Imagem de mulher pulando (Foto: Free Images)
Ter alguém apontando seus defeitos é como uma prisão sem grades ou uma força que te puxa quando você quer pular (Foto: Free Images)

Texto originalmente publicado em coluna do Portal NE10

Quando me questionavam o que mais me irrita nas relações humanas, eu sempre tinha uma resposta na ponta da língua: o desapego. Gente fria, conversa sem graça, desinteresse no próximo. Este trio realmente me entedia. Mas nos últimos tempos venho me deparando com algo que me desestabiliza ainda mais. É aquele grupo que não nos deixa ser. Assim como somos, com nossos defeitos, nossas virtudes e nosso jeitinho particular. A real? Gente que não me deixa ser.

Em outros tempos, eu tinha essa mania. Queria moldar os outros. Tinha frases feitas, sabia articular meus argumentos, sempre vencia uma briga. Não suportava que não pensassem como eu pensava. Queria ser justiceira. Escrever e ditar regras. Ser a líder do grupo, coordenando todas as ações. Queria estar em todos os lugares, organizar todas as tarefas para que tudo sempre saísse do meu jeito. Eu sabia convencer, desestruturar, tirar qualquer um do eixo. No fim do dia, eu me sentia vitoriosa – era uma super mulher, creiam: me imaginava sem defeitos.

Eu sabia falar bonito. Mas então descobri que muitos não concordavam com o poder das minhas palavras. Alguns se afastaram, outros me jogaram algumas verdades na cara, muitos nem tinham mais paciência para os meus discursos. Até que, no fim do dia, eu me sentia esgotada. Queria tanto convencer os outros da minha verdade que nem percebia que era eu quem precisava saber o que me faltava: deixar cada um ser e agir como quiser.

Deixar cada um ser e agir como quiser é tentar se preocupar um pouco mais com você. Olhar para dentro. Diz respeito a estar atento às suas atitudes, deixando o outro livre para fazer o mesmo – ou não. Dar conta dos nossos defeitos e das nossas angústias já é trabalho demais. Cuidar da vida dos outros é um fardo que não nos compete. Um exemplo? Escrever esta coluna já me rendeu diversos comentários maldosos. E, acreditem ou não, de pessoas que me conhecem bastante. “Você fala tanto que devemos ser felizes, mas ontem mesmo eu te vi mal humorada!”. “Eita, a tua coluna é assim: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Realmente… devo ser uma falácia então.

Estar sob o radar das outras pessoas é viver na pressão. Dói demais. Hoje eu entendo. Dar justificativas, arrumar desculpas para nossas atitudes, ter medo de ser quem somos, reprimir nossos instintos ou precisar se adequar a comentários maliciosos. É muito pesado. Eu não preciso provar nada para ninguém. Odeio o jeito relapso de uma amiga, a constante falta de tempo de outra, o jeito dramático de muitos ou o temperamento tantas vezes egoísta de gente que convive ao meu redor. Posso dar uns toques aqui, outros acolá, mas será que nos cabe estar sempre apontando os defeitos do próximo?

Quem se conhece sabe. Chatice, egoísmo, temperamento forte, manias insanas. Aguentar nossos fracassos já é desgastante demais, será que precisamos de mais alguém nos empurrando de encontro ao abismo? Eu balanço a bandeira de que não precisamos de ninguém nos pressionando, apontando cada erro, qualquer tropeço. É quase como uma prisão sem grades. Uma mão invisível puxando a corda do seu balanço. Uma força que te puxa quando você quer mesmo é pular para bem longe.

Lá atrás, em meio a uma discussão uma amiga explodiu comigo. Eu queria argumentar, ela queria o silêncio. Enquanto eu forçava, ela soltou: “Me deixa em paz. Você sempre quer brigar. Será que não percebe que eu prefiro ficar calada?”. Então eu entendi que não adianta viver tentando fazer os outros enxergarem o nosso universo particular. Vamos afrouxar os nós, dar espaço, maneirar nos comentários! Ou respirar bem fundo quando alguém nos faz mal e entender que nem sempre assim agem conosco com más intenções. Faz tão bem receber o amor do próximo sem fazer comparações. Ou contar até dez antes de soltar uma observação que não acrescenta. E também não deixar ninguém te convencer a falar besteiras quando você já sabe que não tem nada interessante ou inteligente a dizer.

Gosto do time dos elogios. Quem coloca para cima, quem busca fazer uma crítica sempre enchendo a bola do próximo. Quem sabe ser sutil. É bom estar com pessoas que não vivem para nos testar – testar nossas atitudes, nossas palavras, nossas emoções. Gosto de quem me deixa ser. Vai, eu te deixo ser, me deixa ser também. 😉