Mês: junho 2017

Nós por nós

Como é difícil sentir falta de uma pessoa que sequer esteve ali para que sua ausência fosse sentida (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Hoje me peguei pensando em todas as vezes que esperei que você estivesse ao meu lado. E, seja lá por quais motivos, você sequer apareceu. Nem que fosse para me dar um breve, porém apertado, abraço. Lembrei que, ao receber um diagnóstico aterrorizante bem no auge dos 25 anos, aguardei tanto por uma mensagem sua. Um ‘tudo bem?’ que fosse. Só para me sentir querida, já que você não podia fazer com que eu me sentisse amada.

Hoje me dei conta das inúmeras vezes em que chorei e pensei que você poderia ter me estendido a mão. Como quando encarei algumas cirurgias morrendo de medo. Ou ao esperar aflita na sala de espera pela próxima consulta com mais um prognóstico dolorido no saldo. Ou naquela vez em que aguardei extremamente preocupada por notícias do sobrinho caçula, internado ao nascer por problemas no parto.

Hoje lembrei das tantas conquistas que quis compartilhar contigo. Dos conselhos que gostaria de ter recebido sem que para isso tivesse que ter implorado sutilmente por eles. Das conversas que gostaria de não ter precisado iniciá-las. Dos convites que tive que fazer porque eles nunca me eram feitos primeiro.

Hoje recordei dos pesadelos que tive e acordei desesperada desejando que você tivesse pressentido algo e falasse comigo. Relembrei também dos inúmeros sonhos que, ao acordar, eu rezava repetidas vezes para que todos virassem realidade. Do mais bobo ao mais erótico. Por falar nisso, hoje me peguei lembrando de todos os lugares em que fizemos sexo. Às vezes nem tão bom, mas quase sempre totalmente entregue. Mas aí me dei conta daquela mensagem do dia seguinte que quase nunca chegava e do abraço que quase nunca durava.

Se juntassem todos os dias…

… em que me peguei pensando como sua presença teria sido um abraço na minha alma pode marcar aí umas boas semanas, quiçá um punhado de meses. Penosas horas, nas quais fui ligando os pontos e juntando os retalhos. E sempre chegava a uma triste resposta. Como é difícil sentir falta de uma pessoa que sequer esteve ali para que sua ausência fosse, de fato e de direito, sentida.

Hoje, e em qualquer brecha do meu dia, me peguei pensando como é torturante ter que se conformar com o discurso de que não devemos criar expectativas. Quando tudo o que eu queria era regar alegremente minhas sementes e poder gozar dos meus frutos. Como seria bom colher amor se plantei, com tanto cuidado, carinho.

Mas não se preocupe. Não foi só você. Antes de você já existiu outro. E antes, outro. E outro. E não foi apenas comigo. É com tantas de nós. Que aprendemos, a duras penas, a olhar cada vez mais para dentro. A nos voltar para o íntimo. Ou nos jogar em círculos de acolhimento, prontos para enxugar lágrimas que não deveriam ter brotado por ali.

Hoje atentei para o fato de que, se por tantas vezes você não marcou uma gentil presença, provavelmente nunca mais marcará. E isso só comprova um triste cenário: estamos cada vez mais sós, embora rodeados de gente. É uma quase certeza lamentável de que, em diversos relacionamentos amorosos, não podemos contar para todo o sempre. Não há pacto de amigas ou juramento de irmãos. Nem muito menos o porto seguro dos pais. Vamos aprendendo, bravamente, a sermos nós por nós. Do contrário, se por acaso fraquejarmos, quem será?

Você já aprendeu a deixar alguém ir para sempre?

Imagem de balões em forma de coração no céu (Foto: Pixabay)
A esperança do reencontro algum dia, em algum lugar, é como um bálsamo à alma (Foto: Pixabay)


Por Marcela Laurentino

celinha_192@hotmail.com

Os almoços aos domingos não são mais os mesmos. Festejar o aniversário, Natal, Réveillon, não tem mais o mesmo significado e sentido. Reclamar porque chegou em casa tarde… por mais “espiritualizado” que o indivíduo possar ser é imensuravelmente doloroso (chega a ser surreal) ficar “inteiro” quando se tem que aprender a deixar o outro ir e para tão “distante”. 

Não ver, não sentir mais o cheiro, o perfume inconfundível, o cuidado (muitas vezes excessivo) que chegava a chatear mas hoje é o que mais faz falta. Não mais ouvir aquela voz, que outrora referia-se a nós carinhosamente. Aquela sensação de desamparo que se torna cotidianamente perturbadora parece ser mais persistente que a vontade de seguir em frente em paz e na paz. A vida parece ser posta pelo avesso e de repente não existe mais o “porto”, nem seguro. 

Morbidez? Exagero? E você, já aprendeu a deixar alguém ir “pra sempre”?

Faz parte da vida. Com o tempo vai passar…
Você não pode chorar, faz mal. Tanto para quem foi quanto para quem ficou…

Sinto muito, mas não é bem assim! É claro que o ciclo da vida tem que continuar. Haverá momentos em que não dará para conter as lágrimas e o choro vai “aliviar” a angústia. Só não deve tornar-se rotina ou se deixar “afogar” nas mesmas. E pode passar o tempo que for, o que sairá de foco será a angústia, o choque, mas a saudade… essas só aumentará, a cada dia, mês, aniversário, Natal… essa “ausência física” é absurdamente cruel. 

