A força do perdão

Da mais boba até a mais difícil situação, nunca é fácil perdoar. As marcas tendem a não querer sair. Mas não deixe isso acontecer (Foto: Pixabay)

Por Lucas Wild
lucaswild@outlook.com

Esses últimos dias foram estranhos para mim. Tudo porque fiquei chateado com um amigo, por questões que não cabem falar agora. Fato é que não sou muito de guardar rancor, nem nada disso. Mas, nesse caso, guardei. E não me orgulho em nada.

Fiquei pensando no por quê. Como assim? Passei quase um mês chateado com alguém e sem coragem de ir falar o motivo. Sei que as vezes guardo muita coisa em meu coração, principalmente coisas que me machucam, mas rancor não era uma delas. Depois de uma mensagem abençoadora,  Deus trabalhou em meu coração e consegui liberar o perdão. Ufa! Que sensação boa. Falei com meu amigo e ficou tudo certo.

O que eu quero dizer é: da mais boba até a mais difícil situação, nunca é fácil perdoar. As marcas, que muitas vezes só ficam no coração, tendem a não querer sair. Não deixe isso acontecer. Lute contra qualquer sentimento de raiva, ódio e rancor, que só te puxarão para um abismo sem volta.

Esqueça a doença e ela esquecerá você

É preciso aprender a dançar descalço na chuva enquanto o sol não chega (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Dia desses estava no posto do CVV Recife (Centro de Valorização da Vida), onde atuo como voluntária, e me encontrei com outros dois voluntários, bem mais velhos – tanto de idade como de tempo na entidade. Geralmente, no meu horário de atividades, não encontro outras pessoas. Estou acostumada com a solidão no Centro. Por isso, demorei a me entrosar com eles, que em seus intervalos aproveitaram para tomar um cafezinho e conversar sobre a vida. Foi só me oferecerem café que eu já cheguei mais perto.

Conversamos por um bom tempo sobre como o voluntário mais velho era um grande conhecedor da vida. O mais novo afirmava a todo momento que o mais experiente tinha muito a nos ensinar. Com tantos elogios à pessoa, eu já começava a desconfiar que o senhor tinha realmente algo muito importante a nos passar.

Durante todo o tempo em que passamos jogando conversa fora, eu percebi que o senhor mais velho tremia bastante uma das mãos, mas nada o impedia de continuar seus afazeres. Decidi, então, saber um pouco mais da sua história. É o jornalismo na veia, fazer o que?

– Mas o senhor está aqui no CVV há quanto tempo?
– Ah, minha história aqui é longa… entre idas e vindas completo agora três anos na casa. Foi naquela época que descobri o diagnóstico de Parkinson. Ai, para não ficar parado, entrei numa Associação e aqui no CVV.
– Mas o seu Parkinson é bem leve, né?
– Para mim é. Quer dizer, na verdade, eu criei um lema. Esqueça a doença e ela esquecerá você.

Se até então eu ainda não havia entendido o que ele tinha para me ensinar, naquele momento ficou muito claro. Às vezes, Deus fala conosco através de pessoas que nem sequer imaginaríamos que poderiam ser as respostas para as nossas perguntas em direção ao divino.

Terminei nossa conversa agradecendo, com todas as palavras que precisavam ser ditas, pelos ensinamentos em tão curto período. Talvez desacostumado com elogios, o senhor esboçou um sorriso sem graça e disse: Fico feliz que tenha te ajudado. E apertamos as mãos.

Vou falar por experiência própria. Às vezes ficamos tão incomodados com o peso que temos que carregar com certas doenças ou problemas diversos, que esquecemos de tentar olhar ao redor. Na verdade, não é que esquecemos, é que fica difícil evitar de pensar o quão pesada é a carga. Mais do que ninguém, eu sei exatamente como é.

Por muitos momentos a gente questiona todas as divindades e energias superiores possíveis. Mas, não adianta. Parece que a resposta nunca chega. Ou, quando se mostra em nossas vidas, não parece ser o que esperávamos escutar.

