Nos intervalos de tranquilidade e estranhamento que deixamos de dizer as palavras mais importantes (Foto: Free Images)
Nos intervalos de tranquilidade e estranhamento que deixamos de dizer as palavras mais importantes (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Há alguns anos, em uma época rebelde, você encontrou certa dificuldade em me fazer obedecer as regras. Sem alternativas, decidiu apostar em uma lição peculiar. Me mandou uma carta. Eu, que nunca havia recebido uma, fiquei empolgada com a notícia de que uma correspondência (até então de remetente desconhecido) esperava por mim na caixa dos Correios. Desci as escadas, ansiosa por rasgar o envelope e saber o que me aguardava. Era você, sua danada.

Na carta, um texto sobre a importância de amar as pessoas sem que para isso tenhamos que perdê-las. Você com certeza deve se lembrar. Eu não me recordo o que se sucedeu com o passar dos dias, mas acredito que fiquei meio chocada com aquela mensagem, apesar de, naquela época, não entender bem a complexidade dos nossos sentimentos em relação àqueles que mais amamos.

Logo a rotina nos engoliu, é verdade. Os anos passaram e, ao passo que várias situações nos aproximaram, um bocado de períodos conflitantes também nos afastaram. Antes eu não acreditava, mas venho percebendo que foram, e continuam sendo, esses intervalos – entre sutil tranquilidade e estranhamento pesado – que deixamos de dizer as palavras mais importantes. E hesitamos em realizar os gestos mais significativos para pessoas como você, que estão por perto quando ninguém mais está ao nosso lado.

Talvez eu tenha esquecido de te agradecer por ter mandado aquela carta, exatamente naquele dia. Me ensinou, anos depois, a não ter vergonha dos nossos sentimentos mais puros. Ou, quem sabe, esqueci de mencionar que ter me deixado de castigo em momentos especiais da minha juventude foi importante demais. Me fez valorizar a necessidade de pensar muito bem antes de fazer besteiras.

Provavelmente eu esqueci de te parabenizar por todas as vezes que não me deu o que eu queria no momento em que eu pedia. Tanto sacrifício, tantas metas, tantos puxões de orelha, tantos obstáculos. Me fez entender o que eu realmente necessito e o que eu, de verdade, quero. Sei também que não te agradeci quando você foi a única a entender os exatos momentos em que meu coração foi partido. Com raiva ou magoada, esbravejei contra seus duros conselhos que me faziam encarar a realidade. Mas, mesmo assim, você continuava lá. Obrigada por isso. Não só por isso, mas por tudo mais.

Mãe, eu nunca parei para lhe dizer o quão importante foi todas as noites que você esteve comigo quando eu não conseguia dormir. Todas as festas que você organizou para me ver feliz. Todas as vezes em que ganhei um cafuné seu, um abraço, um mimo, um pedaço do seu tempo. E provavelmente também não me desculpei quando fui rude, quando esqueci de ligar ao chegar em casa depois da balada, quando coloquei suas ordens por último na minha lista de prioridades.

Há tantos e tantos motivos para eu te retribuir. Por ter sido uma mãe má, que me pregava peças para que eu aprendesse a me comportar, que me proibia de sair para os lugares da moda. Por ter me ensinado a ter fé e entender que nossa alma é o verdadeiro templo e também por ter me ensinado que sonhar não custa nada.

Talvez eu nunca tenha te falado isso, mas eu queria te agradecer por tudo isso e mais um pouco. Por ter a resposta para todas as minhas perguntas, por não desistir de mim, por me empurrar de encontro aos meus sonhos, por ter me defendido quando ninguém me defendeu, por ter me ensinado o que é ser forte quando não tenho mais forças e por ter conseguido evitar tantos sofrimentos que eu, por ventura, pudesse ter que enfrentar.

Mãe, essa minha carta é para você. Escrevi para dizer que eu tenho muito a te agradecer. Por tanto e por tão pouco. Mas, principalmente, por você ser meu porto seguro onde quer que esteja. O único lugar do mundo que é acalento, certeza, amor. Aquele cantinho particular que estará sempre florido, pronto para me receber quando eu quiser voltar.

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