Categoria: textos

Se me perguntarem sobre reencontros

Imagem de pássaros (Foto ilustrativa: Free Images)
Reencontros são necessários para nos fazer entender que perder uns aos outros serve para nos achar (Foto ilustrativa: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Se há um tempo me perguntassem qual o poder de um reencontro, eu não hesitaria em dizer que eles dizem muito mais sobre os outros do que sobre nós. Apostaria minhas fichas que essas trombadas recorrentes na vida mais servem como um espelho de quem fomos no passado e não um fiel reflexo de quem precisamos nos tornar para sobreviver ao presente.

Talvez naquela época eu não soubesse que reencontros dizem muito sobre o futuro. Sobre o que tivemos de fazer para continuar. Sobre como foi preciso muito esforço para mudar. Sobre como somos obrigados a esperar o tempo passar. Um tempo que machuca alguns, fortalece outros. E, quem diria, ensina muito a quem não soube fazer direito.

Se perguntassem algum tempo atrás, eu não imaginaria que alguns reencontros são necessários para nos fazer entender que perder uns aos outros também serve para nos achar. Que nos faz recordar que um dia foi necessário mudar caminhos e recalcular rotas. Alguns esbarrões que servem para nos mostrar que ontem tivemos medo. Hoje talvez já não tenhamos mais.

Muito provavelmente eu não fazia ideia que reencontros são a prova de que nada é melhor do que um dia após o outro. E mais outro. E outro. E outro. Para nos curar por dentro e preparar para o que vem por fora. Alguns reencontros que nos fazem perceber que as pessoas não mudam pelos outros. Somente por elas. E é nesse cruzamento de estradas que dá para perceber se a mudança veio para melhor. Ou para pior.

Reencontros, quem diria, me mostraram que não adianta se preparar. Não adianta contar dias, estabelecer prazos. Acontecem nos piores momentos, nos mais desajeitados períodos. Talvez um belo exemplo de que nada é por acaso. Principalmente as despedidas e mais ainda os desencontros.

Hoje, se me perguntarem, eu vou saber responder. A maioria dos reencontros dizem mais sobre nós do que sobre os outros. Sobre o que tivemos de abrir mão para continuar a caminhar. Sobre o que tivemos de deixar no meio do caminho para a trajetória não ser de pesar. E, se ainda assim insistirem sobre eles, pode deixar que eu vou acrescentar: alguns reencontros também dizem sobre os outros. No que diz respeito a quem passou e não retornou mais. E principalmente sobre quem voou longe e decidiu voltar para ficar.

Resiliência, para não desistir de nós

É ela, a resiliência, que nos faz florir mesmo nos períodos mais secos (Foto: Free Images)
É ela, a resiliência, que nos faz florir mesmo nos períodos mais secos (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Um ano atrás, descobri uma lesão na coluna que me impossibilitou de fazer tarefas no cotidiano que me proporcionavam muito prazer. Dormir causava incômodo, ficar em pé não adiantava e sentar era extremamente desconfortável. Apesar desse tripé desanimador, não havia contusão que me bloqueasse os movimentos ou que me impedisse de realizar o obrigatório do dia a dia. Quando questionava o médico, a resposta – apesar de vir em um tom terno e paternal de quem tenta consolar um filho – me assustava: entre cuidados paliativos, períodos de crise e momentos de tranquilidade, eu teria que aprender a conviver com aquilo.

Olha que engraçado. Entre todas as fases, desde a revolta até a resignação, a gente acaba descobrindo uma palavra de ordem essencial para não desistir jamais. Ela que, me acompanhou em inúmeras consultas na fisioterapia. Que me fez acordar cedo para enfrentar dores incompreensíveis de técnicas que eu, sinceramente, nunca tinha ouvido falar. Que me fez engolir todos os xingamentos matinais ao ter que suportar várias sessões de pilates. Que esteve junto ao me fazer resistir e repetir de um até dez cada posição. Sem parar, em todo e qualquer movimento. Sobe, desce. Estica a coluna, enrola a coluna. Alongue direito, fique ereta, engula o choro.

