Mês: abril 2017

Porque tudo fica mais leve quando compartilhado

Imagem de duas pessoas segurando as mãos (Foto ilustrativa: Pixabay)
O que seria do medo se não tivéssemos uma pessoa para nos desafiar a encará-lo? (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Monte aí a cena. Eu, em uma aldeia indígena, lidando com os sintomas de um problema de saúde. Do meu lado, quatro grandes amigas. Cada uma com seus próprios dilemas, suas neuras, suas angústias. Bem mais distante, meu pai. Sem tato, sem jeito, tentando entender o que se passa na cabeça de uma mulher. Bem mais nova, inexperiente, frágil. Enfim, sua filha. Por mensagem, eu desabafo: estou tentando. Ele responde: reaja. Você é forte! Vá ajudar suas amigas que elas precisam de você. Tudo dará certo. Não se preocupe.

Corte para a próxima cena. Achando que ninguém estivesse me observando, me permito derramar algumas lágrimas. Só para tentar lavar a alma, vai que ajuda. Não vou prender meus sentimentos por medo que me julguem, por estar ali naquele paraíso sem olhar para fora. Queria olhar para dentro. Só por alguns instantes não vou ter medo de ser inconveniente ou receio de estragar aquele momento. Precisava colocar pra fora. Sem que eu precisasse dizer muito, elas se levantaram e me abraçaram. Todas juntas, sem falar quase nada. Olhe, mas isso me disse muito.

Então é isso. Se eu pudesse escolher um superpoder, talvez uma das minhas primeiras escolhas seria acabar com a dor daqueles que amo. Sim, porque acho que a felicidade do próximo é a minha. E vice-versa. Se o superpoder não fosse possível, escolheria uma mega missão. E então elegeria repartir tanto as agonias e como as alegrias. Fossem elas minhas ou de quem mora no meu coração. Se essa responsabilidade me fosse negada, eu tentaria pelo menos ajudar. Até mesmo se recusassem minha ajuda. Porque acredito que os gestos, nem que sejam através de bonitas palavras, têm o poder de mudar o dia de alguém.

Na volta do passeio, admirávamos umas frases escritas nas paredes de uma igrejinha abandonada. Até que enveredamos sobre a importância de ter com quem contar e segurar a mão. E chegamos à história do jovem americano Christopher McCandless que, cansado da sociedade em que vivemos, decidiu largar tudo e foi viajar pelos EUA e países próximos de forma bem simples. Poucos dias antes de cometer o erro que o levou à morte, Chris escreveu em um de seus livros: “A felicidade só é real quando compartilhada”.

Acho que é isso. Arrisco dizer que não seríamos quem somos se não tivéssemos tido a oportunidade de dividir todas as nossas mágoas e compartilhar nossas alegrias. Creio que nossas angústias estariam aqui, todas presas na garganta, se não tivéssemos a chance de abraçar alguém bem apertado quando mais precisamos. Todas as viagens sozinhos perderiam a graça se não tivéssemos alguém nos esperando ao voltar para casa.

Todas as conquistas não teriam o mesmo sabor se não pudéssemos comemorá-las com alguém do nosso lado. O que seria do medo se não tivéssemos uma pessoa para nos desafiar a encará-lo? Como seria o gosto da tristeza se ao olharmos ao nosso redor ninguém estivesse pronto para nos acudir? Qual seria o tamanho da nossa aflição se não pudéssemos nos distrair com alguém pronto para nos fazer sorrir?

Não posso dizer que admiro aqueles que preferem a solidão. Ou os que, por tanto pecar, terminam sem ninguém. Apenas consigo entender que cada um tem as suas crenças, valores e suas diferentes formas de enxergar um mundo ao seu redor. Não nos cabe julgar. Mas eu entendi que muitos de nós precisam caminhar juntos. Não por fraqueza, mas por pertencimento.

Acho que compreendi que uma boa parcela…

… desses corações que pulsam por aí precisam se conectar uns aos outros para se sentir vivos. Não por apatia, mas por solidariedade. Entendemos, enfim, que tudo fica mais leve quando compartilhado. Assim como o Ubuntu, filosofia africana sustentada pelos pilares do respeito e companheirismo. “Eu sou porque nós somos”. E seguimos assim, não porque não temos outra escolha. E sim porque decidimos fazer uma conta estranha, mas que faz todo o sentido: dividir o que temos de ruim para então multiplicar o que fica de bom.

