Eu tranquila comendo meu sanduíche esperando para minha sessão de terapia. Tenho que confessar: estava escutando a conversa de um homem e uma mulher ao meu lado. Eles falavam sobre as novas tecnologias e a sociedade contemporânea. Em pensamento, eu concordava com tudo que eles falavam – mas sem muita emoção. Até que a mulher respondeu a uma colocação do rapaz com um: “A tendência hoje é você se afastar de si mesmo”.

Quase engasguei com o sanduíche (mentira!). Como aquela frase, vinda de uma completa desconhecida, poderia me atingir tanto? Claro, é porque ninguém nunca tinha conseguido explicar tão bem o que acontece ao meu redor e até comigo!

Quando eu era mais nova, me disseram que eu devia parar de ser tão engraçada. Que eu devia ser mais séria, mais madura. Leia-se: mais igual às outras meninas da minha idade. Passei uma semana igual a todas. Aquilo me incomodava muito, mas eu não sabia o porquê. Até que uma amiga perguntou: “Por que você está tão diferente? Não é a Malu de sempre!”. Eu respondi amuada: “Estou sendo como me pediram pra ser”. Ela – que, inocentemente, havia incentivado minha mudança – respondeu: “Não, volta a ser quem você era! Não tem graça assim do jeito que você está”.

Paremos pra pensar: fazemos o que queremos ou o que os outros acham que é certo fazer? Somos o que somos ou o que os outros esperam que sejamos? Dizemos o que queremos dizer porque temos vontade de dizer ou porque seguimos uma linha lógica de raciocínio elaborado por outras pessoas?

Vamos para as festas que todos vão. Vestimos as roupas que todos vestem. Dizemos as gírias que todos dizem. Rimos das mesmas piadas que todos riem. Vamos fazendo tudo o que os outros querem e quando vemos já não somos nem um pouco do que fomos um dia.

Não falo de opiniões e pensamentos. Eles mudam e nós mesmos mudamos com o tempo. Falo de essência. De personalidade e, principalmente, de caráter. Daquilo que somos quando ninguém está vendo. Ou daquilo que somos na frente de quem gosta da gente do jeito que somos. Venho perdendo pessoas maravilhosas porque elas se perderam na pressão enorme de precisar ser aquilo que o mundo quer que elas sejam.

Naquele dia eu me afastei de mim. Foi horrível. Desde então, prefiro lidar com quem sou. Aceitar minhas fraquezas, meus medos e – por que não? – minhas loucuras. Como já li certa vez: as pessoas que não gostam de mim não vão aceitar minhas justificativas. E aquelas que gostam não precisam de explicação.

Se aceite. Aceite os outros. E leve consigo só o que não lhe afasta de si mesmo.

1 comment on “Não se afaste de si mesmo”

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