Hoje percebo que tal ensinamento funciona para tudo na vida. Você vai ter que aprender a saber sorrir mesmo em meio a tantas lágrimas. Vai precisar continuar o caminho, mesmo que tenha caído e não consiga levantar. Você vai ter que insistir em acreditar que ainda dá para dar a volta por cima, mesmo que você nunca tenha estado em terreno tão baixo na vida.

Enfim, hoje vejo que é preciso aprender a dançar descalço na chuva enquanto os dias ensolarados não chegam. Quem sabe assim a gente esquece como dói conviver com os sintomas do resfriado e tenta aproveitar como é bom os pinguinhos da chuva batendo bem fundo na nossa pele. 🙂

Responsabilidade afetiva também quer dizer arcar com seus erros

Ser responsável com seus afetos é saber ser gentil ao sair da vida do próximo (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Dia desses estava sentada no banquinho de uma praça, esperando minha professora chegar para iniciar o treino do dia quando escutei um buruçu perto de mim. Quando olhei para o lado, vi que um homem estava discutindo com uma moça. Ela havia se assustado com a aparência dele e se levantou do banco em que estava por medo de ser um assalto. O rapaz discutia com a jovem por ela o ter confundido com um ladrão. A pobre, eu até entendo. Aqui no Recife, a gente prefere ver o capeta do que um sujeito estranho se aproximando (ou dois homens numa moto).

A moça não deu ouvidos para os xingamentos do rapaz e continuou seu caminho. Eis que então sobrou para mim. Fui fazer a desconstruída, sem preconceitos, mas, na verdade, já havia rezado para todos os santos possíveis e imagináveis. O rapaz chegou ao meu lado, me cumprimentou e sentou na grama. E eu só conseguia calcular o rombo no meu orçamento se precisasse arcar com prestações de um novo celular. Fazer o que, recifense já nasce desconfiado. Segue o diálogo:

A menina pensou que eu ia roubar ela, mas eu não ia roubar não.
– … beleza!
– Eu sou carioca, sabe… mas moro aqui tem muito tempo. Meu problema é só com o álcool.
– E tu veio fazer o que aqui no Recife, homi?
– Eu vim atrás de um grande amor. Larguei tudo para vir morar com ela. E depois de tudo isso ela me deixou… moça, você é casada?
– Casada não, sou noiva. (apelei até para um suposto noivo)
– Pois você tem que dar valor ao seu amor… (nessa hora ele já havia deixado escapar, com muita relutância, algumas lágrimas)

Eu não consigo recordar com exatidão como se desencadeou a conversa, mas ele bateu muito na tecla do amor. Senti muita pena, já que para ele se abrir totalmente com uma desconhecida, sentado na grama suja de um parquinho mequetrefe, o assunto devia causar tamanho rebuliço em seu coração.

Dias depois, passando o feed de uma rede social, vi a postagem de um conhecido que dizia: em 2017, eu aprendi a ter responsabilidade emocional. O rapaz não devia ter nem 20 anos. E aquilo me fez pensar em uma conversa que tive com um cara que eu amei para cacete. Depois de ter feito picadinho do meu coração, ele disse que tinha aprendido o que era a tal da “responsabilidade afetiva”. Me desculpe os Hare Krishna, mas a minha vontade foi de socar a cara dele repetidas vezes.

Talvez eu esteja sendo bem repetitiva nos meus textos, mas é que não consigo engolir tanta hipocrisia. Fica engasgada na garganta. E a impressão que tenho é que, se eu não colocar para fora, vou terminar implodindo. Como é tão fácil destroçar a vida do outro e dizer que sabe o que é responsabilidade afetiva? Alguém, pelo amor das deusas, me explica? Por que as pessoas continuam repetindo as mesmas cagadas de sempre e colocam a culpa numa suposta imaturidade emocional? Cacete, até quando vamos insistir no clássico Não é você, sou eu?

Eu nunca fui boa de matemática, mas essa conta aí quem não fecha só pode estar mesmo de sacanagem. Não quer? Dispensa. Não ama? Acaba. Tem consideração? Não magoa. Errou sem intenção? Aprende com o erro. Não tem meio termo nessas situações. Sempre me pareceu simples que a gente precisa ter a certeza sobre a resposta dessas perguntas para seguir em frente com a certeza que não fizemos por onde machucar o próximo.