Uma companheira que me consolou por tantos momentos, ao me aninhar quando eu não conseguia dormir. Ao me lembrar a cada dez minutos que eu teria que escolher uma nova e definitiva forma de sentar. Ao voltar comigo mais cedo para casa quando a dor não me deixava continuar até mais tarde nos mais diversos lugares. E a estar comigo, contendo meus pulos de alegria, quando recebi a notícia ‘sim, você agora já pode voltar a treinar’. Foi ela, é ela e vai continuar sendo, a resiliência.

Sem explicações, sem tempo para grandes questionamentos e profundas reflexões, ela é uma companheira que não te dá espaço para lamentar. Está ali, em cada minutinho do seu dia, no passar das semanas, ao longo dos anos. Soprando baixinho no seu ouvido que não há tempo para se perguntar o porquê de certas coisas terem acontecido.

Foi ela, é ela e vai continuar sendo a resiliência que segura nossa mão nos momentos mais difíceis, que nos dá o entendimento necessário para compreender que o importante não é ser forte, é conseguir ser flexível. Ela, que nos faz aprender que não importa quanto a gente consegue consegue bater, ser resiliente é saber quanto você consegue apanhar (obrigada, Balboa).

É ela, que nos faz florir mesmo nos períodos mais secos. Que nos cerca de primavera para que esqueçamos as pedras que aparecem no meio do caminho. Que alivia os dias chuvosos com algumas boas ideias para não esquecer de seguir em frente. Que nos faz transformar as lágrimas em risada para, lá na frente, entender que enxergar o lado bom da vida é imprescindível para a alma. Ela, que nos dá paciência para suportar as intempéries do tempo, riscando no calendário os dias mais desgastantes. Resiliência, que nos acompanha mesmo quando não queremos companhia. Um colo nas horas da solidão. Um afago nos momentos de pressão. Uma palavra amiga quando tentam te colocar pra baixo. A decisão de ficar quando o que você quer mesmo é fugir.

Lá trás, escutei outros casos, absorvi experiências e agradeci todos os dias mesmo sem saber o porquê naquele período. Eis que foi ali, no meio de uma das maiores tempestades da minha vida, que descobri o essencial. Para muitos de nós, resiliência não é mais uma opção. Passa a ser necessidade e urgência. Para não desistir dos outros e, principalmente, de nós.

Tu te tornas responsável não só pelo que prega, mas também pelo que faz

Mais do que uma linda forma de ver o mundo, o Pequeno Príncipe é um apelo para que saibamos fazer direito (Foto: Reprodução)
Mais do que uma linda forma de ver o mundo, o Pequeno Príncipe é um apelo para que saibamos fazer direito (Foto: Reprodução)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Agora é oficial. Já podemos dizer que vivemos em uma era onde é mais do que comum encontrar por aí quem convive com a síndrome do Pequeno Príncipe. É flor pra cá, borboletas e larvas para lá, raposas que cativam de um lado, príncipes e princesas que cultivam do outro. Calma, não vou desvalorizar o clássico da infância de muitos que por aqui se encontram. Pelo contrário, acredito que a obra de Exupery, muito mais do que um clássico por si só, é uma verdadeira lição de vida.

Paremos para pensar direitinho. Quantas e quantas vezes já não vimos estampada nas biografias alheias a máxima ‘tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas’? Engraçado é que muitos não sabem nem ao menos a delícia que é criar laços e a agonia ainda maior que é estreitar relações. Fortalecer vínculos é complicado – demanda tempo e dedicação. É uma responsabilidade pesada, que muitas vezes exige paciência e resignação. E outras tantas vezes causa dor e necessita de extrema atenção. Cativar é muito mais do que ser responsável de longe, é estar presente e, de alguma forma, por perto.

Falar sobre O Pequeno Príncipe ou qualquer outra obra que nos dê chão para seguir lutando nessa batalha que é a vida é fácil, difícil é saber como executar aquilo em que dizemos tanto acreditar. Suportar duas ou três larvas é aceitável, sábio é apreciar de verdade o valor de conhecer as borboletas. Exclamar que é bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros é bom demais. Difícil é saber ficar calado quando você não tem nada de interessante ou importante a dizer.

Afirmar que só se vê bem com o coração é plausível. Complicado é entender de verdade – quando ninguém mais está lhe vendo falar sobre isso – o que é essencial e invisível aos olhos. Dizer que o mais importante é o tempo que dedicaste a tua rosa é muito bonito, de verdade. Mas nobre mesmo é realmente entender o que é dedicação. Defender que todas as pessoas grandes foram um dia crianças parece admirável, mas extraordinário mesmo é saber ser bondoso no dia-a-dia.

