Escolher é perder sempre

Crônica publicada no livro
Tudo passa, esse amor vai passar também

Em maio de 2018

Nunca ouvi alguém dizer que fazer escolhas é fácil. Que é moleza optar entre a carreira dos sonhos e aquela vidinha no mato que você sempre quis. Ou que é muito simples decidir entre um grande amor e uma proposta de emprego no exterior. Vai, diz aí: tem coisa mais tranquila que decidir se continua com o trabalho maçante, mas que paga as contas, ou se tira um período sabático para encontrar o sentido que de fato rege nossas vidas?

Se você escolheu facilmente entre as opções acima, desculpe aí, campeão. Você precisa ser seriamente estudado. Pois estamos todos aqui fazendo das tripas coração para chegar no fim do dia sem a impressão de que metemos os pés pelas mãos em todas as escolhas que fomos impelidos a fazer.

Talvez essa seja uma das nossas grandes missões por aqui. Viver entre a angústia das escolhas e as consequências das decisões. Até porque as consequências costumam vir, para tantos de nós, acompanhadas dos arrependimentos. Olhe, parece mais fácil comer jiló do que conviver com essa peste que é o remorso.

Eu sempre tive medo de escolher. Por muitas vezes terminei delegando a função para outras pessoas em minha vida. Nem que fosse através de opiniões que me pareceram mais sensatas no momento e que eu, inconscientemente, tomava como minhas, quando, na verdade, eram de pessoas que não arcariam com as avalanches, que, por ventura poderiam surgir nestes caminhos.

Saber frear nossos medos. Talvez essa seja outra das nossas grandes missões neste plano. E entender que, infelizmente, teremos que conviver com eles em muitos momentos. Dessa forma, aprenderemos a domar nossas inquietações e aceitar que elas fazem parte da vida.

Parei para pensar como são gigantes os problemas criados pelo medo das escolhas quando duas amigas me pediram opiniões sobre o rumo de suas vidas. Logo eu, a libriana. Ambas precisavam de conselhos acerca de decisões profissionais – decisões estas que realmente tinham o poder de mudar a vida delas lá na frente. Suas angústias eram tão fortes que passaram até para o plano físico.

Por mais que eu tentasse apontar caminhos, elas rebatiam com obstáculos complexos. Barreiras que, realmente, faziam todo sentido. E então eu indicava outras alternativas. Nada feito. Elas já haviam tentado por esses estradas e não havia dado certo. Na verdade, todas as trilhas eram subterfúgios para que não encarassem a realidade.

E aí eu lancei mão de uma história que fez entender de uma vez por todas a dimensão do “escolher” em nossas vidas. Jô Soares (ele mesmo, o apresentador), após a morte do seu filho, Rafinha, iniciou uma gravação do seu extinto programa na TV Globo falando da experiência em conviver com o jovem, diagnosticado com autismo.

O jeito peculiar do garoto enxergar o mundo marcou a vida do apresentador. Uma história, no entanto, foi especial: “Uma vez, em uma livraria, Rafa chegou junto ao caixa carregando uma dúzia de livros. Eu estranhei e disse: ‘Rafa, é muito! Escolhe seis!’ – ele: ‘Então não quero nenhum, eu prefiro não escolher’. Eu achei estranho e questionei: ‘Mas por que não?’ E Rafa concluiu: ‘Porque escolher é perder sempre'”.

Rafinha não poderia ter mais razão. Escolher é perder sempre. De um lado ou de outro. Muito ou pouco. Insignificante ou relevante. Não importa. Você vai perder de uma forma ou de outra. O que vai definir suas escolhas é a forma como você lidará com elas. Talvez seja preciso que elas deixem de ser encaradas como perdas e se tornem gratos presentes.

Um comentário

  1. “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.“ Cora
    Acho que a gente sempre perde de qlq forma, mas precisa decidir o que é importante não abrir mão! ❤️🌻

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