Categoria: textos

Pela vontade de abraçar as lembranças

Sou péssima com a memória recente. Posso contar mil vezes a mesma história para a mesma pessoa em um intervalo de tempo curtíssimo. Ou esquecer onde estacionei o carro. Ter que voltar para certo lugar e tentar lembrar o que quero fazer ou o que ia falar. Já pulei três vezes em variados momentos, rezando insistentemente para que São Longuinho me ajudasse a achar o que tinha perdido. E até já amarrei um laço no cabo da escova para encontrar o que eu queria. Mas sou ótima com lembranças… Elas são parte de mim, parte de quem sou, parte de quem fui e de quem quero ser.

Lembranças constroem o que somos na essência. Todo dia. Vez ou outra a gente se pega revivendo alguns momentos. Isso é bom porque nos faz sentir humanos. Quando a saudade aperta, relê alguns trechos de diários, folheia cartas trocadas, tira um tempo para mergulhar em álbuns de fotos antigas. Passa um tempo olhando para o nada e lembrando de tudo. Depois volta a viver. Adoro memórias – sou cheia delas. E gosto de estar com quem me faz viver e reviver cada retalho do que me fortalece diariamente.

Saudades fatias douradas <3
Saudades fatias douradas <3

Lembro de quando minha mãe fazia fatias douradas e me deixava esperando doida. Quando vejo essa delícia, me lembro da infância, daquela inocência e da felicidade conquistada com pequenas coisas. Na ansiedade ingênua de quem não ligava muito para o que iria acontecer amanhã, mas contava aflita os minutos para viver momentos triviais. Reviver essa saudade é um alívio depois de um dia pesado. Ou quando minha mãe saia para trabalhar e a saudade apertava. Aí eu me abraçava com as roupas que ela deixava. Aquele cheiro de perfume misturado com incenso me trazia o conforto de que ela não ia demorar para voltar. Então eu ficava ali, agarradinha com a trouxa de roupa até a ausência diminuir, mesmo que fosse por alguns instantes. Uma lembrança que aperta, mas que traz a paz de alguns portos seguros que tenho nessa vida.

Ou quando eu queria muito uma coisa. Me escondia debaixo da cama e rezava incontáveis vezes. Aquela lembrança que reforça a Fé. Ou quando vi a neve (*o*) pela primeira vez. É como poder pegar o arco-íris: daquelas lembranças que você não consegue descrever. Você até tenta explicar, ensaia umas palavras, um suspiro aqui, outro ali e depois solta um deixa para lá. 

Na correria dessa vida que massacra, alguns perdem a capacidade de reviver e comemorar lembranças. Vamos perdendo a vontade de realmente enxergar a vida, o que nos rodeia, o que de fato emociona. Procure quem vibra com os detalhes e sabe abraçar o passado, relembrar suas histórias e aprender com elas.

Vai, você gosta de enxergar com vários outros olhares o que já passou ou tenta não voltar as páginas? Já sentiu diferente o que tantas outras vezes já sentiu ou prefere nunca lembrar de quem já foi só porque já não tem mais tanta importância nessa correria? Você acorda todos os dias e já não se lembra de muito o que viveu e que pode te ajudar a viver o que vem por aí? Você vive a vida nos detalhes que construímos dia após dia ou nem sente a diferença daquele que você foi ontem e está sendo hoje?

Será que você já reviveu alguma lembrança importante hoje? Ou anda vivendo no automático…? Vai, não esquece, abrace suas lembranças. Deixa elas ficarem um pouquinho, para ensinar que a vida é muito mais do que isso. 

A presença de Deus em todos os lugares

Um dia me disseram que Deus está não apenas nas coisas mais bonitas, mas também nos detalhes. Aqueles que tantas e tantas vezes passam desapercebidos. Então eu fazia o jogo do Ele pode estar em qualquer lugar. Ele estava no barulho da chuva que escorre pela janela, no pôr do sol de uma tarde feliz, na brisa que chega de repente e bate no rosto. No céu estrelado em uma noite de muitas descobertas. No abraço que tanto diz entre amigos que se amam. No meio de um sorriso sincero daqueles que só convivem com a tristeza.

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Acreditar em Deus é enxergar sua Beleza e confiar na sua presença em todos os lugares

Eu via que Ele sempre estava naquele que ajuda o próximo. Naqueles que não têm nada em especial para mudar o nosso dia e mesmo assim acabam mudando. Nos que respeitam as diferenças. Naqueles que sabem amar, nos que não poupam esforços para seguir em um mundo melhor. Jogar o jogo do Deus está em todo lugar me fez acreditar que a vida é a energia que damos a ela.