Se pararmos para observar, as frases do principezinho estão por aí – em todo lugar. Espalhadas em todos os cantos. Em cada esquina, um ensinamento. Em cada beco, uma reflexão. Cativar, cultivar, enxergar o que é invisível aos olhos, exigir do outro só o que ele pode dar e até o risco de chorar um pouco quando nos deixamos cativar. Mais do que uma linda e inocente forma de ver o mundo, é um gigante apelo para que saibamos não apenas escrever e divulgar suas frases mas também como por em prática cada um dos seus pensamentos.

Quando era criança, li o Pequeno Príncipe. Na época, aquelas frases não tinham muito sentido para mim, apesar de que eu sabia que algo havia tocado meu coração. Hoje entendo que é uma obra para os grandes. E ouso dizer: para os corajosos. Voltei a ler o livro em outras fases da minha vida e sigo pensando que ele me deu a maior lição que poderia me dar. Muito mais do que cativar, cultivar, chorar ou entender o valor de um amigo.

O maior e melhor aprendizado que a gente pode absorver. Suas crenças não dizem muito sobre você. Quem fala sobre sua personalidade é seu comportamento. Por isso, tu te tornas eternamente responsável não apenas pelo que prega, mas principalmente pelo que faz.

Amor não se cobra

O amor não deve ser uma obrigação para quem sente. Tampouco serve como uma desculpa para quem é amado (Foto: Free Images)
O amor não deve ser uma obrigação para quem sente. Tampouco serve como uma desculpa para quem é amado (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Há algum tempo eu venho encontrando certa dificuldade em estreitar laços com uma pessoa querida. Apesar de saber que o carinho é enorme, nossos caminhos não se encontram. Nossas visões de mundo não entram em sintonia e nossos gestos sempre são mal interpretados pelo outro. Nunca encontramos um meio termo para nada e não importa o que eu faça para satisfazer suas expectativas, termino sempre andando em círculos.

Essa não foi a primeira vez que passei por algo do tipo e provavelmente não será a última. Desarranjos assim são recorrentes na vida. Dolorosos, mas extremamente necessários para nos fazer entender que amor não se cobra. Salvo algumas exceções, é preciso entender que amor, em todas as relações, deve ser uma via de mão dupla, nunca uma disputa na contramão.

Claro que aceitar esses desencontros nunca será fácil. Pelo contrário, seguimos sempre dando murros em ponta de faca. Ou inventando mil e uma maneiras de aparar arestas, tarefa esta que, sinceramente, não precisa ser nossa obrigação depois de inúmeras tentativas fracassadas.

Vale tirar um tempo para pensar que o amor não deve ser uma obrigação, principalmente para quem sente. Tampouco serve como uma desculpa, ao optar pelo abandono ou negligência, para quem é amado. Muito menos motivo de vergonha para esconder o sentimento. Quando a gente ama, escancara. Faz por onde e mostra como. O amor diz respeito a querer e saber estar junto, mesmo sem estar por perto.

Essas experiências desastrosas também nos fazem repensar sobre o fato de que amor não é um dever a ser cumprido com prazo apertado. Amor é doação mútua. É um sentimento que não tem o porquê de ser se te maltrata, se exige hora marcada ou te impõe a seguir regras de etiqueta. Amor não faz você sentir necessidade de se justificar ou procurar pretextos, isso aí é outra coisa: é imposição. E imposição não é amor, é apenas exigência.

Esse não é um tratado para que abandonemos nossas relações a cada divergência. Até porque amor mais do que doação, é também troca – nem que seja de defeitos. Esse texto também não é uma visão romântica do amor, pois sabemos bem que há muito mais falhas do que perfeição, já que ao tentar encontrar a si mesmo no outro, terminamos confundindo todos.

Essa é apenas uma reflexão sobre como e com quem devemos preencher nossos espaços vazios. Parece complicado, não é? Você vai custar a aceitar e muitas vezes vai se recusar a entender, mas amor realmente não se cobra. Do contrário não é amor, é insistência.

