Categoria: textos

Responsabilidade afetiva também quer dizer arcar com seus erros

Ser responsável com seus afetos é saber ser gentil ao sair da vida do próximo (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Dia desses estava sentada no banquinho de uma praça, esperando minha professora chegar para iniciar o treino do dia quando escutei um buruçu perto de mim. Quando olhei para o lado, vi que um homem estava discutindo com uma moça. Ela havia se assustado com a aparência dele e se levantou do banco em que estava por medo de ser um assalto. O rapaz discutia com a jovem por ela o ter confundido com um ladrão. A pobre, eu até entendo. Aqui no Recife, a gente prefere ver o capeta do que um sujeito estranho se aproximando (ou dois homens numa moto).

A moça não deu ouvidos para os xingamentos do rapaz e continuou seu caminho. Eis que então sobrou para mim. Fui fazer a desconstruída, sem preconceitos, mas, na verdade, já havia rezado para todos os santos possíveis e imagináveis. O rapaz chegou ao meu lado, me cumprimentou e sentou na grama. E eu só conseguia calcular o rombo no meu orçamento se precisasse arcar com prestações de um novo celular. Fazer o que, recifense já nasce desconfiado. Segue o diálogo:

A menina pensou que eu ia roubar ela, mas eu não ia roubar não.
– … beleza!
– Eu sou carioca, sabe… mas moro aqui tem muito tempo. Meu problema é só com o álcool.
– E tu veio fazer o que aqui no Recife, homi?
– Eu vim atrás de um grande amor. Larguei tudo para vir morar com ela. E depois de tudo isso ela me deixou… moça, você é casada?
– Casada não, sou noiva. (apelei até para um suposto noivo)
– Pois você tem que dar valor ao seu amor… (nessa hora ele já havia deixado escapar, com muita relutância, algumas lágrimas)

Eu não consigo recordar com exatidão como se desencadeou a conversa, mas ele bateu muito na tecla do amor. Senti muita pena, já que para ele se abrir totalmente com uma desconhecida, sentado na grama suja de um parquinho mequetrefe, o assunto devia causar tamanho rebuliço em seu coração.

Dias depois, passando o feed de uma rede social, vi a postagem de um conhecido que dizia: em 2017, eu aprendi a ter responsabilidade emocional. O rapaz não devia ter nem 20 anos. E aquilo me fez pensar em uma conversa que tive com um cara que eu amei para cacete. Depois de ter feito picadinho do meu coração, ele disse que tinha aprendido o que era a tal da “responsabilidade afetiva”. Me desculpe os Hare Krishna, mas a minha vontade foi de socar a cara dele repetidas vezes.

Talvez eu esteja sendo bem repetitiva nos meus textos, mas é que não consigo engolir tanta hipocrisia. Fica engasgada na garganta. E a impressão que tenho é que, se eu não colocar para fora, vou terminar implodindo. Como é tão fácil destroçar a vida do outro e dizer que sabe o que é responsabilidade afetiva? Alguém, pelo amor das deusas, me explica? Por que as pessoas continuam repetindo as mesmas cagadas de sempre e colocam a culpa numa suposta imaturidade emocional? Cacete, até quando vamos insistir no clássico Não é você, sou eu?

Eu nunca fui boa de matemática, mas essa conta aí quem não fecha só pode estar mesmo de sacanagem. Não quer? Dispensa. Não ama? Acaba. Tem consideração? Não magoa. Errou sem intenção? Aprende com o erro. Não tem meio termo nessas situações. Sempre me pareceu simples que a gente precisa ter a certeza sobre a resposta dessas perguntas para seguir em frente com a certeza que não fizemos por onde machucar o próximo.

Eu vou ser legal. Vou dizer o que é responsabilidade afetiva. Bora lá, quem perdeu a aula pode entrar. Responsabilidade afetiva é ser honesto com o outro. É ter um diálogo sensato, sem optar pelas entrelinhas só para satisfazer o seu ego. Responsabilidade afetiva é não dar corda se você não tem interesse. É saber ser gentil ao sair de cena. Deixar boas recordações ao optar por sair da vida dos nossos afetos.

