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Ai de nós se não fossem os recomeços

Só mais um dia comum. Cheguei em casa, tomei um banho demorado, troquei de roupa, acendi um incenso, desforrei a cama, ajeitei várias almofadas debaixo da cabeça e abri mais um livro. De repente pensei: “felicidade é isso”. Suspirei ironicamente, já que naquele momento eu nem tinha tantos motivos assim para sair espalhando a felicidade pelo mundo. Mas eu tinha dentro de mim uma espécie de calma que em muitos momentos não consegui sentir. Era o prazer de estar só, comigo, e por isso mesmo em ótima companhia. Sem ruídos, sem conflitos, sem precisar me adequar. Era tudo o que eu queria: não me moldar a nada nem ninguém.

IMG_0581Ali curti uma solidão que não me foi imposta e sim conquistada para momentos que precisava, e muito, estar sozinha. Ali pensei que estar só quando você pode estar na companhia de tanta gente é uma sorte incrível. Para se reinventar, para contemplar a vida, para uma auto-análise sem julgamentos, para fazer duras críticas e no final da noite ter alguém em quem se amparar: você mesmo. E no começo do dia, você já conseguiu elaborar uma série de recomeços. Daqueles que, assim como o prazer da própria companhia, nos proporcionam uma felicidade contida que sussurra nos nossos ouvidos: não tem medo, não. Você não está só.

Assim como não tenho medo de estar sozinha, podendo estar no meio de tanta gente querida, não tenho medo de recomeços. Na verdade, alguns deles até me fascinam. Fico maquinando mil formas de me superar. De vencer meus medos, de acabar com meus receios, de encontrar sempre motivos para rir daquilo que me fez sofrer. Gosto de ver que fiz malabarismo com a dor e não deixei a peteca cair. Vai, risca mais um dia no calendário e busca pequenos motivos para sorrir. Isso é recomeçar.

Ai de nós se não fossem esses pequenos grandes recomeços. Daqueles que nos reconstroem, daqueles que nos fazem revirar na cama milhares de vezes no meio da noite até a noite virar dia. Essas pequenas grandes conquistas que nos fazem ver o quão fortes nós somos mesmo no meio das maiores crises existenciais antes mesmo de chegar na casa dos 30. Essas grandes pequenas batalhas que cansam, fustigam, detonam, mas são elas que nos fazem deitar a cabeça no travesseiro e voltar a pensar: “felicidade é isso”. Aquelas pequenas grandes dores que deixam nosso coração apertado e mesmo assim a gente se convence e diz: “aprendizado é isso”, mesmo que naquela hora nossa deusa interior se remexa convulsivamente e grite desesperadamente: “a gente não precisava passar por isso para saber o quão importante algo é em nossas vidas”.

Não entender e mesmo assim seguir em frente. É não aceitar e mesmo assim seguir aceitando. É cair e levantar, mesmo que tropece logo em seguida. É sentir doer e mesmo assim continuar sorrindo. É adorar cada transformação que você precisou passar nessas caminhadas bandidas que são os recomeços. É olhar para trás e não sentir falta de nada que ficou no passado. Vai, respira fundo. Um, dois, três. Três, dois, um. Recomeço é tudo, tudo isso.

Quando descobri algumas inspirações

Criança ou já batendo os 30, a gente sempre tem um ídolo. Não importa se é a mãe, o pai, aquela estrela da TV ou um vizinho. Eu, por exemplo, era vidrada em Sharon Stone. Queria ser loira, ter o QI lá em cima e ter um belo par de pernas. Hoje já não sou mais tão loira, meu QI deve estar bem na média e ainda estou a procura do meu belo par de pernas. Eu queria ser que nem ela, me inspirava, pintava o cabelo, fazia dietas, fazia cartinhas e esperava respostas, tentava ler de tudo um pouco e imaginava o momento em que eu conseguiria tirar uma foto com ela. Na época, eu jurava de pé junto que pularia no pescoço dela. Hoje, acho que ficaria totalmente paralisada. Acontece. A idade chega e a vergonha também.

