Na dúvida, siga o seu coração

Crônica publicada no livro
Tudo passa, esse amor vai passar também
Em maio de 2018

Recentemente, eu estava com duas dúvidas martelando na minha cabeça e sentia que não resolver minhas indecisões terminaria por empatar minha vida. A primeira era decidir se valia a pena tentar uma reaproximação com uma ex-chefe por quem tenho uma admiração muito grande mas que, por atritos profissionais, terminei me afastando.

A segunda missão era mais simples, mas tão penosa quanto. Eu queria mandar uma mensagem de parabéns para uma médica que me acompanhou por quase um ano em um dos períodos mais delicados da minha vida. O problema é que, por desentendimentos na minha conduta terapêutica, ela decidiu encerrar esse vínculo. E até hoje penso que não foi das formas mais amigáveis. Por mais que eu ainda guardasse (muita) mágoa pela forma com que nosso laço se desfez, também sentia muita gratidão por tudo o que aquela mulher havia feito por mim. E era esse sentimento que me fazia querer deixar o meu recado de carinho e boas vibrações no novo ciclo que se iniciava em sua vida.

Quanto mais o tempo passava, mais eu sentia que estava deixando escapar o momento certo de resolver aquelas pendências emocionais. Decidi então compartilhar com minha mãe o que tanto vinha apertando o meu peito – e a minha alma. Ela esperou que eu despejasse todas as minhas inseguranças até esvaziar totalmente o meu ser, e apenas falou: “Se você está em dúvida, é sinal de que tem que seguir o seu coração”.

Pronto. No outro dia, lá estava eu mandando as mensagens que hesitei em mandar por tantos dias. Escrevi um longo texto para a antiga chefe, revelando toda a minha mágoa e tristeza por termos nos afastado. Resultado: marcamos um encontro e resolvemos nossas desavenças. Quanto ao segundo caso… Bom, fiz minha parte. Talvez ainda precise evoluir muito para aceitar que as pessoas não têm obrigação de viver na mesma sintonia que a minha. E isso não necessariamente quer dizer que elas estão na trilha errada.

É isso aí. Talvez deixemos de falar o que realmente queremos dizer por medo ou vergonha. Eu, por exemplo, levanto a bandeira de que o ideal é falarmos sem pudor sobre o que sentimos. Mas a verdade, meu amigo, é que poucas vezes consigo expressar com toda sinceridade os meus sentimentos.

A realidade é que eu sabia, sim, o que realmente queria fazer. Em ambos os casos. O problema era que o meu lado racional queria evitar possíveis decepções. Para que eu continuasse funcionando em perfeito estado, o meu cérebro tentava me poupar de escolher caminhos sinuosos sem saber o que me esperava lá no fim. Redução de danos, alguns diriam.

Talvez – digo talvez pois não sei se meu cérebro me permitirá arriscar assim das próximas vezes – eu tenha entendido o que minha mãe quis dizer. Seguir nosso coração é dar espaço para nossos desejos se expressarem sem se incomodar com os julgamentos que nos acompanham diariamente. É não dar trela ao medo de receber um não, ou uma resposta evasiva ou um cumprimento frio. É apenas ser, falar e fazer sem receio de como o mundo vai no receber.

Com uma simples frase, minha mãe me ensinou uma grande lição. Seguir o nosso coração não é, de forma alguma, desligar todos os botões da nossa mente. É saber escutar também o que nossa alma tem a dizer.

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