* Há um ano, eu iniciava uma parceria maravilhosa entre o portal NE10 e o meu blog. Esse período me trouxe muitos presentes e inúmeras experiências. Recebi e-mails, críticas, elogios e abraços carinhosos. Não tenho medo de me despir para falar sobre o que sinto profundamente. Não é minha intenção dourar a pílula. Quero e gosto de falar da vida como ela é: um tapa na cara, uma brisa no rosto, um aperto no coração e um afago na alma. O melhor dessa caminhada é que sigo acreditando que o amor cura tudo – das feridas mais leves às lesões mais profundas no coração. Meu muito obrigada pelo espaço. Seguimos juntxs! 😉

Não romantizem um relacionamento abusivo

Relacionamentos abusivos deixam marcas que não se resolvem na terapia, não cessam com antibióticos e não se curam instantaneamente nem com muita oração (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

* Sugestão da autora: ler o texto ao som de Back to Black, de Amy Winehouse

Quando eu era adolescente, imaginava que para um relacionamento ter fibra, ele precisava ser um pouco descontrolado. Acreditava que brigas desrespeitosas por ciúme, discussões em público e puxões de braço eram demonstrações de amor. Achava que sexo para fazer as pazes, mesmo que as arestas não fossem ajustadas, era o máximo. Sabe como é, né? O combustível para a explosão. Sim, eu acreditava. Era isso que eu lia nos livros e era exatamente assim que as relações ao meu redor se baseavam.

Quando eu era adolescente, imaginava que o papel da mulher era aceitar as traições, desde que o marido voltasse para a casa pedindo mil desculpas. E, no fundo, eu sabia que quando eu crescesse terminaria aceitando não apenas um deslize, mas quantos quer que fossem. Porque quem ama, perdoa. Era o que eu pensava. E não me culpo por isso. Foi desta forma que me mostraram a vida, mesmo que eu quisesse, bem lá no íntimo, que tivesse sido diferente.

Quando eu era adolescente, vejam bem, eu achava que gritos e berros eram excitantes, porque assim mostravam que existia química entre o casal. Que sexo forçado, no fim das contas, podia ser até estimulante, ah, vai lá, fazia parte das preliminares! Sim, era isso o que eu pensava. Era o que as novelas na televisão me mostravam e os filmes no cinema insinuavam. Não me culpo por isso, foi assim que aprendi e foi dessa forma, infelizmente, que deixei meu ser incorporar diversas falsas crenças.

E então eu cresci. O primeiro empurrão veio e eu não achei nada bonito. A primeira discussão em público também chegou e eu não achei graça. O sexo para fazer as pazes nunca vinha acompanhado de uma boa e respeitável conversa que deixasse ambos os lados satisfeitos. Na verdade, o gosto que ele deixava no final era bem amargo. E fui permitindo, como imaginava na adolescência, diversos deslizes simplesmente porque acreditava que o amor vive de segundas, terceiras, quartas chances…

Se já era difícil digerir quantas e quantas coisas fui capaz de fazer por amar demais, nestas últimas semanas, surreal para nós mulheres, me vi forçada a encarar fantasmas que continuam nos assombrando. Sabe por que? Porque eles são reais. E estão mascarados de homens que nos julgam, nos assediam, nos humilham, nos enganam, nos manipulam e nos batem. Homens que nos confundem, nos deixam sem chão, nos abandonam e deixam sequelas profundas – muitas vezes na alma, outras tantas vezes no corpo. Homens que nos matam: no sentido figurado e literal. Homens que seguem livres e soltos, com a consciência tranquila e intacta. Vida que segue, é o que eles dizem, acredita?