Acho que estou ficando velha mesmo. Descobri que sou uma das inspirações de alguém. Morri mil vezes. Meu sobrinho de 11 anos chegou uma vez para mim e me pediu umas aulas de como ser descolada. É, tia, como eu faço para ser que nem a senhora? Descolada, com a autoestima lá em cima? E ainda me disse: quando eu crescer, quero ter esse seu jeito, sempre pra cima e fazendo piada. Não acreditei! Como pode um menino com metade da minha idade notar características minhas que eu nunca tinha realmente levado em conta? Outro dia ele me pegou chorando, preocupada com a vida. Ficou angustiado. Me deu um abraço e disse: poxa, tia, não fica assim não! Essa não é a tia que eu conheço. Meu Deus! Como podia aquele bebê – eu não sou mais um bebê, tia! – me dar uma lição de vida?

Parei pra pensar. Por que deixar que me inundassem com pensamentos negativos, vibrações para lá de pesadas, tirando assim tudo aquilo que meu sobrinho mais gostava em mim? Tive vergonha de não conseguir corresponder às expectativas dele naquele momento. Muita vergonha. Queria me esconder debaixo do travesseiro. Era como descobrir que meus pais não eram tão fortes como eu imaginava que fossem. Queria colocar as lágrimas pra dentro e botar meu melhor sorriso. Eu era tudo que ele admirava. E, isso, pensando bem racionalmente, já me bastava! Para que então me importar com o que acontecia lá fora?

Hoje já não tenho mais ídolos (mentira, ainda quero MUITO conhecer Sharon Stone. Alguém me seguraaaaaaaaaaaaaa!!), mas sim grandes inspirações. Aquele jeito sonhador de um amigo. A bondade de outro. A força de vontade de um, a persistência do outro. Todo dia aqueles que importam vão nos fazendo enxergar quem somos de verdade. Parece besteira, não é? Mas quando a rotina aperta e você não sabe como agir diante de algumas situações são as inspirações que nos movem. Para que a gente não desista, não se canse e não corra atrás do que não tem nada a ver com nossas escolhas. Andavam me roubando de mim. Hoje eu corro: mas é para que não me roubem mais. 🙂

Coisa boa isso que se chama amigo

Coisa boa isso que se chama amizade. É essa mania de querer estar perto quando se está longe. E ficar com raiva porque quando está perto sempre rola uma discussão para querer se estar longe de novo. Ou aquele ciúme sem sentido porque seu amigo arranjou um novo amigo. Vai, pode ir com esse novo amigo. Esquece a nossa amizade de tantos anos e se mistura aí com essa galera. E depois esquecer toda a implicância porque os seus serão sempre seus sem precisar ser de forma alguma. Ou rir secretamente quando aqueles novos amigos, RÁ!, não sabem nada do seu amigo. Toma essa, pai.

Coisa boa isso de poder ser exatamente quem você é ao lado de um amigo. Mesmo que ele ria da sua cara. Porque ele sempre vai rir. Mas nunca vai deixar alguém rir de você. Com você ninguém mexe. Mesmo que ele queime seu filme e te faça passar a maior vergonha na frente daquele boyzinho que você dá mole. Mas se a pessoa te magoa, a amiga é a primeira a dar uma rasteira quando encontra o boyzinho no meio da rua. Ou dizer: pelo amor de Deus, você é bem melhor que isso! Mesmo que naquela hora você se sinta a pior de todas no universo e além.

FullSizeRenderAmiga que é amiga toma as dores. E toma abuso também. Amiga que é amiga sabe exatamente quando você está exagerando e olha para você com aquela cara de PARA COM ISSO. Vai, limpa essa cara que você está horrível. Amiga que é amiga faz planos para os casamentos. Vamos casar juntas, madrinhas uma da outra e nossos filhos vão ser best friends desde aquela época de comer areia. Vão sim, e ai deles se não rolar uma empatia. Vai ser forçada mesmo. Amiga que é amiga planeja a velhice junta – pode até ser que não cheguemos lá para contar história ou que role uma discussão homérica antes disso e juremos nunca mais trocar a palavra com essa cidadã fuleira – mas essa cumplicidade é um laço que não desata.

Amiga que é amiga enxuga as lágrimas e faz a gente rir mesmo nos piores momentos. Levanta sua bola quando você está na pior. Nossa, muito ruim mesmo, mas como seu cabelo está lindo! Amiga que é amiga te liga na madruga boladona só para ser a primeira a desejar parabéns. Ou manda você enfiar o dedo no bolo e fazer muitos pedidos – de preferência pedindo para que você peça a Deus que os desejos dela se realizem também.