Responsabilidade afetiva diz respeito a ser prudente: ou seja, se causar um acidente, fique lá para prestar um socorro. Mas deixa eu te dizer uma coisa, campeão: a não ser que você deixe de ser um babaca, responsabilidade afetiva também é arcar com seus erros.

Que maravilhoso seria viver o espírito natalino todo dia

Que maravilhoso um mundo onde o espírito natalino invadisse as nossas casas todo santo dia (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Chegou o fim de ano. Eis que cada cantinho das nossas comunidades se enche de uma espécie de aura mágica, envolvendo tudo e todos com uma solidariedade impossível de explicar. Somos embalados carinhosamente por uma atmosfera encantadora, capaz até de transformar os insensíveis nas pessoas mais emotivas da Terra, quiçá os mais fofos entre todos os habitantes dos planetas do Universo. Sim, ele mesmo, o espírito natalino.

Que esplêndido seria se o carregássemos conosco durante todo o ano. Quem sabe assim as pessoas não seriam tão cruéis umas com as outras. Dessa forma, pensaríamos mais nos outros e não machucaríamos os próximos por tão pouco. Teríamos um tantinho de cuidado com quem nos ama e nos colocaríamos em situações que, por mais que nos pareça irrelevantes, ferem os sentimentos alheios.

Que bonito seria se fôssemos tão afetuosos com os outros ao longo das centenas de dias que antecedem esse período místico que parece mexer com tanta gente. Então não teríamos tantas pessoas despedaçadas no término desses ciclos, sem saber em que se agarrar para enfrentar os próximos doze meses que se aproximam.

Que maravilhoso um mundo onde o espírito natalino invadisse as nossas casas todo santo dia. Para que parássemos de ser rudes com nossos familiares, estúpidos com nossos amigos, arrogantes com nossos funcionários, indiferentes com aqueles que mais precisam de amor e carinho.

Que extraordinário seria se essa magia do Natal tomasse a tudo e a todos como uma onda amena e nos envolvesse por todo o ano. Podia vir até em forma de gripe. Que contaminasse cada um de nós. Faríamos questão de correr atrás desse vírus. E nem iríamos querer tomar remédio.

Seria inerente a cada ser humano. Ninguém ia precisar esperar o fim do ano para ser bom com o próximo. Seríamos bacanas porque foi assim que nos ensinaram. Não precisaríamos esperar dezembro chegar para ser uma pessoa do bem. Seríamos em cada segundo dos nossos dias, simplesmente porque é dessa forma que entendemos que o mundo vai pra frente.

É, parece que esse tal do espírito natalino não grudou em todo mundo não.

Cuidado com as pessoas-trator

Tem gente que é assim: passa por cima dos nossos sentimentos como se fosse um trator (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Há um bom tempo queria tocar neste assunto aqui na coluna. Semana entrava, semana saia, eu sempre colocava o tema em segundo plano, afinal, falar de amores e corações partidos me parece muito mais urgente. Até que uma série de desentendimentos familiares, com muita confusão e gritaria, típicas da tradicional família brasileira, me fizeram crer que precisamos urgentemente falar delas. Sim, elas mesmo. As pessoas-trator.

Na maioria das vezes, são pessoas sensacionais. Nada contra. Muitas são até prestativas, atenciosas, companheiras e gentis. Mas a bronca, meu amigo, é quando você se mete num atrito com elas. Sai de baixo. Corra enquanto é tempo. Porque aí é que entra o modo trator. Cara, é impressionante. Elas vêm se multiplicando mais do que gente chata. Gostaria muito de saber o que exatamente ativa esta função de suas personalidades, para então passar o mais longe delas possível quando estiver em um dia difícil.

Vamos explicar como elas funcionam na prática. Certa vez um casinho, após me esculhambar de todas as formas durante uma discussão, veio falar comigo naturalmente no outro dia. Assim mesmo, como se nada tivesse acontecido. Eu, sinceramente, não sei o que elas tomam para esquecer tão facilmente os conflitos passados. Isso é: se não forem elas a parte magoada. Naquele momento, não acreditei que tal fato estava acontecendo. Bateu a cabeça e perdeu a memória recente, pensei.

