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Quantos e se você tem guardado?

Imagem de homem em barco (Foto: Free Images)
Se você tivesse decidido fazer aquela viagem que sempre quis fazer? Se tivesse se desligado da rotina? (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Digamos que você tivesse uma chance de olhar pra trás e perceber tudo o que já foi feito. Pode pensar em tudo. Viagens, experiências profissionais, relacionamentos amorosos, amizades verdadeiras, companhias leais, escolhas difíceis, períodos turbulentos. Pensa mais. Vale lembrar de momentos triviais, risadas gostosas, pequenas e grandes conquistas ou a sensação de realizar um sonho. Agora, me diz: quantos e se você tem guardado?

E se você tivesse decidido fazer aquela viagem que você sempre quis fazer? Se tivesse desligado um pouquinho da rotina? E se você tivesse se arriscado em algo que nunca pensou em fazer? E se você tivesse dito tudo aquilo que queria ter dito para alguém que já amou? Não vale por carta, email ou mensagem. Tem que ser nos olhos mesmo. Para pra raciocinar. E se você tivesse agarrado a oportunidade de dizer o que já não faria mais sentido agora que estamos no depois?

E se você tivesse deixado de se importar com as brigas normais de uma amizade que vale a pena? E se não tivesse desistido de alguém que é importante por simples divergências? Essa pessoa continua em sua vida? E se você não tivesse sufocasse seus mais profundos desejos apenas para seguir o que os outros preferem fazer? E se optasse por levar a sério as escolhas mais custosas? E agora, o que você tem? Vive com dúvidas ou é cheio de certezas?

E se você tivesse aproveitado períodos penosos para se conhecer melhor? Se tivesse escolhido aceitar a dor e não apenas ignorá-la? E agora, quem você é? Realmente aprendeu? O que você tem? Quem entrou, quem saiu? O que restou? Se você tivesse tido menos pressa, como teria sido aquele encontro que você desmarcou tantas vezes? Você teria essa oportunidade novamente? Se lhe dessem mais um dia, como seria se você tivesse escolhido rir, mesmo que não tivesse achado tanta graça?

E se você tivesse parado para comemorar suas pequenas conquistas enquanto esperava pacientemente pelas grandes vitórias? Se tivesse ao menos vibrado com um relatório bem feito, uma prova excelente, um teste bem executado? Agora, você se sentiria meio vazio ou quase completo? E se escolhesse lutar por um sonho que até então parecia impalpável? Mesmo que você não pudesse tocar ou enxergá-lo, você teria escolhido acreditar? E hoje, o que você realmente abraça?

Pode dizer. Eu sei que essas são perguntas fáceis de responder. O difícil é que elas tocam bem fundo lá na alma. Por isso, envergonham e até causam embaraço. Mas pode dizer: quantos e se você tem carregado? Por ele ou por ela. Por tantos momentos, por vários anos. Por tantas dúvidas e várias incertezas. Essa questão mexe comigo, tenho certeza que vai mexer com você: quantos e se a gente insiste em esconder dentro do peito?

Só por hoje faça o caminho oposto

Imagem de caminho (Foto: Free Images)
Só por hoje procure outras saídas, busque outras trilhas e acredite que um dia vai dar certo (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Só por hoje faça o caminho oposto. Procure outras saídas, busque outras trilhas, abra novas portas, pule algumas janelas. Só por hoje, saia sem destino, não se preocupe tanto com a viagem de volta, não se importe apenas com a data em que termina suas férias. Só por hoje, encare o mundo de uma outra forma, saia do preto no branco, drible os tons de cinza, enxergue tudo colorido.

Só por hoje não escute besteiras, não fale algo que possa magoar o outro, não entre em discussões. Só por hoje pare e observe as flores, pegue uma folha que caiu no chão. Faça uma gentileza, abra o caminho, ligue a seta. Só por hoje, vista uma roupa diferente, saia do lugar comum, escute um brega. Cante no chuveiro, dance na frente do espelho, ria por uma besteira.

