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Você já se colocou no lugar do outro hoje?

Um dia enquanto lavava os pratos e conversava com minha mãe sobre a vida, percebi que ela olhava concentrada para a janela da cozinha. De frente para vários outros edifícios, recheados de outras tantas famílias e com um monte de muitas histórias para contar. “Malu, você já parou para pensar no que acontece dentro destes outros inúmeros apartamentos? Quantas histórias bonitas, sofridas e diferentes para contar? O que estas pessoas fazem, estão felizes, tristes, satisfeitas com a vida que levam?”, mainha perguntou.

Depois deste dia acho até que passei a observar os edifícios de outro jeito. A cada janela com uma luz acesa lá dentro uma nova história passava pela minha cabeça. O que estas pessoas fazem? Levam vidas normais, já viveram tudo o que tinham para viver? Sentem dor? Sofrem de amor?

A pergunta da minha mãe, claro, foi mais uma metáfora para me dizer: se coloque no lugar dos outros. Entenda a dor de cada um. Respeite as vontades, as atitudes, as opiniões. Mesmo que não tenham nada a ver com o que você pensa a respeito DE. Não julgue, deixe a vida dos outros seguir em frente.

Analise a história de cada um como se fosse a sua própria história. Assim você se comoverá muito mais facilmente. Questione, intervenha, mas saiba a hora de apenas observar pela janela. De longe, sem se meter. Contemple, imagine o “e se eu estivesse no seu lugar?”.

Quando você olha as janelas, dá para enxergar as portas. Depois de observar bastante, abra algumas delas. E depois feche algumas. Só se elas já não te levarem a lugar algum.

Vamos falar de relacionamentos

No dia do meu aniversário, uma amiga postou nas redes sociais uma resposta para uma pergunta que eu havia feito a ela.

– “Pri, será que vamos continuar amigas até a gente ter uma família?”

– “Rapaz, não dá para prever o futuro, mas eu sei que se depender da gente, a resposta com certeza é sim. Somos simplesmente amigas! (…) Nossa amizade dura porque ela tem essência de amigo. Somos duas pessoas que adoram conversar, desabafar, rir, viajar e que se apoiam. Ser Malu e Pri! Apenas! Duas pessoas interessadas em serem felizes por opção.”

Priscila véia de guerra na esquerda
Priscila véia de guerra na esquerda

Aquela resposta foi como um abraço no meu coração. Um carinho que conforta. Uma certeza para muitas dúvidas. Um afago para estas questões difíceis que são as relações. Relacionamentos são difíceis porque são feitos de duas pessoas. Dois universos completamente diferentes. Se fosse fácil, era feito de um só.

São complicados porque exigem mudanças. Companheirismo, lealdade e muito – MUITO – amor ao próximo. Na maioria das vezes, o orgulho só destrói relações.

Ler a resposta da amiga foi como tirar 10 na prova de matemática. Ou pelo menos um 9,5. A certeza que você passou o ano quebrando a cabeça. Cheio de dúvidas. Mas com muitas certezas também. É saber que valeu a pena tanta noite mal dormida, tanta preocupação, tanto choro e tanto desgosto com os números.

Uma resposta perfeita para o não desprendimento. Por não desistir. Por respirar fundo e seguir lutando por relações que têm tudo para acabar, mas por isso mesmo têm tudo para seguir em frente. Por enxergar as qualidades e não apenas os defeitos. Por fazer as vezes de mãe, pai, irmão e não apenas mais um amigo. Por questionar atitudes e rever as suas. Por não deixar ir. Por insistir mesmo quando você não quer mais ficar.

A resposta da minha amiga foi, enfim, como ganhar um presente após muito esforço. Você nunca enjoa dele. É o seu prêmio por ter se empenhado em não cometer erros. É a certeza de que você vale tanto carinho. Sabe por quê? Porque você fez por merecer.

Não se afaste de si mesmo

Eu tranquila comendo meu sanduíche esperando para minha sessão de terapia. Tenho que confessar: estava escutando a conversa de um homem e uma mulher ao meu lado. Eles falavam sobre as novas tecnologias e a sociedade contemporânea. Em pensamento, eu concordava com tudo que eles falavam – mas sem muita emoção. Até que a mulher respondeu a uma colocação do rapaz com um: “A tendência hoje é você se afastar de si mesmo”.

Quase engasguei com o sanduíche (mentira!). Como aquela frase, vinda de uma completa desconhecida, poderia me atingir tanto? Claro, é porque ninguém nunca tinha conseguido explicar tão bem o que acontece ao meu redor e até comigo!

Quando eu era mais nova, me disseram que eu devia parar de ser tão engraçada. Que eu devia ser mais séria, mais madura. Leia-se: mais igual às outras meninas da minha idade. Passei uma semana igual a todas. Aquilo me incomodava muito, mas eu não sabia o porquê. Até que uma amiga perguntou: “Por que você está tão diferente? Não é a Malu de sempre!”. Eu respondi amuada: “Estou sendo como me pediram pra ser”. Ela – que, inocentemente, havia incentivado minha mudança – respondeu: “Não, volta a ser quem você era! Não tem graça assim do jeito que você está”.

Paremos pra pensar: fazemos o que queremos ou o que os outros acham que é certo fazer? Somos o que somos ou o que os outros esperam que sejamos? Dizemos o que queremos dizer porque temos vontade de dizer ou porque seguimos uma linha lógica de raciocínio elaborado por outras pessoas?

