Imagem de casal de costas olhando para lago (Foto ilustrativa: Pixabay)
Nos falta espaço para falar sobre nossas angústias, dividir nossos segredos, revelar nossas esquisitices (Foto ilustrativa: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Eu queria começar este texto pedindo desculpas a todos aqueles que são exceções. Que um dia vocês virem a tão sonhada maioria. Todos os pais, irmãos, amigos, companheiros, chefes e colegas de trabalho. Incluo também os maridos, namorados, ficantes, rolos, lances, paqueras e romances. Preciso me desculpar com essa parcela do público masculino que nasceu com o dom de saber escutar. Ou que conseguiu adquirir, ao longo do convívio com as mulheres, essa generosa habilidade.

Agora quero pontuar que sempre me irritei com generalizações. Mulheres são de Marte, homens são de Vênus. Homens não sabem se expressar. Mulheres não entendem de cálculos. Elas não são boas na direção. Eles entendem de futebol. Elas de culinária. Mulheres não conseguem ser pontuais. Homens manjam de trabalhos mecânicos. Mulheres são melhores em decoração. Elas, sexo frágil. Eles não choram. Dividir testosterona e estrogênio em dois mundos que não se misturam de jeito nenhum me parece um pouco apocalíptico. Homem chora sim. E mulher sabe trocar pneu. Qual o problema?

Mas preciso dizer que tenho feito, mesmo sem querer, um estudo antropológico nos meios em que circulo. Seja com pai, irmão, colega ou em relacionamentos amorosos. Cara, por que os homens simplesmente não conseguem nos escutar ou não têm interesse em perguntar e, de fato, ouvir o que temos para falar sobre nós?

Vou tomar como meu primeiro exemplo esses aplicativos de paquera. Salvo uma rara exceção, desconheço um cidadão que tenha parado para escutar sobre minha vida. Nos encontros que fui, não consigo contar na primeira mão quantas vezes fui protagonista na conversa. Ou quando era, consigo lembrar, com riqueza de detalhes, como a atenção do indivíduo era desviada com tamanha facilidade. Era o garçom, o celular, a boyzinha que passava do lado, o jogo na televisão. Sem falar nas vezes em que ele lembrava de algo mais interessante que ele tinha para contar e fazia questão de me interromper.

Na família, a situação não é muito diferente. É o pai que não tem paciência para nossas falações, o irmão que acha que a gente fala demais. O filho que tem mais o que fazer do que escutar os lamentos da mãe. Talvez por isso nós preferimos estar entre as mulheres. Sabemos nos escutar no meio do barulho e da confusão.

Agora meu segundo exemplo. Um ex casinho adorava me alugar para falar dos problemas dele. Fazendo um retrospecto, eu poderia até ter cobrado por todas as consultas extras de terapia que meus ouvidos e olhos atentos foram para ele em momentos difíceis. Foram muitas as vezes em que parei tudo o que estava fazendo para escutá-lo. Seja para reclamar do trabalho ou para se queixar da família. Ou para dividir sua insatisfação com a vida, com o corpo, com o futuro. Gastei todo o meu latim com palavras de incentivo e textos de apoio. E, agora vocês podem me perguntar: que massa! Devia ser recíproco esse amparo, não é? Mas é óbvio que não.

Mesmo que eu usasse os dedos das mãos e dos pés, não ia dar conta da quantidade de vezes em que tentei me lamentar e fui solenemente ignorada. Dos momentos em que quis atenção e o ser humano me deixou falando sozinha. Das mensagens visualizadas sem uma resposta amável. Parece surreal, né? Pois é. E sabe o que é pior? Isso acontece direto conosco.

É difícil dizer, mas os homens, em tantos e tantos casos, não querem nos escutar. É maçante, tedioso, agoniante. Papo de mulherzinha, muita lorota e aporrinhação. Uma vez escutei que eu estava enchendo o saco, apenas por tentar demonstrar o meu lado da história. É como se eles não quisessem gastar o tempo para absorver o que temos a dizer, mesmo que por longos (?) cinco minutos. Mas, olha que engraçado: querem todo o tempo do mundo se tiraram o dia para desabafar.

Depois de muito tempo concordando com a teoria, passei a entender porque dizem por aí que as mulheres são complicadas. Que somos difíceis de entender. Envoltas em mistérios diversos que nos eleva quase a um patamar de criaturas místicas. É óbvio que não nos compreendem. Nos falta espaço para falar sobre nossas angústias, dividir nossos segredos, revelar nossas esquisitices. Tá complicado esse lado da fronteira.

Gostaria muito que compartilhassem conosco onde está essa parcela dos homens que não caminham pelo lado do egocentrismo. Que perguntam como estamos, que sabem escutar nossas paranoias sem se impacientar, que não nos interrompem no meio do raciocínio. E seria maravilhoso se esses caras sensacionais pudessem sensibilizar os companheiros de gênero. Será que é pedir muito?

Homens, precisamos que vocês não sufoquem nossas palavras. Não abafem nossos desejos. Não reprima nossos pedidos. Vocês precisam nos deixar falar. E que mundo fascinante seria se vocês, de fato, parassem para nos escutar.

2 comments on “Homens, vocês precisam aprender a nos escutar”

  1. Olá, boa tarde!

    Concordo quanto ao tema generalizações, no entanto quem está de bem com a vida, “em paz” e curtindo o próprio silêncio frente ao barulho do mundo, não está em evidência, não está em aplicativos para “comer gente”. Aliás, app´s estes não tem objetivo sair para conversar, é justamente o “GAME”, desbravar uma nova fase, até o jogo enjoar.

    Tá, dai tu irá dizer: “-E onde estão tais pessoas aptas a escutar!”. E te respondo que são moscas brancas de olhos azuis. Até é mais fácil investir num profissional da psicologia, do que sair desesperado procurando alguém pra te escutar. Tio Mario Quintana já dizia pra cuidar no jardim…

    E concluindo superficialmente sobre teu bom texto, quantifique, se estão raros os casos de encontrar alguém para nos escutar, geralmente o problema é de nossa parte. E se há muita gente gostando de chorar em nosso ombro, tá na hora de perder o medo, ser mais sincero e corajoso para dizer a verdade para estas pessoas, não o que ela quer ouvir. Geralmente isto dá um salto no amadurecimento delas e principalmente nosso.

    Grande abraço e obrigado pelo texto “estar em paz”

    • Oi, Carlos! Te agradeço muito pelo comentário neste texto. Já havia recebido outros feedbacks masculinos por email. E foi muito bom saber que pelo menos entrei na mente de alguns homens com minhas palavras… eu entendo seu lado e acho que está cada vez mais difícil encontrar gente que esteja apta a escutar, de verdade. Mas se a gente procurar bem e também se esforçar para ser aquele que escuta, nossa, é bom demais… acho que exercitar essa escuta atenta pode nos dar um salto enorme no amadurecimento! É aquela coisa, né… ajudar o outro faz bem ao próximo mas principalmente a nós mesmos! 😉 Obrigada mais uma vez por compartilhar comigo sua visão, me fez refletir também! E fico muito feliz que você tenha gostado do texto “o que é estar em paz”. Já nem lembrava mais dele!

      Um beijo!

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