Só por hoje se permita sair da linha. Marque saídas em cima da hora, não queira saber de horários marcados, suma do mapa. Só por hoje, aprecie o som dos chuviscos na janela, corra na chuva, saia correndo atrás do seu guarda-chuva que foi arrastado com a ventania e tente parar simplesmente para olhar o céu! Nem que seja por um tempinho. Só por hoje, acredite que vai dar certo. Mesmo que ontem não tenha dado.

Só por hoje diga eu te amo para alguém que vale a pena. Dê um abraço apertado em alguém que precisa, faça um elogio, compre uma lembrança para quem é querido. Só por hoje deite numa rede e leia um bom livro, saia para caminhar sem ter que se preocupar com quantas calorias você vai gastar. Só por hoje dê um de seus sorrisos para um estranho que passa na rua, responda ao ‘bom dia’, pare na faixa mesmo que não tenha um sinal, respeite o assento preferencial.

Só por hoje dê o seu máximo, não pense em desistir, não deixe ninguém lhe atrapalhar. Fale sozinho, escute seus desejos, respeite seus sonhos, aceite suas limitações e passe para a próxima. Só por hoje se permita ser sensível. Só por hoje repita dez vezes: ‘eu posso’, não desanime e coloque sempre um sorriso na cara. Só por hoje, aprenda a dizer não, saiba como se afastar de quem só lhe faz mal, aceite que não há nada de errado em viver sozinho. Só por hoje não hesite em pedir ajuda, não se esquive se por acaso precisarem de você, não faça com o próximo o que não queria para si mesmo.

Só por hoje acredite no amor, tente alcançar as estrelas, curta as metáforas e não ligue para as opiniões alheias. Analise as segundas chances ou escolha se libertar de vez. Só por hoje agradeça o poder das lágrimas e acredite na força que brota dos nossos piores dias. Só por hoje!

Só por hoje, pare de se angustiar com o futuro, não procure respostas para perguntas difíceis, não questione o destino. Tente se aceitar como você é, destrua preconceitos, deixe de ser maldoso, pare para escutar o que o outro tem a dizer. Só por hoje não se ache melhor que ninguém, não imponha seus métodos, suas regras ou sua forma de enxergar a vida. Só por hoje, agradeça pelo que passou e espere como uma criança pelo presente que está por vir.

Só por hoje faça o caminho oposto. Só por hoje. Hoje. Hoje. Hoje e hoje. Até que se torne todos os dias.

Se me perguntarem sobre reencontros

Imagem de pássaros (Foto ilustrativa: Free Images)
Reencontros são necessários para nos fazer entender que perder uns aos outros serve para nos achar (Foto ilustrativa: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Se há um tempo me perguntassem qual o poder de um reencontro, eu não hesitaria em dizer que eles dizem muito mais sobre os outros do que sobre nós. Apostaria minhas fichas que essas trombadas recorrentes na vida mais servem como um espelho de quem fomos no passado e não um fiel reflexo de quem precisamos nos tornar para sobreviver ao presente.

Talvez naquela época eu não soubesse que reencontros dizem muito sobre o futuro. Sobre o que tivemos de fazer para continuar. Sobre como foi preciso muito esforço para mudar. Sobre como somos obrigados a esperar o tempo passar. Um tempo que machuca alguns, fortalece outros. E, quem diria, ensina muito a quem não soube fazer direito.

Se perguntassem algum tempo atrás, eu não imaginaria que alguns reencontros são necessários para nos fazer entender que perder uns aos outros também serve para nos achar. Que nos faz recordar que um dia foi necessário mudar caminhos e recalcular rotas. Alguns esbarrões que servem para nos mostrar que ontem tivemos medo. Hoje talvez já não tenhamos mais.

Muito provavelmente eu não fazia ideia que reencontros são a prova de que nada é melhor do que um dia após o outro. E mais outro. E outro. E outro. Para nos curar por dentro e preparar para o que vem por fora. Alguns reencontros que nos fazem perceber que as pessoas não mudam pelos outros. Somente por elas. E é nesse cruzamento de estradas que dá para perceber se a mudança veio para melhor. Ou para pior.

