Sempre que puder ajudar, ajude. Esteja por perto, ofereça seu tempo. Tenha paciência para escutar quem sofre com a doença (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Por mais que você tente ser uma pessoa presente na vida de quem ama, é normal que se falhe. Pela falta de tempo ou de tato, nem sempre correspondemos às expectativas de quem mais precisa do nosso apoio. Vou me explicar: ao passar por um problema de saúde, me aproximei ainda mais de uma amiga que já havia sentido na pele alguns dos sintomas em que me afundei por alguns dias. Ela esteve sempre ali: seja por ligações, mensagens ou abraços carinhosos que sufocavam as minhas lágrimas desesperadoras.

Não houve um só dia em que ela não me perguntou como eu estava, se precisava de ajuda, se queria companhia para um café ou uma sessão de cinema. Mesmo que aqueles programas fossem os que eu mais detestasse – porém os únicos que eu podia fazer naquele período. Todo dia ela me pagava um café, parava ao meu lado durante o expediente e escutava tudo o que eu tentava dizer – mas também aguardava pacientemente se eu não conseguia me expressar em palavras.

Mesmo aceitando aqueles programas que em outros períodos certamente me entediariam, ela conseguia fazer com que eu me distraísse. Eu só não conseguia entender uma coisa: o porquê de ela estar sempre animada para esses programas enfadonhos. Ir para um café?! Quando tudo o que eu queria era poder voltar a aproveitar as festas e viagens que estava acostumada a fazer? Até que, um dia, ela me olhou e disse: vai parecer horrível o que eu vou te dizer. Mas, agora, finalmente, eu tenho alguém para me fazer companhia nos programas que eu posso fazer.

Naquele momento eu entendi o quão negligentes podemos ser com quem precisa de nós em momentos de dor. Ela tem depressão. E eu sequer me recordo uma única vez que a chamei para tomar um café ou assistir um filme enquanto ela passava por dias nublados. Não porque não me preocupasse com ela, mas porque eu não conseguia entender a dimensão do que é passar por dias difíceis: aqueles em que você não tem escolha. A tristeza simplesmente vem, sem que você tenha controle sobre seus pensamentos. Me culpei por alguns dias. Devia ter sido mais responsável, pensei repetidas vezes. Lembro que até cheguei a comentar sobre o meu remorso. E minha amiga disse: você me ajudou sim, em momentos que nem sequer imagina.

Nesta sexta-feira (7), é marcado o Dia Mundial da Saúde, iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para lembrar anualmente temas que necessitam da conscientização da sociedade. Este ano, a depressão foi a escolhida. Você sabia que essa doença afeta cerca de 350 milhões de pessoas em todo mundo? Imagina só quantas pessoas por aí precisam de palavras amigas, abraços carinhosos, conversas amigáveis e convites para passeios tranquilizantes?

Depressão não é frescura. Pois então, sempre que puder ajudar, ajude. Esteja por perto, ofereça seu tempo. Tenha paciência para escutar quem sofre com um transtorno que, por muitas vezes, é incapacitante e prejudica a vida das pessoas que convivem com ele*. Procure saber sempre mais, assim você terá como ajudar em momentos de crise. Se o paciente for da sua família, procure conversar com os médicos que o acompanham. Se informe, busque tratamentos complementares, o chame para realizar atividades físicas ao ar livre. Mais do que querer esses momentos, eles necessitam dessas injeções de felicidade. Faz bem para a saúde – e é comprovado cientificamente.

Se for seu amigo ou seu parceiro, não menospreze os momentos de dor. Não julgue as sensações e os pensamentos destrutivos. Apenas esteja lá para ajudar. Se não sabe como ajudar, pelo menos não atrapalhe. Comemore as pequenas vitórias do paciente como se suas fossem. Curta os pequenos grandes passos que eles dão dia após dia. Ofereça a mão se ele precisar de ajuda na caminhada. Ou observe ele ir sozinho: mas fique atento, de longe, caso ele precise de um apoio extra.

Se sente perdido? Quer fazer sua parte?

Leia também um pouco mais sobre outros transtornos psiquiátricos. Muitos distúrbios podem vir associados a um quadro depressivo, como por exemplo o transtorno de ansiedade generalizada (TAG), a síndrome do pânico, o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e a fobia social. Lute para acabar com o preconceito da sociedade em torno daqueles que vivem com algum distúrbio. Batalhe contra o estigma que mina a confiança desses pacientes que de frágil não têm nada – eles são força bruta.

Essa minha amiga, que anda enfrentando suas próprias batalhas, me socorreu em outros diversos momentos em que precisei. E foi exatamente quem eu precisava que ela fosse: sem tirar nem por. Mesmo que, por tantas vezes, eu não tenha sido o apoio que ela precisou. Então, mais uma vez, sempre que puder cuidar, cuide. Acolha e abrace essa causa. Mais que um gesto de carinho, é um gesto de amor. Com você e com o outro.

* Além de assinar a coluna O amor que guardei para mim no NE10, Malu Silveira é repórter e escreve para o blog de saúde do portal, o Casa Saudável

1 comment on “Depressão não é frescura. Abrace quem precisa”

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