Respirei calmamente e devo ter respondido que não entendia como ele podia dar uma rasteira em alguém e esperar que a pessoa não sentisse a dor do tombo. Eis que outra confusão, geralmente, começa. Atenção! As pessoas-trator não conseguem entender de jeito nenhum que os outros têm direito de ficar chateados e, sendo assim, precisam de um tempo para processar a dor. Na maioria das vezes, não conseguem lidar com o fato de que é preciso, sim, discutir a relação após as divergências – principalmente se alguns desaforos foram ditos e farpas foram trocadas. Aparar as arestas, é o que costumo dizer.

Essas pessoas, em muitos casos, estão na nossa própria família, por isso termina sendo difícil se desvincular delas. Pode ser um pai autoritário, uma mãe arbitrária, um irmão arrogante. Geralmente, são indivíduos com dificuldade de entender que as relações, por mais hierárquicas que sejam, precisam de diálogo constante. Mas é preciso ser firme. Não há nada nem ninguém no mundo que te impeça de ter o seu lugar de fala, principalmente se você se sentir magoado. Por para fora faz bem e, na grande parte das situações, tem o poder de matar os nossos fantasmas.

Depois de muito engolir sapos em casa, tendo que aceitar que, por muitas vezes, iriam me magoar no meu próprio convívio familiar e eu não teria a oportunidade de dizer: “ei, peraí! vamos conversar”, entendi que tem gente que é assim mesmo. Passa por cima dos nossos sentimentos como se fossem um trator. Tem uns que ainda fazem pior: engatam a marcha-ré e passam por cima de novo, só para ter certeza que deixaram nosso coração em inúmeros pedacinhos.

Desculpa aí qualquer coisa

Tem alguns que, além do mega turbo trator, ainda investem no tal do ‘desculpa aí qualquer coisa’. Vixe! Toda vez que escuto essa frase me dá uma dor aguda no coração. Tomara que não seja infarto. Funciona mais ou menos assim, vejam bem se estou certa: não satisfeitos em passar por cima da gente com o trator e depois ainda engatar a marcha-ré, eles costumam parar no local do acidente, geralmente ainda em cima de nós, e falar naturalmente, lá do alto da cabine: olha, foi mau aí se te machuquei. Mas o que passou, passou, né, verdade? Vida que segue! E o coitado do esmagado fica lá com aquela cara de: que p@rra é esta que está acontecendo aqui?

Eu tenho especialização em ser esmagada por pessoas-trator. E, mesmo correndo do atropelamento quando eles sinalizam que estão por vir lá no começo da rua, ainda costumo ser pega de surpresa de vez em quando. Pense na dor. É como se tivessem me dado um soco no estômago e logo depois me pedem para encher uns dez balões. Falta o ar.

Sinceramente não sei se existe uma fórmula mágica que nos impeça de ser sugados para as profundezas do trator que atropela sentimentos. Venho aprendendo, no entanto, que não é apenas minha função cuidar dos machucados. Claro que algumas pessoas-trator ainda continuam nos atropelando e fogem do local sem prestar ajuda. Mas aquelas que ficam, aaaaah, aquelas que ficam. Pode ter certeza: venho pedindo, sem vergonha alguma, algum tipo de ajuda para comprar os remédios quem pode ajudar a sarar as feridas.

Para onde vão nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?

O que acontece com nossos silêncios quando deixamos de falar o que deve ser dito? Vira medo em se abrir com o próximo? (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

​Um ex-casinho adorava me dizer que nós precisamos falar o que está engasgado na garganta (ou escrever o que está coçando na ponta do dedos). Que relacionamento saudável era aquele no qual nos sentimos à vontade em dizer tudo o que pensamos. Uma amiga sempre dizia que uma boa relação tinha que ser às claras, com tudo esclarecido para que assim não houvesse qualquer mal entendido. Posso até mudar de cenário, contracenar com outros personagens, perceber algumas alterações nos discursos, mas, no final, é comum ter que lidar com a mesma roupagem. Tenho percebido que, em muitos casos, as pessoas não estão interessadas em nos ajudar a esvaziar o peito das sensações que nos sufocam. Não parecem se importar em ser protagonistas no ato de aliviar o nosso ser ao prestar atenção no que temos a dizer.

