Mês: janeiro 2017

É urgente amar, mas é necessário falar sobre o amor também

Teimamos em achar que aqueles que amamos já sabem da grandeza de nossos sentimentos. Custa nada reforçar (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Lá estava eu, passando o feed de notícias, quando me deparo com uma publicação de uma grande amiga. O texto dizia que devíamos parar de falar sobre o amor. Qualquer um poderia falar sobre o amor. Mas o que realmente importava era o que fazíamos para aqueles que amávamos. Era a única coisa que contava. Fiquei chocada. Não poderia discordar mais ferrenhamente.

Aceito que cada um tem seu jeito de amar, de demonstrar carinho e preocupação. Acato qualquer que seja as manifestações afetivas: dos gestos mais simples do dia a dia até aqueles que nos salvam de grandes tempestades. Um abraço, uma ligação no meio da noite, um presente, quem sabe até um aperto de mão. Isso é amor, não duvido. Mas acho também que não é a única coisa que conta. Conta muito, mas não fecha a conta.

Nesta rotina que tantas e tantas vezes nos sufoca, acabamos por asfixiar as palavras mais bonitas que temos para dizer ao próximo. Teimamos em achar que aqueles que amamos já sabem da grandeza de nossos sentimentos por eles. E eles sabem. Mas custa muito reforçar?

Compreendo que o amor se expressa muito mais nas nossas ações do que em palavras que se esvaziam de sentido muito rápido. Não vou mentir: sei que é muito melhor estar presente de fato do que apenas saber escrever um texto bonito. Ter alguém do seu lado, em dias bonitos ou nublados, é essencial. Nos faz sentir mais fortes e prontos para enfrentar qualquer guerra, mesmo que algumas batalhas precisem ser enfrentadas sozinhos.

Mas não vou mentir também: ter a certeza que somos amados é bom demais. Funciona mais ou menos assim: quando recebemos um abraço seguido de um eu te amo. Ou aquele recado especial em um dia que de importante nada tem. Funciona principalmente quando, nos momentos em que mais precisamos, aqueles que amamos nos dizem com todas as letras: eu estou aqui. E realmente estão, sem que para isso precisemos sempre pedir ajuda.

Venho tentando entender o porquê de reservamos nossos mais lindos discursos apenas para as datas comemorativas. O medo de nos sentir bobos e piegas nos afugenta de tal forma que não sabemos agir quando somos obrigados a demonstrar verbalmente nosso afeto em dias comuns.

Lembro que, em um curso de meditação, nos mandaram ligar (ou enviar uma mensagem) para três pessoas que considerávamos essenciais em nossa vida. Precisávamos dizer, com todas as palavras, o quão importantes elas eram para nós. Ao ligar para uma amiga – a mesma do início do texto – eu só consegui dizer: estou te ligando para dizer que você é muito importante para mim. Ela não entendeu bem: é o que, amiga? Não consegui terminar a frase, só fazia chorar. De vergonha, por nunca ter dito isso antes. De felicidade, por ter a oportunidade de dividir minha vida com ela. E de gratidão, por saber que ela estaria sempre ao meu lado. Choramos juntas na ligação.

Repeti esse curso uma outra vez. Nesse momento específico, aproveitei e liguei para minha irmã. A minha voz, já embargada, a preocupou. O que foi, Malu, o que aconteceu? Você está onde? Eu disse: Calma, não aconteceu nada. Só liguei para dizer que te amo. Acho que ela nem acreditou, já que na maioria das vezes só nos ligamos para pedir carona ou esculhambar a outra. Às vezes, dizer eu te amo assim, sem mais nem menos, é mais difícil que entrevista de emprego.

Aceito que amar é abdicação, entrega e doação…

É buscar no colégio, cuidar do enfermo na doença e preparar uma festa bacana para alguém especial. É não dormir enquanto o filho não chega das festas, é preparar um jantar gostoso ou emprestar dinheiro na pindaíba. Se expressa de tantas maneiras, seja no tempo que gastamos com o outro ou nas adversidades alheias que precisamos enfrentar em consideração ao próximo.