Eu vou ser legal. Vou dizer o que é responsabilidade afetiva. Bora lá, quem perdeu a aula pode entrar. Responsabilidade afetiva é ser honesto com o outro. É ter um diálogo sensato, sem optar pelas entrelinhas só para satisfazer o seu ego. Responsabilidade afetiva é não dar corda se você não tem interesse. É saber ser gentil ao sair de cena. Deixar boas recordações ao optar por sair da vida dos nossos afetos.

Responsabilidade afetiva diz respeito a ser prudente: ou seja, se causar um acidente, fique lá para prestar um socorro. Mas deixa eu te dizer uma coisa, campeão: a não ser que você deixe de ser um babaca, responsabilidade afetiva também é arcar com seus erros.

Que maravilhoso seria viver o espírito natalino todo dia

Que maravilhoso um mundo onde o espírito natalino invadisse as nossas casas todo santo dia (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Chegou o fim de ano. Eis que cada cantinho das nossas comunidades se enche de uma espécie de aura mágica, envolvendo tudo e todos com uma solidariedade impossível de explicar. Somos embalados carinhosamente por uma atmosfera encantadora, capaz até de transformar os insensíveis nas pessoas mais emotivas da Terra, quiçá os mais fofos entre todos os habitantes dos planetas do Universo. Sim, ele mesmo, o espírito natalino.

Que esplêndido seria se o carregássemos conosco durante todo o ano. Quem sabe assim as pessoas não seriam tão cruéis umas com as outras. Dessa forma, pensaríamos mais nos outros e não machucaríamos os próximos por tão pouco. Teríamos um tantinho de cuidado com quem nos ama e nos colocaríamos em situações que, por mais que nos pareça irrelevantes, ferem os sentimentos alheios.

Que bonito seria se fôssemos tão afetuosos com os outros ao longo das centenas de dias que antecedem esse período místico que parece mexer com tanta gente. Então não teríamos tantas pessoas despedaçadas no término desses ciclos, sem saber em que se agarrar para enfrentar os próximos doze meses que se aproximam.

Que maravilhoso um mundo onde o espírito natalino invadisse as nossas casas todo santo dia. Para que parássemos de ser rudes com nossos familiares, estúpidos com nossos amigos, arrogantes com nossos funcionários, indiferentes com aqueles que mais precisam de amor e carinho.

Que extraordinário seria se essa magia do Natal tomasse a tudo e a todos como uma onda amena e nos envolvesse por todo o ano. Podia vir até em forma de gripe. Que contaminasse cada um de nós. Faríamos questão de correr atrás desse vírus. E nem iríamos querer tomar remédio.

Seria inerente a cada ser humano. Ninguém ia precisar esperar o fim do ano para ser bom com o próximo. Seríamos bacanas porque foi assim que nos ensinaram. Não precisaríamos esperar dezembro chegar para ser uma pessoa do bem. Seríamos em cada segundo dos nossos dias, simplesmente porque é dessa forma que entendemos que o mundo vai pra frente.

É, parece que esse tal do espírito natalino não grudou em todo mundo não.

Cuidado com as pessoas-trator

Tem gente que é assim: passa por cima dos nossos sentimentos como se fosse um trator (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Há um bom tempo queria tocar neste assunto aqui na coluna. Semana entrava, semana saia, eu sempre colocava o tema em segundo plano, afinal, falar de amores e corações partidos me parece muito mais urgente. Até que uma série de desentendimentos familiares, com muita confusão e gritaria, típicas da tradicional família brasileira, me fizeram crer que precisamos urgentemente falar delas. Sim, elas mesmo. As pessoas-trator.