Amiga que é amiga empresta a roupa nova, mesmo que tenha o maior ciúme dela. Amiga que é amiga não diz que você está bonita quando você está horrorosa. Amiga, essa roupa fica até ~boa~ em você mas essa te deixa muito mais zenzual! Amigo que é amigo engole o orgulho e volta a falar quando o outro precisa. Dá uma chacoalhada na frente de todo mundo quando a gente está passando dos limites. E até segura o cabelo quando a gente está chamando Raul. Amigo que é amigo sabe o nome da mãe, do pai, do cachorro, periquito e papagaio. E te leva no hospital quando ninguém mais pode.

Amigo que é amigo assiste o outro levar esculhambação da mãe e prende o riso. Isso mesmo, tia, a senhora está certíssima! Mas, às vezes, o amigo é tão amigo que também entra na esculhambação e leva sermão junto. Amigo que é amigo chega na sua casa e às vezes passa mais tempo conversando com o resto do povo do que com o chegado. Amigo que é amigo fica para o café, para o almoço e até estica para um filminho. Amigo de verdade adora chegar na casa do outro porque sempre rola uma refeição especial para receber a visita. Mesmo que ele já seja de casa.

Coisa boa isso de ter amigos. É um dar e receber. É amor que não pede nada em troca. É o abraço quando a gente mais precisa e o carinho quando a gente mais necessita. Dia desses uma amiga me disse que a gente sempre acaba machucando quem a gente mais ama. E que eu não podia ajudar todo o mundo. Ela ainda disse mais: que a gente não podia salvar os outros. Podia apenas amá-los. Eu, que sempre tenho tantas coisas a dizer, fiquei sem palavras. É verdade. Eu, que tantas e tantas vezes machuquei quem amava. Eu, que em vários momentos não consegui deixar por perto aqueles que eu mais amava, não podia salvar os outros. Pelo contrário, precisava ser salva. Mas, que sorte!, venho sendo resgatada por longos e bons anos. Coisa boa isso de ter os braços de muitos para correr ao encontro quando não se tem mais lugar nenhum para ir. 

Pela vontade de abraçar as lembranças

Sou péssima com a memória recente. Posso contar mil vezes a mesma história para a mesma pessoa em um intervalo de tempo curtíssimo. Ou esquecer onde estacionei o carro. Ter que voltar para certo lugar e tentar lembrar o que quero fazer ou o que ia falar. Já pulei três vezes em variados momentos, rezando insistentemente para que São Longuinho me ajudasse a achar o que tinha perdido. E até já amarrei um laço no cabo da escova para encontrar o que eu queria. Mas sou ótima com lembranças… Elas são parte de mim, parte de quem sou, parte de quem fui e de quem quero ser.

Lembranças constroem o que somos na essência. Todo dia. Vez ou outra a gente se pega revivendo alguns momentos. Isso é bom porque nos faz sentir humanos. Quando a saudade aperta, relê alguns trechos de diários, folheia cartas trocadas, tira um tempo para mergulhar em álbuns de fotos antigas. Passa um tempo olhando para o nada e lembrando de tudo. Depois volta a viver. Adoro memórias – sou cheia delas. E gosto de estar com quem me faz viver e reviver cada retalho do que me fortalece diariamente.

Saudades fatias douradas <3
Saudades fatias douradas <3

Lembro de quando minha mãe fazia fatias douradas e me deixava esperando doida. Quando vejo essa delícia, me lembro da infância, daquela inocência e da felicidade conquistada com pequenas coisas. Na ansiedade ingênua de quem não ligava muito para o que iria acontecer amanhã, mas contava aflita os minutos para viver momentos triviais. Reviver essa saudade é um alívio depois de um dia pesado. Ou quando minha mãe saia para trabalhar e a saudade apertava. Aí eu me abraçava com as roupas que ela deixava. Aquele cheiro de perfume misturado com incenso me trazia o conforto de que ela não ia demorar para voltar. Então eu ficava ali, agarradinha com a trouxa de roupa até a ausência diminuir, mesmo que fosse por alguns instantes. Uma lembrança que aperta, mas que traz a paz de alguns portos seguros que tenho nessa vida.