Reencontros, quem diria, me mostraram que não adianta se preparar. Não adianta contar dias, estabelecer prazos. Acontecem nos piores momentos, nos mais desajeitados períodos. Talvez um belo exemplo de que nada é por acaso. Principalmente as despedidas e mais ainda os desencontros.

Hoje, se me perguntarem, eu vou saber responder. A maioria dos reencontros dizem mais sobre nós do que sobre os outros. Sobre o que tivemos de abrir mão para continuar a caminhar. Sobre o que tivemos de deixar no meio do caminho para a trajetória não ser de pesar. E, se ainda assim insistirem sobre eles, pode deixar que eu vou acrescentar: alguns reencontros também dizem sobre os outros. No que diz respeito a quem passou e não retornou mais. E principalmente sobre quem voou longe e decidiu voltar para ficar.

Resiliência, para não desistir de nós

É ela, a resiliência, que nos faz florir mesmo nos períodos mais secos (Foto: Free Images)
É ela, a resiliência, que nos faz florir mesmo nos períodos mais secos (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Um ano atrás, descobri uma lesão na coluna que me impossibilitou de fazer tarefas no cotidiano que me proporcionavam muito prazer. Dormir causava incômodo, ficar em pé não adiantava e sentar era extremamente desconfortável. Apesar desse tripé desanimador, não havia contusão que me bloqueasse os movimentos ou que me impedisse de realizar o obrigatório do dia a dia. Quando questionava o médico, a resposta – apesar de vir em um tom terno e paternal de quem tenta consolar um filho – me assustava: entre cuidados paliativos, períodos de crise e momentos de tranquilidade, eu teria que aprender a conviver com aquilo.

Olha que engraçado. Entre todas as fases, desde a revolta até a resignação, a gente acaba descobrindo uma palavra de ordem essencial para não desistir jamais. Ela que, me acompanhou em inúmeras consultas na fisioterapia. Que me fez acordar cedo para enfrentar dores incompreensíveis de técnicas que eu, sinceramente, nunca tinha ouvido falar. Que me fez engolir todos os xingamentos matinais ao ter que suportar várias sessões de pilates. Que esteve junto ao me fazer resistir e repetir de um até dez cada posição. Sem parar, em todo e qualquer movimento. Sobe, desce. Estica a coluna, enrola a coluna. Alongue direito, fique ereta, engula o choro.

Uma companheira que me consolou por tantos momentos, ao me aninhar quando eu não conseguia dormir. Ao me lembrar a cada dez minutos que eu teria que escolher uma nova e definitiva forma de sentar. Ao voltar comigo mais cedo para casa quando a dor não me deixava continuar até mais tarde nos mais diversos lugares. E a estar comigo, contendo meus pulos de alegria, quando recebi a notícia ‘sim, você agora já pode voltar a treinar’. Foi ela, é ela e vai continuar sendo, a resiliência.

Sem explicações, sem tempo para grandes questionamentos e profundas reflexões, ela é uma companheira que não te dá espaço para lamentar. Está ali, em cada minutinho do seu dia, no passar das semanas, ao longo dos anos. Soprando baixinho no seu ouvido que não há tempo para se perguntar o porquê de certas coisas terem acontecido.

Foi ela, é ela e vai continuar sendo a resiliência que segura nossa mão nos momentos mais difíceis, que nos dá o entendimento necessário para compreender que o importante não é ser forte, é conseguir ser flexível. Ela, que nos faz aprender que não importa quanto a gente consegue consegue bater, ser resiliente é saber quanto você consegue apanhar (obrigada, Balboa).

É ela, que nos faz florir mesmo nos períodos mais secos. Que nos cerca de primavera para que esqueçamos as pedras que aparecem no meio do caminho. Que alivia os dias chuvosos com algumas boas ideias para não esquecer de seguir em frente. Que nos faz transformar as lágrimas em risada para, lá na frente, entender que enxergar o lado bom da vida é imprescindível para a alma. Ela, que nos dá paciência para suportar as intempéries do tempo, riscando no calendário os dias mais desgastantes. Resiliência, que nos acompanha mesmo quando não queremos companhia. Um colo nas horas da solidão. Um afago nos momentos de pressão. Uma palavra amiga quando tentam te colocar pra baixo. A decisão de ficar quando o que você quer mesmo é fugir.