Que Sua presença está em toda esquina e em muitos cantos. Nos sinais que precisamos todos os dias para seguir em frente. Descobri que Ele se faz necessário em todos os momentos. Na oração do fim da noite, nas lágrimas reparadoras. No amor que transforma. Ao acordar e perceber que temos muito para lamentar, mas tantas coisas para festejar. Em todos os recomeços e segundas chances. No tempo que passa e cura todas as feridas e naquela vontade inacreditável de dar mais um passo e acreditar em um amanhã melhor.

E assim segui todos os dias acreditando no Deus que é amor. De repente, tudo e muito pouco passa a fazer sentido. Aquela música que toca naquele dia em que você precisa escutar um pouco de poesia. Uma mensagem de alguém querido naquele momento que você mais precisa. Aquele céu bonito de se ver, gostoso de admirar e que só nos dá ainda mais a certeza que alguém olha por nós lá em cima. Um alguém que aceita toda cor, todo tipo de amor e qualquer crença.

Um dia me falaram que se eu rezasse muito as coisas aconteceriam. Não no meu tempo. Mas no tempo dEle. E que se eu acreditasse no poder dos meus sonhos, eles se tornariam realidade. Que se eu pisasse um passo de cada vez, minha caminhada seria muito mais segura. A seguir sempre acreditando que Ele está ao nosso lado. Mesmo que não o vejamos. Isso se chama Fé. E, veja: não tem nada de errado ou exagerado nisso. Cada pequena lição que você aprende a cada dia é aprender todo instante que ser sensível a Ele é acreditar na vida.

Por que criamos tantas expectativas?

Em uma roda de conversa, uma amiga tentava convencer a outra de que nem todos demonstram do mesmo jeito o amor que sente pelo próximo. Que às vezes a gente dá demais e, PACIÊNCIA!, não recebe o mesmo de volta. Enquanto eu escutava a conversa, me veio à cabeça todas as vezes que depositei muito de mim no outro. De quantos “como está você?” nunca escutei uma resposta e, o pior, quando a pergunta nunca me foi merecidamente devolvida.

Pensei nas expectativas. Um pouco de cada. Aquelas que doem lá no fundo, daquelas que angustiam. Ou aquelas que plantamos, regamos e esperamos brotar. E quando elas não brotam, deixam as decepções. Daquelas que magoam e que desencantam. Que deixam um rastro de desconfiança. Seja por um mês ou um ano.

Lembrei de alguém que nunca lembrou de volta. Dos momentos que forcei amigavelmente – ou talvez não – uma aproximação mas, deliberadamente, não fui bem interpretada. Dos mau entendidos que nunca fizeram questão de desfazer. Dos nós que nunca voltaram a ser laços, por pura e simples falta de vontade. Lembrei também das conversas que tentei iniciar e não houve o mínimo de interesse. Aquela vontade de saber de mim, de estar por mim e ser por mim. Lembrei um pouco das diversas amizades que acabaram ou passaram para aquele plano dos apenas conhecidos. Por culpa dos outros e por muita culpa minha também. E, mesmo assim, me pareceu inevitável continuar criando expectativas. Até porque somos feitos delas.

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Criar expectativas é como construir um castelo de areia e ver ele indo embora com as ondas (Foto: Free Images)

Criar expectativas é como construir um castelo de areia na beira da praia. É um construir vagaroso e ansioso. Bem sonhadoramente. É ter controle sobre sua própria criação. E sentir a frustração da perda quando as ondas levam ele para bem longe. Criar expectativas é como desejar uma torta e, na primeira garfada, perceber que o sabor dela não tinha nada a ver com o que você fantasiava. É ganhar um presente que não tem nada a ver com você. É adorar a roupa na vitrine e, no provador, ter a certeza que ela não foi feita para você. Criar expectativas é contar seu maior segredo e não saber o que o outro vai fazer com ele.

É sempre assim. Quando a gente quer muito algo, se agarra a qualquer coisa para esquecer a realidade. Somos assim no fim de relacionamentos. Nos dramas familiares. Em crises nas amizades. Quando não temos medo de criar expectativas, temos medo de não corresponder às expectativas criadas por nós e para nós.

Acabou que nem terminamos a conversa. Ficamos ali, no meio desse assunto que não tem fim. Não tem meio termo. E quase não tem mágica. Mas, pensando bem, mesmo sem fórmulas, sempre podemos seguir por alguns caminhos. Pare pra pensar: Quem quer dar um jeito. Quem não quer sempre arruma uma desculpa. Quem gosta faz questão de demonstrar. Nunca se esconde, nunca te deixa na zona do desconforto. Sempre te coloca na direção certa. Quer sua companhia. Nas melhores e piores horas também. Quem quer, faz por onde. Deixa uma mensagem. Faz uma ligação.