Ou quando eu queria muito uma coisa. Me escondia debaixo da cama e rezava incontáveis vezes. Aquela lembrança que reforça a Fé. Ou quando vi a neve (*o*) pela primeira vez. É como poder pegar o arco-íris: daquelas lembranças que você não consegue descrever. Você até tenta explicar, ensaia umas palavras, um suspiro aqui, outro ali e depois solta um deixa para lá. 

Na correria dessa vida que massacra, alguns perdem a capacidade de reviver e comemorar lembranças. Vamos perdendo a vontade de realmente enxergar a vida, o que nos rodeia, o que de fato emociona. Procure quem vibra com os detalhes e sabe abraçar o passado, relembrar suas histórias e aprender com elas.

Vai, você gosta de enxergar com vários outros olhares o que já passou ou tenta não voltar as páginas? Já sentiu diferente o que tantas outras vezes já sentiu ou prefere nunca lembrar de quem já foi só porque já não tem mais tanta importância nessa correria? Você acorda todos os dias e já não se lembra de muito o que viveu e que pode te ajudar a viver o que vem por aí? Você vive a vida nos detalhes que construímos dia após dia ou nem sente a diferença daquele que você foi ontem e está sendo hoje?

Será que você já reviveu alguma lembrança importante hoje? Ou anda vivendo no automático…? Vai, não esquece, abrace suas lembranças. Deixa elas ficarem um pouquinho, para ensinar que a vida é muito mais do que isso. 

A presença de Deus em todos os lugares

Um dia me disseram que Deus está não apenas nas coisas mais bonitas, mas também nos detalhes. Aqueles que tantas e tantas vezes passam desapercebidos. Então eu fazia o jogo do Ele pode estar em qualquer lugar. Ele estava no barulho da chuva que escorre pela janela, no pôr do sol de uma tarde feliz, na brisa que chega de repente e bate no rosto. No céu estrelado em uma noite de muitas descobertas. No abraço que tanto diz entre amigos que se amam. No meio de um sorriso sincero daqueles que só convivem com a tristeza.

Paisagem-Malu
Acreditar em Deus é enxergar sua Beleza e confiar na sua presença em todos os lugares

Eu via que Ele sempre estava naquele que ajuda o próximo. Naqueles que não têm nada em especial para mudar o nosso dia e mesmo assim acabam mudando. Nos que respeitam as diferenças. Naqueles que sabem amar, nos que não poupam esforços para seguir em um mundo melhor. Jogar o jogo do Deus está em todo lugar me fez acreditar que a vida é a energia que damos a ela.

Que Sua presença está em toda esquina e em muitos cantos. Nos sinais que precisamos todos os dias para seguir em frente. Descobri que Ele se faz necessário em todos os momentos. Na oração do fim da noite, nas lágrimas reparadoras. No amor que transforma. Ao acordar e perceber que temos muito para lamentar, mas tantas coisas para festejar. Em todos os recomeços e segundas chances. No tempo que passa e cura todas as feridas e naquela vontade inacreditável de dar mais um passo e acreditar em um amanhã melhor.

E assim segui todos os dias acreditando no Deus que é amor. De repente, tudo e muito pouco passa a fazer sentido. Aquela música que toca naquele dia em que você precisa escutar um pouco de poesia. Uma mensagem de alguém querido naquele momento que você mais precisa. Aquele céu bonito de se ver, gostoso de admirar e que só nos dá ainda mais a certeza que alguém olha por nós lá em cima. Um alguém que aceita toda cor, todo tipo de amor e qualquer crença.

Um dia me falaram que se eu rezasse muito as coisas aconteceriam. Não no meu tempo. Mas no tempo dEle. E que se eu acreditasse no poder dos meus sonhos, eles se tornariam realidade. Que se eu pisasse um passo de cada vez, minha caminhada seria muito mais segura. A seguir sempre acreditando que Ele está ao nosso lado. Mesmo que não o vejamos. Isso se chama Fé. E, veja: não tem nada de errado ou exagerado nisso. Cada pequena lição que você aprende a cada dia é aprender todo instante que ser sensível a Ele é acreditar na vida.