Não veja sinal onde não tem

Quando não queremos ser confrontados com a realidade, até biscoito da sorte assume papel de destaque (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Há algum tempo, descobri que um ex-ficante havia acabado mais um namoro. Como o típico boy embuste que ele sempre havia sido em minha vida, imaginei que alguma variação do ‘oi, sumida’ surgiria nos dias seguintes. Era assim que ele sempre fazia quando, após me magoar com inúmeras atitudes irresponsáveis, precisava alimentar o seu ego. Mas, querendo ou não, eu também sabia que tantos sentimentos mal resolvidos (de minha parte) precisavam ser esclarecidos. Pronto, ali mesmo instalou-se na minha mente uma fixação.

O primeiro presságio veio ao ler a mensagem do biscoito da sorte após o almoço. Quem já comeu sabe que os recados parecem ter sido escritos por um chinês muito emaconhado. Não faz sentido algum. Mas aquele biscoito, naquela tarde específica, trouxe uma mensagem que, para mim, naquele momento, soava como uma profecia dos Céus. “Agora é um bom tempo para reconciliações”, indicava o meu mestre. Pronto, agora até o biscoito da sorte parecia saber ler meu coração.

O segundo agouro veio ao notar que o sobrenome de um personagem de um filme que estava assistindo era (quase) idêntico ao do dito cujo. Já o terceiro veio quando liguei a televisão e, prestando atenção ao filme exibido na telinha percebi que, desta vez, o nome do protagonista era o mesmo do sujeito em questão. Agora estava claro na minha cabeça: o Universo, claramente, estava tentando me enviar um sinal.

Como no fundo eu também sabia que esses três acontecimentos não tinham importância alguma, fiquei constrangida de compartilhar com outras pessoas minhas suspeitas. Decidi desabafar, então, com uma amiga que sabia de tudo o que eu havia passado naquela relação. Ao terminar minha história, falei: “Olha só quantos sinais em tão pouco tempo. Será que quer dizer algo?”. Então ela olhou para mim e me disse, sorrindo: “Você está vendo esses sinais todos porque quer ver…”.

Uma vez li que, às vezes, enxergamos uma covinha no lugar de uma espinha. E você, como tem olhado para os (aparentes) sinais que aparecem em sua vida? Você os tem deixado passar sem nem perceber ou está sempre atento aos recados? Na verdade, deixa eu (nos) fazer outra pergunta: será que, ao identificá-los, não estamos os interpretando da maneira mais conveniente? Da forma mais romântica? Do jeito mais infantil?

Quando confrontados com a realidade, num momento delicado, é normal que tenhamos um hábito de negar a situação. As coisas não estão ruins, o relacionamento não está um fracasso, o carinho é recíproco, o trabalho não está insustentável. Nos apegamos a qualquer detalhe – seja um acontecimento bom em meio ao furacão, uma demonstração de carinho em meio à relação esmorecida, uma promoção no trabalho, mesmo que indesejada – para esquecer os fatos. Sim, nos agarramos a qualquer coisa para fugir da realidade.

E então vivemos nos ludibriando por falsas esperanças, como se algo de bom estivesse prestes a acontecer para nos fazer sair da negação sem nos decepcionar com os atuais cenários. Aquele mero bom episódio na rotina vai fazer as coisas voltarem ao normal. A demonstração de carinho vai esquentar e reacender o amor da relação. A promoção vai fazer com que nós voltemos a gostar de um ofício que não tem nada a ver conosco.

E é aí que até biscoito da sorte assume papel de destaque. Qualquer assovio diferente dos pássaros ou lambe-lambes grudados num muro qualquer têm o poder de nos trazer importantes mensagens. Mas, infelizmente, venho aprendendo que nós precisamos parar de procurar indícios para alimentar nossas fantasias e deixar de ver sinal onde não tem.

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