Teimamos em achar que aqueles que amamos já sabem da grandeza de nossos sentimentos. Custa nada reforçar (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Lá estava eu, passando o feed de notícias, quando me deparo com uma publicação de uma grande amiga. O texto dizia que devíamos parar de falar sobre o amor. Qualquer um poderia falar sobre o amor. Mas o que realmente importava era o que fazíamos para aqueles que amávamos. Era a única coisa que contava. Fiquei chocada. Não poderia discordar mais ferrenhamente.

Aceito que cada um tem seu jeito de amar, de demonstrar carinho e preocupação. Acato qualquer que seja as manifestações afetivas: dos gestos mais simples do dia a dia até aqueles que nos salvam de grandes tempestades. Um abraço, uma ligação no meio da noite, um presente, quem sabe até um aperto de mão. Isso é amor, não duvido. Mas acho também que não é a única coisa que conta. Conta muito, mas não fecha a conta.

Nesta rotina que tantas e tantas vezes nos sufoca, acabamos por asfixiar as palavras mais bonitas que temos para dizer ao próximo. Teimamos em achar que aqueles que amamos já sabem da grandeza de nossos sentimentos por eles. E eles sabem. Mas custa muito reforçar?

Compreendo que o amor se expressa muito mais nas nossas ações do que em palavras que se esvaziam de sentido muito rápido. Não vou mentir: sei que é muito melhor estar presente de fato do que apenas saber escrever um texto bonito. Ter alguém do seu lado, em dias bonitos ou nublados, é essencial. Nos faz sentir mais fortes e prontos para enfrentar qualquer guerra, mesmo que algumas batalhas precisem ser enfrentadas sozinhos.

Mas não vou mentir também: ter a certeza que somos amados é bom demais. Funciona mais ou menos assim: quando recebemos um abraço seguido de um eu te amo. Ou aquele recado especial em um dia que de importante nada tem. Funciona principalmente quando, nos momentos em que mais precisamos, aqueles que amamos nos dizem com todas as letras: eu estou aqui. E realmente estão, sem que para isso precisemos sempre pedir ajuda.

Venho tentando entender o porquê de reservamos nossos mais lindos discursos apenas para as datas comemorativas. O medo de nos sentir bobos e piegas nos afugenta de tal forma que não sabemos agir quando somos obrigados a demonstrar verbalmente nosso afeto em dias comuns.

Lembro que, em um curso de meditação, nos mandaram ligar (ou enviar uma mensagem) para três pessoas que considerávamos essenciais em nossa vida. Precisávamos dizer, com todas as palavras, o quão importantes elas eram para nós. Ao ligar para uma amiga – a mesma do início do texto – eu só consegui dizer: estou te ligando para dizer que você é muito importante para mim. Ela não entendeu bem: é o que, amiga? Não consegui terminar a frase, só fazia chorar. De vergonha, por nunca ter dito isso antes. De felicidade, por ter a oportunidade de dividir minha vida com ela. E de gratidão, por saber que ela estaria sempre ao meu lado. Choramos juntas na ligação.

Repeti esse curso uma outra vez. Nesse momento específico, aproveitei e liguei para minha irmã. A minha voz, já embargada, a preocupou. O que foi, Malu, o que aconteceu? Você está onde? Eu disse: Calma, não aconteceu nada. Só liguei para dizer que te amo. Acho que ela nem acreditou, já que na maioria das vezes só nos ligamos para pedir carona ou esculhambar a outra. Às vezes, dizer eu te amo assim, sem mais nem menos, é mais difícil que entrevista de emprego.

Aceito que amar é abdicação, entrega e doação…

É buscar no colégio, cuidar do enfermo na doença e preparar uma festa bacana para alguém especial. É não dormir enquanto o filho não chega das festas, é preparar um jantar gostoso ou emprestar dinheiro na pindaíba. Se expressa de tantas maneiras, seja no tempo que gastamos com o outro ou nas adversidades alheias que precisamos enfrentar em consideração ao próximo.

Eu entendo que é urgente amar e sei que, na maioria das vezes, assim o fazemos em silêncio – sem levantar bandeiras nem ostentar cartazes. Mas eu venho me enchendo cada vez mais de uma certeza que me acalenta em dias difíceis: é necessário falar sobre o amor que sentimos também.