Amadurecimento aperta o coração, mas é um abraço na alma

Imagem de pessoa de costas olhando para arco-íris (Foto: Free Images)
Amadurecimento é, entre tantas coisas, suportar a tempestade ansioso pela chegada do arco-íris (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Quando eu era mais nova, acreditava que ser adulto era ter a capacidade de realizar meus sonhos. Entrar nas festas que os mais velhos viviam falando sobre ou ter meu próprio dinheiro. Dinheiro esse que eu imaginava que poderia gastar somente com besteiras. Ser adulto na minha imaginação era morar em um apartamento sozinha. Um espaço onde eu poderia receber todos os amigos que quisesse e sempre que estivesse afim, de preferência todos os dias, já que minha mãe só me deixava ver os amigos entre a sexta e o domingo.

Ser adulto para mim naquela época era ter o privilégio de abraçar o mundo com sem dificuldade e ajudar todos que precisassem com a grana que eu ganharia. Grana essa que viria muito mais fácil que nas partidas de Banco Imobiliário. Era ter um carro e poder dirigi-lo sempre que meus pais pegassem no meu pé. Ser adulto para mim, entre tantos outros planos maravilhosos e metas invejáveis, era encontrar o grande amor da minha vida antes dos 25 anos e já ter, pelo menos, dois filhos com ele.

Pense como dói crescer e perceber que ser adulto, na verdade, é ficar sem chão milhares de vezes. É sentir, por diversos momentos, aquele aperto no coração por saber que não há para onde fugir quando o seu mundo está uma confusão. É ter vontade de desistir da brincadeira porque ela está pesada demais e ninguém lhe avisou que era na vera. Crescer é se desesperar ao entender que nem sempre teremos colo de mãe ou pai para pedir abrigo quando alguém lhe machuca ou tudo sai errado no seu dia. Entrar na vida adulta é perceber, meu amigo, que ninguém admite que você seja café com leite.

Assusta saber que não há um ritual de iniciação neste processo. Você começa chutando algumas pedras bem pequenas. Faz umas firulas aqui, paga uma conta ali, outra acolá. Depois aparecem alguns obstáculos maiores, beleza. Primeiro as barreiras são espaçadas, dá tempo da gente respirar e relaxar um pouco. Mas aí depois, você pula um e já vem outro. É a vida mostrando que ser adulto é tomar um monte de decisões sem ter a chance de pensar e torcer para não cair logo depois.

Venho percebendo que ser adulto não é só realizar sonhos, é ter a força e a resistência de correr bastante atrás deles, já que muitos vão se esconder pelo meio do caminho. Que meu dinheiro quase não dá e quando dá é muito pouco. Por isso mesmo ser adulto não tem nada a ver com a permissão para entrar em festas, até porque você quase nunca tem grana para bancar todas elas. Ainda sonho com aquele apartamento e vivo agoniada tentando manter contato – nem que seja virtual – com meu punhado de amigos. A brincadeira me fez ver que é humanamente impossível abraçar todos os meus projetos e às vezes eu vou ter que ir dormir chorando porque não pude ajudar quem eu queria ver feliz. O carro, na maioria das vezes, só serve para te deslocar ao trabalho e mesmo que você queira fugir, acredite, não terá para onde ir.

Mas se tem uma coisa que a vida adulta nos concede como um presente, nunca de mão beijada, é esse tal do amadurecimento. Um presente que ela nos dá todo santo dia. Quando nos desfazemos de vícios antigos, quando cortamos relações abusivas, ao olharmos sempre em frente, quando aprendemos na marra a cuidar das nossas feridas sozinhos, quando decidimos não nos importar mais com besteiras e quando tentamos ser um pouco mais flexíveis com as artimanhas que surgem na estrada.

Ao falar apenas o necessário e tentar escutar o que o nosso silêncio tem a nos dizer. É preferir estar sozinho a viver ao lado de um amor que de grande não tem é nada. Crescer é suportar a tempestade ansioso pela chegada do arco-íris. É entender qual o momento certo de bater em retirada. É saber que chorar não nos faz fracos, nos faz humanos. E também compreender que os erros não nasceram para serem repetidos, eles vieram ao mundo como uma oportunidade de nos mostrar que é possível fazer diferente.

Eu não fazia a menor ideia que ser adulto tinha a ver com amadurecimento. E muito menos que amadurecer dói bem fundo no coração. Mas que delícia saber que é como um abraço gostoso e apertado na nossa alma. Então é isso, acho que estamos prontos. Que comecem os jogos!