Na maioria das vezes, são pessoas sensacionais. Nada contra. Muitas são até prestativas, atenciosas, companheiras e gentis. Mas a bronca, meu amigo, é quando você se mete num atrito com elas. Sai de baixo. Corra enquanto é tempo. Porque aí é que entra o modo trator. Cara, é impressionante. Elas vêm se multiplicando mais do que gente chata. Gostaria muito de saber o que exatamente ativa esta função de suas personalidades, para então passar o mais longe delas possível quando estiver em um dia difícil.

Vamos explicar como elas funcionam na prática. Certa vez um casinho, após me esculhambar de todas as formas durante uma discussão, veio falar comigo naturalmente no outro dia. Assim mesmo, como se nada tivesse acontecido. Eu, sinceramente, não sei o que elas tomam para esquecer tão facilmente os conflitos passados. Isso é: se não forem elas a parte magoada. Naquele momento, não acreditei que tal fato estava acontecendo. Bateu a cabeça e perdeu a memória recente, pensei.

Respirei calmamente e devo ter respondido que não entendia como ele podia dar uma rasteira em alguém e esperar que a pessoa não sentisse a dor do tombo. Eis que outra confusão, geralmente, começa. Atenção! As pessoas-trator não conseguem entender de jeito nenhum que os outros têm direito de ficar chateados e, sendo assim, precisam de um tempo para processar a dor. Na maioria das vezes, não conseguem lidar com o fato de que é preciso, sim, discutir a relação após as divergências – principalmente se alguns desaforos foram ditos e farpas foram trocadas. Aparar as arestas, é o que costumo dizer.

Essas pessoas, em muitos casos, estão na nossa própria família, por isso termina sendo difícil se desvincular delas. Pode ser um pai autoritário, uma mãe arbitrária, um irmão arrogante. Geralmente, são indivíduos com dificuldade de entender que as relações, por mais hierárquicas que sejam, precisam de diálogo constante. Mas é preciso ser firme. Não há nada nem ninguém no mundo que te impeça de ter o seu lugar de fala, principalmente se você se sentir magoado. Por para fora faz bem e, na grande parte das situações, tem o poder de matar os nossos fantasmas.

Depois de muito engolir sapos em casa, tendo que aceitar que, por muitas vezes, iriam me magoar no meu próprio convívio familiar e eu não teria a oportunidade de dizer: “ei, peraí! vamos conversar”, entendi que tem gente que é assim mesmo. Passa por cima dos nossos sentimentos como se fossem um trator. Tem uns que ainda fazem pior: engatam a marcha-ré e passam por cima de novo, só para ter certeza que deixaram nosso coração em inúmeros pedacinhos.

Desculpa aí qualquer coisa

Tem alguns que, além do mega turbo trator, ainda investem no tal do ‘desculpa aí qualquer coisa’. Vixe! Toda vez que escuto essa frase me dá uma dor aguda no coração. Tomara que não seja infarto. Funciona mais ou menos assim, vejam bem se estou certa: não satisfeitos em passar por cima da gente com o trator e depois ainda engatar a marcha-ré, eles costumam parar no local do acidente, geralmente ainda em cima de nós, e falar naturalmente, lá do alto da cabine: olha, foi mau aí se te machuquei. Mas o que passou, passou, né, verdade? Vida que segue! E o coitado do esmagado fica lá com aquela cara de: que p@rra é esta que está acontecendo aqui?

Eu tenho especialização em ser esmagada por pessoas-trator. E, mesmo correndo do atropelamento quando eles sinalizam que estão por vir lá no começo da rua, ainda costumo ser pega de surpresa de vez em quando. Pense na dor. É como se tivessem me dado um soco no estômago e logo depois me pedem para encher uns dez balões. Falta o ar.

Sinceramente não sei se existe uma fórmula mágica que nos impeça de ser sugados para as profundezas do trator que atropela sentimentos. Venho aprendendo, no entanto, que não é apenas minha função cuidar dos machucados. Claro que algumas pessoas-trator ainda continuam nos atropelando e fogem do local sem prestar ajuda. Mas aquelas que ficam, aaaaah, aquelas que ficam. Pode ter certeza: venho pedindo, sem vergonha alguma, algum tipo de ajuda para comprar os remédios quem pode ajudar a sarar as feridas.