de soltar uma observação que não acrescenta. E também não deixar ninguém te convencer a falar besteiras quando você já sabe que não tem nada interessante ou inteligente a dizer.

Gosto do time dos elogios. Quem coloca para cima, quem busca fazer uma crítica sempre enchendo a bola do próximo. Quem sabe ser sutil. É bom estar com pessoas que não vivem para nos testar – testar nossas atitudes, nossas palavras, nossas emoções. Gosto de quem me deixa ser. Vai, eu te deixo ser, me deixa ser também. 😉