Mês: julho 2017

Por que é tão difícil pedir desculpas?

Imagem de mulher e homem vestidos de branco e virados de costas um para o outro (Foto ilustrativa: Pixabay)
Para alguns é mais fácil conviver com a culpa a ter que se colocar numa situação embaraçosa (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Mais fácil se despir na frente do médico, gritar uma lorota no meio da multidão, pintar o cabelo de roxo, Bote Fé que é muito mais agradável arriscar uns passos básicos de dança do ventre para uma plateia gaiata, defender a dissertação do mestrado para uma banca exigente, Pode crer, tem gente que prefere falar sobre um assunto que não domina para um auditório lotado, forçar conversas com desconhecidos, encontrar aquele vizinho mais de uma vez nos corredores do supermercado. Mas pense na dificuldade surreal que é pedir desculpas.

Sim, isso mesmo. São forças aparentemente gigantescas que impedem um bocado de gente de escutar o coração, inspirar bem fundo, estufar o peito, soltar o ar e arriscar dizer: me desculpa. Melhor estar em Moscou dançando um pagode russo na boate Cossacou. É uma vergonha desmedida, um orgulho desvairado, um medo insano de demonstrar fraqueza. Vale tudo para se esquivar do simples ato de pedir perdão.

Eu nunca entendi muito bem. Observa. Ninguém está pedindo para que você leve uma topada no meio da rua. Para que esvazie sua conta bancária ou tenha que abrir mão do último pedaço de torta. Calma aí, companheiro, a vida não se trata de uma competição para ver quem consegue ser mais durão. Desconheço um mísero cidadão que tenha tido uma síncope por ter parado para raciocinar e decidido revelar o quão sentia muito por determinadas ações.

Eu sei que é custoso por demais se despir das camadas do ser adulto que empatam a vontade da criança que existe em nós de não ver maldade nas atitudes do próximo ao escutar o pedido de desculpas. Sim, nós todos sabemos como é difícil deixar o orgulho de lado e saber reconhecer que fracassamos na missão de ser perfeito. É complicado se perceber cheio de defeitos.

Talvez para alguns seja mais fácil conviver com o sentimento de culpa a ter que se colocar numa situação, para dizer o mínimo, embaraçosa. Melhor passar a borracha, mesmo que fique algumas marcas, na transgressão ao ter que suportar o receio de ter seu pedido de desculpas recusado. Ou encarar a possibilidade de ser debochado, ridicularizado, massacrado. Antes passar por cima da mágoa alheia como um trator do que ensaiar, sem jeito, uma forma de reconciliação.

Ninguém nunca disse que era fácil, mas, quer saber? É extremamente necessário. Como um punhado de coisas na vida. É que nem banho frio, só dói nos primeiros instantes mas logo acostuma. É que nem falar em público. Dá um revestrés na barriga por alguns minutos. Mas tranquiliza a medida que seu cérebro manda a mensagem de que, fica tranquilo, está tudo sob controle. Vai arder que nem mertiolate na ferida, mas alivia em seguida.

Mais do que necessário, talvez seja um dos mais expressivos gestos de que ainda há esperanças para a nossa comunidade. Tranquiliza, alivia, tira o peso da costas. Nos faz sentir um pouco mais empáticos com a mágoa do próximo. Te deixa livre para seguir tentando acertar mais na frente sem aquele fardo que ainda te compete.

Não vou mentir. Pra mim pedir desculpas há que ser um exercício diário, senão enfraqueço. E, quando penso em esquecer, lembro de algo que minha mãe disse nas primeiras confusões em que meti ainda na adolescência. É preciso saber aceitar que o outro tem o direito de ficar chateado. Você não precisa concordar, mas deve respeitar. E entender que, quando preciso, você precisa se desculpar. Honestamente, de dentro para fora e sem medo de se jogar. Faz um bem danado para quem recebe o pedido, mas vou te dizer: é ainda melhor para quem o entrega.

Carta a quem me foi cruel

Foto de menina com semblante triste segurando uma xícara. Vapor sai da xícara (Foto ilustrativa: Pixabay)
Você deliberadamente me abandonou. Você, que sequer deveria ser uma presença relevante, fez questão de que sua ausência fosse (Foto ilustrativa: Pixabay)

Por Luiza Freitas
luizafreitas.f@gmail.com

Há um tempo meu coração não está em paz. É que para ele é difícil entender como as pessoas podem ser cruéis por tão pouco. Como as pessoas podem dar as mais inacreditáveis demonstrações de falta de cuidado com o outro. Minha cabeça tenta explicar para o meu coração que o mundo é assim, que não devemos esperar tanto do outro. Mas ele é teimoso, não aceita.

Há um tempo venho experimentado um tipo diferente de decepção. A gente ouve tanto falar de desilusões amorosas, um pouco sobre mágoa com amigos. Mas o gosto que ainda sinto na boca foi inédito para mim. Ele veio como uma explosão amarga de desgosto. Não por um ente da família ou alguém extremamente próximo. É justamente o contrário. É o dessabor de perceber que alguém que não deveria ser tão importante na nossa vida pode nos atingir, nos ferir, nos expor. Qual a importância esse alguém tem para fazer um dano tão grande?

Durante esse tempo venho tentando convencer meu coração a não retribuir esse sabor, que só envenena. Mas lembre, ele é teimoso e fica remoendo: se eu tenho para você o mesmo nível de “desimportância” que você tem para mim, por que gastar tanta energia para me fazer mal?

Eu não sou perfeita. Tento, aliás, me convencer todos os dias que não posso ser perfeita e, assim, tirar um peso enorme dos meus ombros. Dói demais para mim perceber o tamanho dos meus erros. Dói porque sinto em mim a ferida que causei no outro. Por isso, quando peço desculpas – e eu pedi – faço isso de coração. Com esse mesmo coração que custa a entender o motivo da sua crueldade.

Agora deixe-me explicar melhor o que entendo por crueldade. Não gosto de classificar vilões da ficção como cruéis – para mim eles normalmente se encaixam em alguma patologia que um médico explicaria melhor do que eu. A crueldade a que me refiro é o abandono deliberado. É ignorar o sentimento do outro e, justamente por isso ou tendo isso como justificativa, decidir fazer algo se sabe que vai deixar o outro triste.

Para mim, a crueldade está mais próxima de alguém que decidiu não se colocar no lugar do outro que sofre e pede ajuda ao estereótipo do personagem que quer separar um casal e ficar rico.

A crueldade vem em forma de silêncio, de uma mensagem lida e não respondida, da ausência, do preferir não falar, do preferir falar por trás, de escolher não perguntar “como você está”, de negar a oportunidade do diálogo. A crueldade por vir na escolha de deixar cair no esquecimento, mesmo sabendo que nada vai ser esquecido.

A sua crueldade veio do seu egoísmo. De achar que a dor que eu te causei anula a dor que você me causou. O seu gesto mais cruel foi se negar a refletir sobre as minhas palavras, que por mais que elas tenham tido um efeito de lâmina sobre você, em mim as feridas já estavam abertas e você fechou os olhos. Você deliberadamente me abandonou. Você, que sequer deveria ser uma presença relevante, fez questão de que sua ausência fosse.

Tive uma professora que sempre nos repetia o conselho “existem três coisas que não voltam mais: a pedra atirada, a palavra dita e a oportunidade perdida”. Sempre quis pensar que tanto a pedra quanto o verbo poderiam ser remediado com um sincero pedido de desculpas. Para a oportunidade que passou de aceitar as desculpas e deixar a crueldade de lado meu coração ainda não encontrou uma solução.