São traumas que seguimos levando todos os dias, empurrando para debaixo do tapete. Marcas que não se resolvem na terapia, não cessam com antibióticos, não se curam instantaneamente nem com muita oração. São traumas que viram doenças – feridas que sangram bem lá dentro, no fundo da alma. E muitas vezes não se fecham. Nestas últimas semanas já ouvi e li de tudo. Na minha timeline apareceu o que você puder imaginar: ‘ela mereceu’, ‘devia ter denunciado logo’, ‘ela também não presta’, ‘ele devia estar drogado’, ‘nunca foi a conduta dele’, ‘não está sendo fácil para ele’, ‘os dois estão errados’. Justificativas para disfarçar um tumor bem mais maligno do que a gente pode dimensionar, sabe?

No meu feed também surgiram diversos relatos e reflexões de pessoas que nada agregam à luta – inclusive abusadores reais. Gente que não se importa com quem vive em um relacionamento abusivo. Homens que não entendem e nem querem entender onde erraram e nem sequer se esforçam para mudar. Eles continuam os mesmos. Saca só: eles só querem parecer que se importam. Bancar o bacana ajuda nos likes, deixa todo mundo bem na fita. Pessoas que realmente não se interessam se seus comportamentos babacas devastam a vida de mulheres que todo santo dia perdem um pouco mais: da voz, da dignidade, da autoestima, da vida. Todo dia eu lembro o quanto eu morri por dentro a cada 24 horas e quanto eu precisei lutar para renascer a cada dia.

Então eu estou aqui para te dizer, mana, que está tudo bem não perdoar quem te fez mal para car*lho. Tá tudo bem sentir raiva, não precisa relativizar a culpa. Tá tudo bem bloquear, denunciar, colocar a boca no trombone. Tá tudo bem, viu? Texto nenhum no Facebook vai te fazer esquecer cada noite mal dormida. Nem vai passar uma borracha em cada agressão física, verbal, psicológica e sexual. Tá tudo bem não cumprimentar na rua, não querer conversa ou desfazer os laços com quem foi conivente. TÁ TUDO BEM. Tá tudo bem desconstruir os falsos discursos moralistas. Isso, mana, vai lá, denuncia qualquer postagem ofensiva. Pode até entrar em briga por outras amigas. Tá tudo bem esfregar na cara, deixar bem claro para quem te magoou o porquê de não aceitar tamanha babaquice. Não é teu trabalho passar a mão na cabeça não, fica tranquila.

Eu estou aqui para te dizer que está tudo bem se negar a ser complacente com pessoas que só sabem compartilhar textos para reflexão, mas não têm a decência de se colocar no lugar do outro. Tá tudo bem dizer para que todos eles segurem a onda. Tá tudo bem pedir para não se meterem na nossa luta se eles não sabem – nem se importam em saber – o que é estar desse lado da batalha. Mana, fica de boa, tá mais do que tranquilo não deixar que escancarem mentes hipócritas. Tá tudo bem chorar, colocar para fora o que te fez mal. Tá tudo bem procurar seus direitos, olhar um pouco mais para dentro, ficar um tempo sozinha. Tá tudo bem se sentir morta para então renascer.

Só não pode se culpar…

… nem deixar que tirem por menos as inúmeras características de relações destrutivas – seja com marido, namorado, ficante, rolo, romance ou lance. Só não pode esconder tuas dores por vergonha do que vão falar. Nem relevar ‘práticas absurdas’ por pura conivência. Nem muito menos permitir que tirem a tua voz. Não deixa não, mana, que romantizem um relacionamento abusivo. Até porque a gente sabe que isso não é amor. É como uma doença, quase um vício.

Depressão não é frescura. Abrace quem precisa

Sempre que puder ajudar, ajude. Esteja por perto, ofereça seu tempo. Tenha paciência para escutar quem sofre com a doença (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Por mais que você tente ser uma pessoa presente na vida de quem ama, é normal que se falhe. Pela falta de tempo ou de tato, nem sempre correspondemos às expectativas de quem mais precisa do nosso apoio. Vou me explicar: ao passar por um problema de saúde, me aproximei ainda mais de uma amiga que já havia sentido na pele alguns dos sintomas em que me afundei por alguns dias. Ela esteve sempre ali: seja por ligações, mensagens ou abraços carinhosos que sufocavam as minhas lágrimas desesperadoras.

