Amar alguém não dá carta branca para permitir indelicadezas. Precisa fazer sentido, a conta tem que bater (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Existe um senso comum de que quem ama tudo suporta. Tudo releva ou deixa passar. Na maioria das vezes, tapa os ouvidos, fecha os olhos ou prefere se calar. Há também quem espalhe a crença de que quem ama aceita preencher vazios, ocupar lacunas ou ignorar as falhas. Dizem por aí que quem ama, aceita todos os defeitos – assim mesmo, sem tirar nem por. Engole um monte de sapos e rebobina a fita quando o dia acaba. Tem jeito não, quem ama muito aguenta.

Quem ama, dá um jeitinho pra tudo. Tolera cara fechada ou mau criação. Esquece os erros passados e vive na torcida para que o acaso resolva os contratempos. Eu bem sei que quem ama vive de passar por cima. Das mágoas, dos medos, das angústias. Desconsidera todos os bloqueios e assim segue – tantas vezes pisando em falso. E digo mais: quem ama, perdoa. Uma vez, duas vezes, três vezes. Até perder a conta. E não é fácil, não.

Quem ama não mede esforços. Não segue regras e esquece a vergonha. Há quem pense que merece a rebordosa. Deixa sempre para lá. Se anima com qualquer sinal de atenção e até agradece aos Céus pelas raras manifestações de interesse. Quem ama, conta as horas para estar junto e quer estar sempre por perto. Eu sei que aqueles que amam se acabam em lágrimas por motivos sensatos. Mas esboçam um enorme sorriso por minúsculas atitudes.

Quem gosta de verdade permite tanta coisa – das mais amenas até as mais difíceis. Mais uma vez, a gente bem sabe que quem ama aguenta de tudo. Arranja desculpas, se agarra àquelas poucas boas lembranças, bota panos quentes nas confusões e morre de medo de perder o outro de vista. E assim, meio sem querer, quem ama, tantas e tantas vezes, entra em ciclos viciosos com inesgotáveis maneiras de se anular. Entende como é? Quem entra não sabe como sair e quem consegue se livrar não sabe explicar direito como conseguiu.

Eu nunca entendi muito bem como nós temos uma santa paciência com quem não exerce nenhuma diferença no nosso cotidiano, mas sabemos ser extremamente grosseiros com quem realmente importa. Amar alguém não serve como justificativa para aceitar tantas intempéries de um lado. Nem muito menos é motivo para descontar as nossas agonias em quem está sempre por ali. Quem realmente gosta termina concedendo tantos benefícios que esquece que

amar alguém não é uma desculpa…

… nem para um, nem para o outro. Não é uma justificativa para admitir maus tratos, tolerar os erros repetitivos e aceitar os vícios de cárater. Amar alguém não significa carta branca para permitir tantas indelicadezas. A conta não bate, não faz o menor sentido.

Outro dia fiquei extremamente irritada ao perceber como amar certas vezes cansa para caramba. Estava voltando para casa depois de uma rotina maçante, naquele momento que imaginamos não ter ninguém nos observando. Sentia uma enorme vontade de desistir de me contentar com as lacunas. Umas lágrimas teimosas que ardiam por demais me fizeram repetir inúmeras vezes: “Eu não mereço isso!”. O estresse não vale a pena.

Há uma crença que diz que, em certo momento, aqueles que amam desistem de se contentar com espaços vazios. Se desgastam com tantas meias conversas e se sentem extremamente esgotados com a tão comum impaciência que afasta as pessoas de bom coração. Vão procurar outros caminhos, buscar novas formas de acalentar a alma. Dizem por aí, e eu sigo acreditando fielmente nisto, que tem muita gente batendo em retirada, não por não amar mais – mas por não aguentar nem por outro minuto aquela insuportável sensação de se sentir difícil demais de ser amado.