Imagem de mulher e homem vestidos de branco e virados de costas um para o outro (Foto ilustrativa: Pixabay)
Para alguns é mais fácil conviver com a culpa a ter que se colocar numa situação embaraçosa (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Mais fácil se despir na frente do médico, gritar uma lorota no meio da multidão, pintar o cabelo de roxo, Bote Fé que é muito mais agradável arriscar uns passos básicos de dança do ventre para uma plateia gaiata, defender a dissertação do mestrado para uma banca exigente, Pode crer, tem gente que prefere falar sobre um assunto que não domina para um auditório lotado, forçar conversas com desconhecidos, encontrar aquele vizinho mais de uma vez nos corredores do supermercado. Mas pense na dificuldade surreal que é pedir desculpas.

Sim, isso mesmo. São forças aparentemente gigantescas que impedem um bocado de gente de escutar o coração, inspirar bem fundo, estufar o peito, soltar o ar e arriscar dizer: me desculpa. Melhor estar em Moscou dançando um pagode russo na boate Cossacou. É uma vergonha desmedida, um orgulho desvairado, um medo insano de demonstrar fraqueza. Vale tudo para se esquivar do simples ato de pedir perdão.

Eu nunca entendi muito bem. Observa. Ninguém está pedindo para que você leve uma topada no meio da rua. Para que esvazie sua conta bancária ou tenha que abrir mão do último pedaço de torta. Calma aí, companheiro, a vida não se trata de uma competição para ver quem consegue ser mais durão. Desconheço um mísero cidadão que tenha tido uma síncope por ter parado para raciocinar e decidido revelar o quão sentia muito por determinadas ações.

Eu sei que é custoso por demais se despir das camadas do ser adulto que empatam a vontade da criança que existe em nós de não ver maldade nas atitudes do próximo ao escutar o pedido de desculpas. Sim, nós todos sabemos como é difícil deixar o orgulho de lado e saber reconhecer que fracassamos na missão de ser perfeito. É complicado se perceber cheio de defeitos.

Talvez para alguns seja mais fácil conviver com o sentimento de culpa a ter que se colocar numa situação, para dizer o mínimo, embaraçosa. Melhor passar a borracha, mesmo que fique algumas marcas, na transgressão ao ter que suportar o receio de ter seu pedido de desculpas recusado. Ou encarar a possibilidade de ser debochado, ridicularizado, massacrado. Antes passar por cima da mágoa alheia como um trator do que ensaiar, sem jeito, uma forma de reconciliação.

Ninguém nunca disse que era fácil, mas, quer saber? É extremamente necessário. Como um punhado de coisas na vida. É que nem banho frio, só dói nos primeiros instantes mas logo acostuma. É que nem falar em público. Dá um revestrés na barriga por alguns minutos. Mas tranquiliza a medida que seu cérebro manda a mensagem de que, fica tranquilo, está tudo sob controle. Vai arder que nem mertiolate na ferida, mas alivia em seguida.

Mais do que necessário, talvez seja um dos mais expressivos gestos de que ainda há esperanças para a nossa comunidade. Tranquiliza, alivia, tira o peso da costas. Nos faz sentir um pouco mais empáticos com a mágoa do próximo. Te deixa livre para seguir tentando acertar mais na frente sem aquele fardo que ainda te compete.

Não vou mentir. Pra mim pedir desculpas há que ser um exercício diário, senão enfraqueço. E, quando penso em esquecer, lembro de algo que minha mãe disse nas primeiras confusões em que meti ainda na adolescência. É preciso saber aceitar que o outro tem o direito de ficar chateado. Você não precisa concordar, mas deve respeitar. E entender que, quando preciso, você precisa se desculpar. Honestamente, de dentro para fora e sem medo de se jogar. Faz um bem danado para quem recebe o pedido, mas vou te dizer: é ainda melhor para quem o entrega.