Não houve um só dia em que ela não me perguntou como eu estava, se precisava de ajuda, se queria companhia para um café ou uma sessão de cinema. Mesmo que aqueles programas fossem os que eu mais detestasse – porém os únicos que eu podia fazer naquele período. Todo dia ela me pagava um café, parava ao meu lado durante o expediente e escutava tudo o que eu tentava dizer – mas também aguardava pacientemente se eu não conseguia me expressar em palavras.

Mesmo aceitando aqueles programas que em outros períodos certamente me entediariam, ela conseguia fazer com que eu me distraísse. Eu só não conseguia entender uma coisa: o porquê de ela estar sempre animada para esses programas enfadonhos. Ir para um café?! Quando tudo o que eu queria era poder voltar a aproveitar as festas e viagens que estava acostumada a fazer? Até que, um dia, ela me olhou e disse: vai parecer horrível o que eu vou te dizer. Mas, agora, finalmente, eu tenho alguém para me fazer companhia nos programas que eu posso fazer.

Naquele momento eu entendi o quão negligentes podemos ser com quem precisa de nós em momentos de dor. Ela tem depressão. E eu sequer me recordo uma única vez que a chamei para tomar um café ou assistir um filme enquanto ela passava por dias nublados. Não porque não me preocupasse com ela, mas porque eu não conseguia entender a dimensão do que é passar por dias difíceis: aqueles em que você não tem escolha. A tristeza simplesmente vem, sem que você tenha controle sobre seus pensamentos. Me culpei por alguns dias. Devia ter sido mais responsável, pensei repetidas vezes. Lembro que até cheguei a comentar sobre o meu remorso. E minha amiga disse: você me ajudou sim, em momentos que nem sequer imagina.

Nesta sexta-feira (7), é marcado o Dia Mundial da Saúde, iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para lembrar anualmente temas que necessitam da conscientização da sociedade. Este ano, a depressão foi a escolhida. Você sabia que essa doença afeta cerca de 350 milhões de pessoas em todo mundo? Imagina só quantas pessoas por aí precisam de palavras amigas, abraços carinhosos, conversas amigáveis e convites para passeios tranquilizantes?

Depressão não é frescura. Pois então, sempre que puder ajudar, ajude. Esteja por perto, ofereça seu tempo. Tenha paciência para escutar quem sofre com um transtorno que, por muitas vezes, é incapacitante e prejudica a vida das pessoas que convivem com ele*. Procure saber sempre mais, assim você terá como ajudar em momentos de crise. Se o paciente for da sua família, procure conversar com os médicos que o acompanham. Se informe, busque tratamentos complementares, o chame para realizar atividades físicas ao ar livre. Mais do que querer esses momentos, eles necessitam dessas injeções de felicidade. Faz bem para a saúde – e é comprovado cientificamente.

Se for seu amigo ou seu parceiro, não menospreze os momentos de dor. Não julgue as sensações e os pensamentos destrutivos. Apenas esteja lá para ajudar. Se não sabe como ajudar, pelo menos não atrapalhe. Comemore as pequenas vitórias do paciente como se suas fossem. Curta os pequenos grandes passos que eles dão dia após dia. Ofereça a mão se ele precisar de ajuda na caminhada. Ou observe ele ir sozinho: mas fique atento, de longe, caso ele precise de um apoio extra.

Se sente perdido? Quer fazer sua parte?

Leia também um pouco mais sobre outros transtornos psiquiátricos. Muitos distúrbios podem vir associados a um quadro depressivo, como por exemplo o transtorno de ansiedade generalizada (TAG), a síndrome do pânico, o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e a fobia social. Lute para acabar com o preconceito da sociedade em torno daqueles que vivem com algum distúrbio. Batalhe contra o estigma que mina a confiança desses pacientes que de frágil não têm nada – eles são força bruta.

Essa minha amiga, que anda enfrentando suas próprias batalhas, me socorreu em outros diversos momentos em que precisei. E foi exatamente quem eu precisava que ela fosse: sem tirar nem por. Mesmo que, por tantas vezes, eu não tenha sido o apoio que ela precisou. Então, mais uma vez, sempre que puder cuidar, cuide. Acolha e abrace essa causa. Mais que um gesto de carinho, é um gesto de amor. Com você e com o outro.

* Além de assinar a coluna O amor que guardei para mim no NE10, Malu Silveira é repórter e escreve para o blog de saúde do portal, o Casa Saudável