Tem gente que é assim: passa por cima dos nossos sentimentos como se fosse um trator (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Há um bom tempo queria tocar neste assunto aqui na coluna. Semana entrava, semana saia, eu sempre colocava o tema em segundo plano, afinal, falar de amores e corações partidos me parece muito mais urgente. Até que uma série de desentendimentos familiares, com muita confusão e gritaria, típicas da tradicional família brasileira, me fizeram crer que precisamos urgentemente falar delas. Sim, elas mesmo. As pessoas-trator.

Na maioria das vezes, são pessoas sensacionais. Nada contra. Muitas são até prestativas, atenciosas, companheiras e gentis. Mas a bronca, meu amigo, é quando você se mete num atrito com elas. Sai de baixo. Corra enquanto é tempo. Porque aí é que entra o modo trator. Cara, é impressionante. Elas vêm se multiplicando mais do que gente chata. Gostaria muito de saber o que exatamente ativa esta função de suas personalidades, para então passar o mais longe delas possível quando estiver em um dia difícil.

Vamos explicar como elas funcionam na prática. Certa vez um casinho, após me esculhambar de todas as formas durante uma discussão, veio falar comigo naturalmente no outro dia. Assim mesmo, como se nada tivesse acontecido. Eu, sinceramente, não sei o que elas tomam para esquecer tão facilmente os conflitos passados. Isso é: se não forem elas a parte magoada. Naquele momento, não acreditei que tal fato estava acontecendo. Bateu a cabeça e perdeu a memória recente, pensei.

Respirei calmamente e devo ter respondido que não entendia como ele podia dar uma rasteira em alguém e esperar que a pessoa não sentisse a dor do tombo. Eis que outra confusão, geralmente, começa. Atenção! As pessoas-trator não conseguem entender de jeito nenhum que os outros têm direito de ficar chateados e, sendo assim, precisam de um tempo para processar a dor. Na maioria das vezes, não conseguem lidar com o fato de que é preciso, sim, discutir a relação após as divergências – principalmente se alguns desaforos foram ditos e farpas foram trocadas. Aparar as arestas, é o que costumo dizer.

Essas pessoas, em muitos casos, estão na nossa própria família, por isso termina sendo difícil se desvincular delas. Pode ser um pai autoritário, uma mãe arbitrária, um irmão arrogante. Geralmente, são indivíduos com dificuldade de entender que as relações, por mais hierárquicas que sejam, precisam de diálogo constante. Mas é preciso ser firme. Não há nada nem ninguém no mundo que te impeça de ter o seu lugar de fala, principalmente se você se sentir magoado. Por para fora faz bem e, na grande parte das situações, tem o poder de matar os nossos fantasmas.

Depois de muito engolir sapos em casa, tendo que aceitar que, por muitas vezes, iriam me magoar no meu próprio convívio familiar e eu não teria a oportunidade de dizer: “ei, peraí! vamos conversar”, entendi que tem gente que é assim mesmo. Passa por cima dos nossos sentimentos como se fossem um trator. Tem uns que ainda fazem pior: engatam a marcha-ré e passam por cima de novo, só para ter certeza que deixaram nosso coração em inúmeros pedacinhos.

Desculpa aí qualquer coisa

Tem alguns que, além do mega turbo trator, ainda investem no tal do ‘desculpa aí qualquer coisa’. Vixe! Toda vez que escuto essa frase me dá uma dor aguda no coração. Tomara que não seja infarto. Funciona mais ou menos assim, vejam bem se estou certa: não satisfeitos em passar por cima da gente com o trator e depois ainda engatar a marcha-ré, eles costumam parar no local do acidente, geralmente ainda em cima de nós, e falar naturalmente, lá do alto da cabine: olha, foi mau aí se te machuquei. Mas o que passou, passou, né, verdade? Vida que segue! E o coitado do esmagado fica lá com aquela cara de: que p@rra é esta que está acontecendo aqui?

Eu tenho especialização em ser esmagada por pessoas-trator. E, mesmo correndo do atropelamento quando eles sinalizam que estão por vir lá no começo da rua, ainda costumo ser pega de surpresa de vez em quando. Pense na dor. É como se tivessem me dado um soco no estômago e logo depois me pedem para encher uns dez balões. Falta o ar.

Sinceramente não sei se existe uma fórmula mágica que nos impeça de ser sugados para as profundezas do trator que atropela sentimentos. Venho aprendendo, no entanto, que não é apenas minha função cuidar dos machucados. Claro que algumas pessoas-trator ainda continuam nos atropelando e fogem do local sem prestar ajuda. Mas aquelas que ficam, aaaaah, aquelas que ficam. Pode ter certeza: venho pedindo, sem vergonha alguma, algum tipo de ajuda para comprar os remédios quem pode ajudar a sarar as feridas.