​É um tema recorrente, eu sei. Mas como não falar de um movimento sistemático, onde uns estão deixando de ouvir e os outros, por conseguinte, estão desistindo de desabafar? E agora me diga você, como já questionou Mafalda em outros tempos: para onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos? Sim, me diga você. Vira úlcera? Se transforma numa tremenda gastrite nervosa? No fim do dia, causa uma dor de cabeça desgraçada?

Sim, isso mesmo, me diga você: para onde vão nossos silêncios quando vão nos emudecendo e calando nossas intenções ? Vira desconfiança em se abrir com o próximo? Se torna uma falta de ar ao acordar? Uma azia sem explicação? Ou quem sabe aquele refluxo que já não te deixa mais dormir? Uma tremedeira nas mãos ao ter que enfrentar certas situações? Isso, pode me dizer: para onde extrapolam nossos sentimentos quando os prendemos nos nossos corações? Vira, quem sabe, uma arritmia cardíaca? Uma hipertensão que, estranhamente, não está relacionada ao exagero no consumo de sal?

​Queria tanto saber o que acontece com nossos silêncios quando deixamos de falar o que deve ser dito. Na verdade acho que até sei, mas não posso comprovar com exames clínicos. Será que vira medo em ter que falar para as paredes novamente? Ou será um poderoso combustível para aquelas inexplicáveis crises de ansiedade? Vira gatilho para os sintomas depressivos? Me diga você: para onde vão nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?

Eles apenas se transformam…

​… eu tenho esta teoria de que os desabafos contidos, transformados desumanamente em silêncios atrevidos, têm um estranho poder de causar inúmeros males, inclusive os físicos. Vou te contar que pode ter um dedo deles naquela enxaqueca insuportável, na gordura no fígado mesmo com a dieta em dia. Desconfio também que é cúmplice eterna daquela dor nas costas e nas persistentes dores musculares.

​Queria encontrar um remédio que atenuasse os sintomas dos sentimentos contidos. Um relaxante para os silêncios nervosos, um anti-inflamatório para as feridas que nunca cicatrizam porque não tivemos a oportunidade de chorar nossas dores para alguém que soubesse apreciar nosso valor. Se não houver analgésico ou antibiótico que cure esta dor que é preciso empurrar de volta para dentro o que deve ser posto para fora, será que uma xícara de chá resolve? Encaro até chá de boldo se preciso for.

Tenho essa forte impressão de que ao deixar de falar o que sentimos, perdemos um pouco do nosso corpo a cada dia. Os silêncios, como bactérias resistentes, ocupam múltiplos espaços no nosso ser. É, agora me diga você: o que acontece com nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos? Deixa eu te contar: eles podem virar doença. Talvez do corpo, mas sempre do coração.

Homens, vocês precisam aprender a nos escutar

Imagem de casal de costas olhando para lago (Foto ilustrativa: Pixabay)
Nos falta espaço para falar sobre nossas angústias, dividir nossos segredos, revelar nossas esquisitices (Foto ilustrativa: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Eu queria começar este texto pedindo desculpas a todos aqueles que são exceções. Que um dia vocês virem a tão sonhada maioria. Todos os pais, irmãos, amigos, companheiros, chefes e colegas de trabalho. Incluo também os maridos, namorados, ficantes, rolos, lances, paqueras e romances. Preciso me desculpar com essa parcela do público masculino que nasceu com o dom de saber escutar. Ou que conseguiu adquirir, ao longo do convívio com as mulheres, essa generosa habilidade.

Agora quero pontuar que sempre me irritei com generalizações. Mulheres são de Marte, homens são de Vênus. Homens não sabem se expressar. Mulheres não entendem de cálculos. Elas não são boas na direção. Eles entendem de futebol. Elas de culinária. Mulheres não conseguem ser pontuais. Homens manjam de trabalhos mecânicos. Mulheres são melhores em decoração. Elas, sexo frágil. Eles não choram. Dividir testosterona e estrogênio em dois mundos que não se misturam de jeito nenhum me parece um pouco apocalíptico. Homem chora sim. E mulher sabe trocar pneu. Qual o problema?