Lá trás, escutei outros casos, absorvi experiências e agradeci todos os dias mesmo sem saber o porquê naquele período. Eis que foi ali, no meio de uma das maiores tempestades da minha vida, que descobri o essencial. Para muitos de nós, resiliência não é mais uma opção. Passa a ser necessidade e urgência. Para não desistir dos outros e, principalmente, de nós.

Tu te tornas responsável não só pelo que prega, mas também pelo que faz

Mais do que uma linda forma de ver o mundo, o Pequeno Príncipe é um apelo para que saibamos fazer direito (Foto: Reprodução)
Mais do que uma linda forma de ver o mundo, o Pequeno Príncipe é um apelo para que saibamos fazer direito (Foto: Reprodução)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Agora é oficial. Já podemos dizer que vivemos em uma era onde é mais do que comum encontrar por aí quem convive com a síndrome do Pequeno Príncipe. É flor pra cá, borboletas e larvas para lá, raposas que cativam de um lado, príncipes e princesas que cultivam do outro. Calma, não vou desvalorizar o clássico da infância de muitos que por aqui se encontram. Pelo contrário, acredito que a obra de Exupery, muito mais do que um clássico por si só, é uma verdadeira lição de vida.

Paremos para pensar direitinho. Quantas e quantas vezes já não vimos estampada nas biografias alheias a máxima ‘tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas’? Engraçado é que muitos não sabem nem ao menos a delícia que é criar laços e a agonia ainda maior que é estreitar relações. Fortalecer vínculos é complicado – demanda tempo e dedicação. É uma responsabilidade pesada, que muitas vezes exige paciência e resignação. E outras tantas vezes causa dor e necessita de extrema atenção. Cativar é muito mais do que ser responsável de longe, é estar presente e, de alguma forma, por perto.

Falar sobre O Pequeno Príncipe ou qualquer outra obra que nos dê chão para seguir lutando nessa batalha que é a vida é fácil, difícil é saber como executar aquilo em que dizemos tanto acreditar. Suportar duas ou três larvas é aceitável, sábio é apreciar de verdade o valor de conhecer as borboletas. Exclamar que é bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros é bom demais. Difícil é saber ficar calado quando você não tem nada de interessante ou importante a dizer.

Afirmar que só se vê bem com o coração é plausível. Complicado é entender de verdade – quando ninguém mais está lhe vendo falar sobre isso – o que é essencial e invisível aos olhos. Dizer que o mais importante é o tempo que dedicaste a tua rosa é muito bonito, de verdade. Mas nobre mesmo é realmente entender o que é dedicação. Defender que todas as pessoas grandes foram um dia crianças parece admirável, mas extraordinário mesmo é saber ser bondoso no dia-a-dia.

Se pararmos para observar, as frases do principezinho estão por aí – em todo lugar. Espalhadas em todos os cantos. Em cada esquina, um ensinamento. Em cada beco, uma reflexão. Cativar, cultivar, enxergar o que é invisível aos olhos, exigir do outro só o que ele pode dar e até o risco de chorar um pouco quando nos deixamos cativar. Mais do que uma linda e inocente forma de ver o mundo, é um gigante apelo para que saibamos não apenas escrever e divulgar suas frases mas também como por em prática cada um dos seus pensamentos.

Quando era criança, li o Pequeno Príncipe. Na época, aquelas frases não tinham muito sentido para mim, apesar de que eu sabia que algo havia tocado meu coração. Hoje entendo que é uma obra para os grandes. E ouso dizer: para os corajosos. Voltei a ler o livro em outras fases da minha vida e sigo pensando que ele me deu a maior lição que poderia me dar. Muito mais do que cativar, cultivar, chorar ou entender o valor de um amigo.

O maior e melhor aprendizado que a gente pode absorver. Suas crenças não dizem muito sobre você. Quem fala sobre sua personalidade é seu comportamento. Por isso, tu te tornas eternamente responsável não apenas pelo que prega, mas principalmente pelo que faz.