Mas devemos, sobretudo, sermos gratos a Deus, em poder ter tido a oportunidade de conviver com essas pessoas que a nós foram emprestadas por um curto espaço de tempo. Tão curto que, quando nos damos conta, não há mais como dar aquele abraço apertado de agradecimento guardados para outra ocasião e, hoje, só querem ser sentidos junto com aquelas outras palavras que antes, trêmulas e presas de emoção, hoje só querem ser ouvidas por aquelas que temos a impressão de serem nossas verdadeiras almas gêmeas, as quais temos um recíproco e imensurável amor que, como pegadas impressas na alma, é indestrutível. 

Esse amor que não anula a dor de não ter mais a presença física diariamente, que não evita que as lágrimas escorram pela face, mas um amor que enche o coração de orgulho, alegria, boas lembranças, conselhos, brincadeiras, gargalhadas… longe dos meus olhos mas perto, muito perto, do coração e da alma. De tudo que vai muito além desse plano terrestre. 

Notoriamente as coisas nem sempre são como queremos, aprende-se o verdadeiro significado de que o “querer” nem sempre é “poder”. Benditos sejam os planos de Deus. A saudade dói, e dói muito, é inexplicável. Cada um de nós a sente de forma e intensidade diferentes. Mas a esperança do reencontro algum dia, em algum lugar, é como um bálsamo à alma. 

Que possamos refletir sobre nossas atitudes, conceitos, pré-conceitos, tentar transformar-se para melhor, mesmo que a longo prazo e/ou a passos curtos. Você já tentou uma “reforma íntima”? Lembre-vos, deixar uns aos outros sempre com um aperto de mão, um abraço, um beijo, um simples “até logo”, “até amanhã”, pois não se sabe se o “amanhã” chegará. 

A morte não existe. Só há a separação das almas pelo olhar. Mas não interrompe o amor e a conexão que as une pelo coração. 

Seja forte, você precisa aprender a fazer o caminho de volta

Imagem de caminho de corações (Foto: Pixabay)
Nós precisamos entender que o caminho de volta, por mais doloroso que seja, é extremamente necessário (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Há alguns dias, em duas situações semelhantes, alguém terminava uma conversa com a seguinte reflexão: nós precisamos aprender a fazer o caminho de volta. Coincidência ou não, eu já vinha há certo tempo pensando no assunto. Mas não sabia explicar bem o sentimento. Da primeira vez que soltaram a frase no meio da discussão, devo ter achado engraçada a transmissão de pensamentos. Mas, logo deixei a rotina me engolir e fazer com que eu esquecesse de uma consideração que precisava aplicar urgentemente na minha vida.

Na segunda vez que o tema surgiu novamente, minha mente deu o estalo. Se foi preciso que o assunto surgisse em outra conversa provavelmente era um sinal do universo que eu havia deixado escapar na primeira oportunidade. Com o passar dos dias, me permiti observar melhor o que as deusas estavam tentando me dizer. Não era possível que esse conselho dos céus não fosse me ajudar em algo. Qualquer empecilho que fosse.

Deixando fluir, percebi que talvez esta seja o lema de nossas vidas. Sim, é preciso saber fazer o caminho de volta. Todo santo dia, no decorrer das semanas, ao longo dos meses, com o passar dos anos. Se você não passou por isso, se prepare pois vai passar. Se já passou pode ir se acostumando porque provavelmente passará pela mesma barra outras várias vezes. Calma, eu vou me fazer entender.

Talvez pelo esforço costumeiro, pela nossa garra em conseguir as coisas, em construir nosso patrimônio, em trabalhar nossas angústias, em lutar para ser alguém melhor, teimamos em não aceitar o fracasso. É difícil entender que certas vezes nós temos que voltar pela trilha e recomeçar tudo de novo. Sei também que é terrível retornar pela estrada e observar que algumas árvores que plantamos infelizmente não deram frutos; as flores, outrora tão vivas, já murcharam; a cerca que construímos e pintamos com tanto cuidado já está descascando; o asfalto, antes tão firme, agora está esburacado.

Me faltam palavras para descrever como é custoso lidar com a frustração. Talvez por isso o regresso seja tão cansativo. Dói na alma. É tão pesado que quase podemos sentir a carga nas costas. Mas nós precisamos entender que o caminho de volta, por mais doloroso que seja, é extremamente necessário. Para nos fazer mais fortes, mais ávidos, mais esperançosos. Por mais que durante essa jornada provavelmente nos sentiremos fracos, fartos e desanimados.

Essa frase vai te perseguir por toda a vida…

… e é muito provável que você tenha muita raiva de ter que reiniciar do zero. Na vida amorosa ou profissional. Nos projetos diversos. Hoje não vai ter textão, porque não há muito o que filosofar sobre. Só há que ser forte e ter muita Fé. Pois você precisa aprender a fazer o caminho de volta. E, acredite, ele será florido.