O que acontece com nossos silêncios quando deixamos de falar o que deve ser dito? Vira medo em se abrir com o próximo? (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

​Um ex-casinho adorava me dizer que nós precisamos falar o que está engasgado na garganta (ou escrever o que está coçando na ponta do dedos). Que relacionamento saudável era aquele no qual nos sentimos à vontade em dizer tudo o que pensamos. Uma amiga sempre dizia que uma boa relação tinha que ser às claras, com tudo esclarecido para que assim não houvesse qualquer mal entendido. Posso até mudar de cenário, contracenar com outros personagens, perceber algumas alterações nos discursos, mas, no final, é comum ter que lidar com a mesma roupagem. Tenho percebido que, em muitos casos, as pessoas não estão interessadas em nos ajudar a esvaziar o peito das sensações que nos sufocam. Não parecem se importar em ser protagonistas no ato de aliviar o nosso ser ao prestar atenção no que temos a dizer.

​É um tema recorrente, eu sei. Mas como não falar de um movimento sistemático, onde uns estão deixando de ouvir e os outros, por conseguinte, estão desistindo de desabafar? E agora me diga você, como já questionou Mafalda em outros tempos: para onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos? Sim, me diga você. Vira úlcera? Se transforma numa tremenda gastrite nervosa? No fim do dia, causa uma dor de cabeça desgraçada?

Sim, isso mesmo, me diga você: para onde vão nossos silêncios quando vão nos emudecendo e calando nossas intenções ? Vira desconfiança em se abrir com o próximo? Se torna uma falta de ar ao acordar? Uma azia sem explicação? Ou quem sabe aquele refluxo que já não te deixa mais dormir? Uma tremedeira nas mãos ao ter que enfrentar certas situações? Isso, pode me dizer: para onde extrapolam nossos sentimentos quando os prendemos nos nossos corações? Vira, quem sabe, uma arritmia cardíaca? Uma hipertensão que, estranhamente, não está relacionada ao exagero no consumo de sal?

​Queria tanto saber o que acontece com nossos silêncios quando deixamos de falar o que deve ser dito. Na verdade acho que até sei, mas não posso comprovar com exames clínicos. Será que vira medo em ter que falar para as paredes novamente? Ou será um poderoso combustível para aquelas inexplicáveis crises de ansiedade? Vira gatilho para os sintomas depressivos? Me diga você: para onde vão nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?

Eles apenas se transformam…

​… eu tenho esta teoria de que os desabafos contidos, transformados desumanamente em silêncios atrevidos, têm um estranho poder de causar inúmeros males, inclusive os físicos. Vou te contar que pode ter um dedo deles naquela enxaqueca insuportável, na gordura no fígado mesmo com a dieta em dia. Desconfio também que é cúmplice eterna daquela dor nas costas e nas persistentes dores musculares.

​Queria encontrar um remédio que atenuasse os sintomas dos sentimentos contidos. Um relaxante para os silêncios nervosos, um anti-inflamatório para as feridas que nunca cicatrizam porque não tivemos a oportunidade de chorar nossas dores para alguém que soubesse apreciar nosso valor. Se não houver analgésico ou antibiótico que cure esta dor que é preciso empurrar de volta para dentro o que deve ser posto para fora, será que uma xícara de chá resolve? Encaro até chá de boldo se preciso for.

Tenho essa forte impressão de que ao deixar de falar o que sentimos, perdemos um pouco do nosso corpo a cada dia. Os silêncios, como bactérias resistentes, ocupam múltiplos espaços no nosso ser. É, agora me diga você: o que acontece com nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos? Deixa eu te contar: eles podem virar doença. Talvez do corpo, mas sempre do coração.