Mas preciso dizer que tenho feito, mesmo sem querer, um estudo antropológico nos meios em que circulo. Seja com pai, irmão, colega ou em relacionamentos amorosos. Cara, por que os homens simplesmente não conseguem nos escutar ou não têm interesse em perguntar e, de fato, ouvir o que temos para falar sobre nós?

Vou tomar como meu primeiro exemplo esses aplicativos de paquera. Salvo uma rara exceção, desconheço um cidadão que tenha parado para escutar sobre minha vida. Nos encontros que fui, não consigo contar na primeira mão quantas vezes fui protagonista na conversa. Ou quando era, consigo lembrar, com riqueza de detalhes, como a atenção do indivíduo era desviada com tamanha facilidade. Era o garçom, o celular, a boyzinha que passava do lado, o jogo na televisão. Sem falar nas vezes em que ele lembrava de algo mais interessante que ele tinha para contar e fazia questão de me interromper.

Na família, a situação não é muito diferente. É o pai que não tem paciência para nossas falações, o irmão que acha que a gente fala demais. O filho que tem mais o que fazer do que escutar os lamentos da mãe. Talvez por isso nós preferimos estar entre as mulheres. Sabemos nos escutar no meio do barulho e da confusão.

Agora meu segundo exemplo. Um ex casinho adorava me alugar para falar dos problemas dele. Fazendo um retrospecto, eu poderia até ter cobrado por todas as consultas extras de terapia que meus ouvidos e olhos atentos foram para ele em momentos difíceis. Foram muitas as vezes em que parei tudo o que estava fazendo para escutá-lo. Seja para reclamar do trabalho ou para se queixar da família. Ou para dividir sua insatisfação com a vida, com o corpo, com o futuro. Gastei todo o meu latim com palavras de incentivo e textos de apoio. E, agora vocês podem me perguntar: que massa! Devia ser recíproco esse amparo, não é? Mas é óbvio que não.

Mesmo que eu usasse os dedos das mãos e dos pés, não ia dar conta da quantidade de vezes em que tentei me lamentar e fui solenemente ignorada. Dos momentos em que quis atenção e o ser humano me deixou falando sozinha. Das mensagens visualizadas sem uma resposta amável. Parece surreal, né? Pois é. E sabe o que é pior? Isso acontece direto conosco.

É difícil dizer, mas os homens, em tantos e tantos casos, não querem nos escutar. É maçante, tedioso, agoniante. Papo de mulherzinha, muita lorota e aporrinhação. Uma vez escutei que eu estava enchendo o saco, apenas por tentar demonstrar o meu lado da história. É como se eles não quisessem gastar o tempo para absorver o que temos a dizer, mesmo que por longos (?) cinco minutos. Mas, olha que engraçado: querem todo o tempo do mundo se tiraram o dia para desabafar.

Depois de muito tempo concordando com a teoria, passei a entender porque dizem por aí que as mulheres são complicadas. Que somos difíceis de entender. Envoltas em mistérios diversos que nos eleva quase a um patamar de criaturas místicas. É óbvio que não nos compreendem. Nos falta espaço para falar sobre nossas angústias, dividir nossos segredos, revelar nossas esquisitices. Tá complicado esse lado da fronteira.

Gostaria muito que compartilhassem conosco onde está essa parcela dos homens que não caminham pelo lado do egocentrismo. Que perguntam como estamos, que sabem escutar nossas paranoias sem se impacientar, que não nos interrompem no meio do raciocínio. E seria maravilhoso se esses caras sensacionais pudessem sensibilizar os companheiros de gênero. Será que é pedir muito?

Homens, precisamos que vocês não sufoquem nossas palavras. Não abafem nossos desejos. Não reprima nossos pedidos. Vocês precisam nos deixar falar. E que mundo fascinante seria se vocês, de fato, parassem para nos escutar.