Vamos para as festas que todos vão. Vestimos as roupas que todos vestem. Dizemos as gírias que todos dizem. Rimos das mesmas piadas que todos riem. Vamos fazendo tudo o que os outros querem e quando vemos já não somos nem um pouco do que fomos um dia.

Não falo de opiniões e pensamentos. Eles mudam e nós mesmos mudamos com o tempo. Falo de essência. De personalidade e, principalmente, de caráter. Daquilo que somos quando ninguém está vendo. Ou daquilo que somos na frente de quem gosta da gente do jeito que somos. Venho perdendo pessoas maravilhosas porque elas se perderam na pressão enorme de precisar ser aquilo que o mundo quer que elas sejam.

Naquele dia eu me afastei de mim. Foi horrível. Desde então, prefiro lidar com quem sou. Aceitar minhas fraquezas, meus medos e – por que não? – minhas loucuras. Como já li certa vez: as pessoas que não gostam de mim não vão aceitar minhas justificativas. E aquelas que gostam não precisam de explicação.

Se aceite. Aceite os outros. E leve consigo só o que não lhe afasta de si mesmo.

O amor não acaba, multiplica

Amor
Amor é tão verbo que deixa de ser substantivo. Amor não tem cara, só sentimento. Seja por quem for

Passei na frente de um motel dia desses (oê!) e vi que estava riscada no muro a frase ACABOU O AMOR. Parei pra pensar: como assim o amor acabou? Não é possível! Impossível acabar o amor. O amor só começa. Nunca termina. Eu posso amar de perto. Amar de longe. Amar escondido. Amar para todo mundo ver. Amar de menos. Amar demais.

Vejam bem. Amor é um abraço apertado. Amor é um bom dia que conforta. Uma ligação despretensiosa. Amor é transbordar de saudade. É defender, mas também puxão de orelha. Amor é caminhar junto, de mãos dadas. Amor é alcançar sonhos, agarrar conquistas – sejam elas pessoais ou coletivas.

Amor é adotar um bichinho. É cuidar bem dele. É não saber cuidar, mas olhar de longe. Amor é dizer tudo o que você tem a dizer. Não ficar em cima do muro. Amor é conversar com Deus. É plantar uma árvore, escrever um livro, brincar na chuva. Amor é fazer filho e cuidar deles.

Amor é acreditar que hoje não era pra ser. Mas amanhã será. Amor é não desistir de nós. Isso também é amor: se chama o amor próprio. Amor é uma viagem improvisada. Amor é compartilhar segredos e guardá-los também.

Amor é escrever uma carta cheia de carinho. E mandar para quem você gosta. Pode ser email também. Ou um recadinho no WhatsApp. Amor é chegar em casa e encontrar o jantar pronto – feito por alguém que também te ama.

Amor é mudar os outros e se deixar mudar um pouquinho também. Amor é correr atrás dos nossos erros. Repará-los. E fazer de tudo para não errar de novo. Amor é ter a certeza que você está fazendo algo para mudar o mundo, mas principalmente a si mesmo.

Acho que não sei amar certo, mas todo dia tento amar melhor. Até porque amor é tanta coisa. Ele não acaba, só multiplica.

Sobre lutar com sentimentos mas ser firme nas decisões

Caminhos
Caminhos sempre me deixaram em dúvida, mas aprendi a tomar decisões e ser firme nelas

Dia desses me vi falando uma frase que até hoje tenho certo medo da intensidade de tantos sentimentos contidos em um só período. “Eu tenho que seguir em frente. Porque eu não tenho opção. E quando eu não tiver mais forças, fazer o que? Ter fé em Deus”, disse a uma amiga.

Tive medo da minha frase porque tenho dificuldade em tomar decisões. Libriana que sou me vejo sempre cheia de dúvidas. Faço isso ou aquilo? Vou para este canto ou para aquele? Que roupa uso hoje? Falo ou não o que sinto para quem amo? Aceito ou não aquela proposta? Faço esta ou aquela viagem? Fico em casa ou saio? E se eu sair e for horrível? Mas e se eu ficar em casa e for pior ainda?

Essas indecisões são tão comuns em minha vida que me acostumei a delegar as soluções para outras pessoas só para evitar a fadiga. Ou para aliviar um pouco a carga do arrependimento depois da decisão tomada.

Por isso luto muito com os meus sentimentos. Sou volátil demais. Hoje sinto, amanhã não sinto mais. E volto a sentir um instante depois. Volto atrás em decisões tomadas. Me arrependo de ter voltado atrás. E me arrependo de não ter voltado também. Não consigo lidar com a dúvida. E também não consigo abstrair. Demoro dias para digerir acontecimentos.

Mas, finalmente me decidi. Continuo lutando com os sentimentos, mas estou sendo firme nas minhas decisões. Cansei de fracas amizades, amores rasos, pessoas baratas. Cansei de voltar atrás por achar que desta vez vai ser diferente. Cansei de acreditar em pessoas que, sinceramente, não acreditam nelas mesmas. E por não acreditar nelas mesmas, elas não acreditam em nós também. Esta culpa eu não vou carregar.

Cansei de dar sempre mais uma chance. De escutar lamentos de pessoas que voltam a fazer sempre a mesma coisa. Cansei de ajudar quem não quer ajuda. Esgotei a paciência. Não volto mais atrás em caminhos sem saída.

Então… A confiança foi embora. A esperança também. A admiração igualmente. Mas o amor, o amor continua. Disso, graças a Deus, não tenho dúvidas.