Quem gosta, esquece as brigas. Engole o orgulho e aceita alguns defeitos. Faz questão de estar ali. De alguma forma e de tantos e tantos jeitos. Quem se importa nunca te deixa cheio de dúvidas! É, amiga, o mais interessante é que quando o amor é via de mão dupla não precisamos das expectativas. Elas são as próprias respostas.

Esse coração que não bate, só apanha

Quem tem um coração que não bate, só apanha, chega junto. Para curar as feridas, chorar as lágrimas, lamentar alguns descasos. Para riscar alguns dias do calendário ou comemorar o alívio ao perceber que a dor está indo embora. Chega junto para lembrarmos de algumas histórias, torcer por novos caminhos e distribuírmos alguns abraços – nem que seja apenas para confortarmos uns aos outros.

Até por que quem tem um coração que não bate, sabe esperar. Acredita que vai melhorar. Aceita a mágoa e até convive com ela. Um dia ela vai passar. Dia após dia encontra novos motivos para não desistir. Tenta não pensar no futuro. Planeja alguns pequenos passos. Olha algumas vezes para trás. Mas quer sempre caminhar em frente. Nunca voltar atrás.

Quem tem um coração que não bate, só apanha, sabe o que é estar sozinho, por isso odeia a solidão. Mas sabe tirar algumas lições dela. Faz algumas tarefas e entende que pra estar junto não precisa estar perto. É preciso estar presente.

Aquele coração que não bate, só apanha, fica cada vez mais forte. Se desfaz de alguns pesos desnecessários. Passa a não dar justificativas. Aprende o valor das palavras e tem a certeza que toda forma de amor é justa. Um coração que apanha já se partiu em pedaços para completar os outros. E depois teve que juntar todos os pedaços para tentar recuperar a confiança. No próximo e até em si mesmo.

Quem tem um coração que não bate, só apanha: deixe estar. Enquanto isso, espantemos o cansaço. Saibamos rir da própria desgraça. Mesmo que ela seja pesada demais. Um dia há de ficar leve. Quem tem um coração que não bate sabe que alguns amores passarão. Alguns hão de ficar.

A imensidão dos nossos sentimentos

Dia desses recebi uma imagem no grupo da família. Era mais uma destas fotos que, a princípio não dizem nada, mas, no fundo, representam muito. Na margem de um rio, um banquinho de madeira. Minha mãe respondeu: “vendo esse banquinho, essa paisagem, vejo a imensidão dos nossos sentimentos”.

Aquilo me fez pensar. Pensei. Pensei. Pensei tanto e, mesmo assim, nenhum dos meus pensamentos me levou a uma conclusão exata sobre a imensidão dos nossos sentimentos. De tão gigantes, eles chegam a ser sufocantes. Será que já paramos para pensar sobre isso? Sentimos tanto que não damos conta de tanto sentimento. Tentamos abraçar o mundo. Mas nos falta tanta coisa. Nos faltam braços, pernas, nos falta amor. Amor dos outros. Amor de nós. Falta também amor próprio.

Lembrei de vezes que a sensação de um sentimento me inundou tanto que eu não consegui me conter em mim. Aquele primeiro amor que em uma noite tão esperada me decepcionou. Chorei para tentar acabar com a mágoa. De tão gigante o amor que eu sentia, não conseguia exprimir em palavras o que me sobrava. Ou talvez o que me faltava.

Imagem de rio com banco de madeira na margem
“Vendo esse banquinho, essa paisagem, vejo a imensidão dos nossos sentimentos”

Lembrei também quando chorei por ciclos concluídos, rompidos e interrompidos. Quando quis juntar o que e quem já não poderia mais ser unido. Lembrei da angústia depois de reclamações no trabalho, da aflição ao receber um castigo dos pais, do medo daquilo que ainda estava por vir. Lembrei de pessoas especiais que se foram. Lembrei de abraços que nunca mais vou ter. De cartas que nunca mais vou receber. Lembrei que o desapego é difícil – tamanha é a dimensão dos nossos sentimentos.

É que quando a gente sente muito, as palavras nos faltam. É tentar traduzir em texto a saudade. Explicar alguns alívios. Substantivar as lágrimas. Compreender algumas sensações. Definir quem somos em apenas um minuto. Tentar falar tudo que achamos de alguém muito importante para nós em alguns instantes. Ou demonstrar todo o nosso amor por certas pessoas. É como tentar transcrever o desconforto de uma despedida. Principalmente aquela forçada. É descrever um pôr do sol. Ou a alegria de reunir todo mundo que a gente gosta em um dia só. É tentar falar da dor e alegria de ser responsável por alguém. É, inutilmente, expressar o que significa um abraço em certos momentos. Inexplicável o tamanho da dor. E até mesmo a grandeza da felicidade. Difícil explicar o que parece não ter sentido, mas tem todo o sentido do mundo.