Eu entendo que é urgente amar e sei que, na maioria das vezes, assim o fazemos em silêncio – sem levantar bandeiras nem ostentar cartazes. Mas eu venho me enchendo cada vez mais de uma certeza que me acalenta em dias difíceis: é necessário falar sobre o amor que sentimos também.

Amar alguém não é uma desculpa

Amar alguém não dá carta branca para permitir indelicadezas. Precisa fazer sentido, a conta tem que bater (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Existe um senso comum de que quem ama tudo suporta. Tudo releva ou deixa passar. Na maioria das vezes, tapa os ouvidos, fecha os olhos ou prefere se calar. Há também quem espalhe a crença de que quem ama aceita preencher vazios, ocupar lacunas ou ignorar as falhas. Dizem por aí que quem ama, aceita todos os defeitos – assim mesmo, sem tirar nem por. Engole um monte de sapos e rebobina a fita quando o dia acaba. Tem jeito não, quem ama muito aguenta.

Quem ama, dá um jeitinho pra tudo. Tolera cara fechada ou mau criação. Esquece os erros passados e vive na torcida para que o acaso resolva os contratempos. Eu bem sei que quem ama vive de passar por cima. Das mágoas, dos medos, das angústias. Desconsidera todos os bloqueios e assim segue – tantas vezes pisando em falso. E digo mais: quem ama, perdoa. Uma vez, duas vezes, três vezes. Até perder a conta. E não é fácil, não.

Quem ama não mede esforços. Não segue regras e esquece a vergonha. Há quem pense que merece a rebordosa. Deixa sempre para lá. Se anima com qualquer sinal de atenção e até agradece aos Céus pelas raras manifestações de interesse. Quem ama, conta as horas para estar junto e quer estar sempre por perto. Eu sei que aqueles que amam se acabam em lágrimas por motivos sensatos. Mas esboçam um enorme sorriso por minúsculas atitudes.

Quem gosta de verdade permite tanta coisa – das mais amenas até as mais difíceis. Mais uma vez, a gente bem sabe que quem ama aguenta de tudo. Arranja desculpas, se agarra àquelas poucas boas lembranças, bota panos quentes nas confusões e morre de medo de perder o outro de vista. E assim, meio sem querer, quem ama, tantas e tantas vezes, entra em ciclos viciosos com inesgotáveis maneiras de se anular. Entende como é? Quem entra não sabe como sair e quem consegue se livrar não sabe explicar direito como conseguiu.

Eu nunca entendi muito bem como nós temos uma santa paciência com quem não exerce nenhuma diferença no nosso cotidiano, mas sabemos ser extremamente grosseiros com quem realmente importa. Amar alguém não serve como justificativa para aceitar tantas intempéries de um lado. Nem muito menos é motivo para descontar as nossas agonias em quem está sempre por ali. Quem realmente gosta termina concedendo tantos benefícios que esquece que

amar alguém não é uma desculpa…

… nem para um, nem para o outro. Não é uma justificativa para admitir maus tratos, tolerar os erros repetitivos e aceitar os vícios de cárater. Amar alguém não significa carta branca para permitir tantas indelicadezas. A conta não bate, não faz o menor sentido.

Outro dia fiquei extremamente irritada ao perceber como amar certas vezes cansa para caramba. Estava voltando para casa depois de uma rotina maçante, naquele momento que imaginamos não ter ninguém nos observando. Sentia uma enorme vontade de desistir de me contentar com as lacunas. Umas lágrimas teimosas que ardiam por demais me fizeram repetir inúmeras vezes: “Eu não mereço isso!”. O estresse não vale a pena.

Há uma crença que diz que, em certo momento, aqueles que amam desistem de se contentar com espaços vazios. Se desgastam com tantas meias conversas e se sentem extremamente esgotados com a tão comum impaciência que afasta as pessoas de bom coração. Vão procurar outros caminhos, buscar novas formas de acalentar a alma. Dizem por aí, e eu sigo acreditando fielmente nisto, que tem muita gente batendo em retirada, não por não amar mais – mas por não aguentar nem por outro minuto aquela insuportável sensação de se sentir difícil demais de ser amado.