Mês: abril 2015

Esse coração que não bate, só apanha

Quem tem um coração que não bate, só apanha, chega junto. Para curar as feridas, chorar as lágrimas, lamentar alguns descasos. Para riscar alguns dias do calendário ou comemorar o alívio ao perceber que a dor está indo embora. Chega junto para lembrarmos de algumas histórias, torcer por novos caminhos e distribuírmos alguns abraços – nem que seja apenas para confortarmos uns aos outros.

Até por que quem tem um coração que não bate, sabe esperar. Acredita que vai melhorar. Aceita a mágoa e até convive com ela. Um dia ela vai passar. Dia após dia encontra novos motivos para não desistir. Tenta não pensar no futuro. Planeja alguns pequenos passos. Olha algumas vezes para trás. Mas quer sempre caminhar em frente. Nunca voltar atrás.

Quem tem um coração que não bate, só apanha, sabe o que é estar sozinho, por isso odeia a solidão. Mas sabe tirar algumas lições dela. Faz algumas tarefas e entende que pra estar junto não precisa estar perto. É preciso estar presente.

Aquele coração que não bate, só apanha, fica cada vez mais forte. Se desfaz de alguns pesos desnecessários. Passa a não dar justificativas. Aprende o valor das palavras e tem a certeza que toda forma de amor é justa. Um coração que apanha já se partiu em pedaços para completar os outros. E depois teve que juntar todos os pedaços para tentar recuperar a confiança. No próximo e até em si mesmo.

Quem tem um coração que não bate, só apanha: deixe estar. Enquanto isso, espantemos o cansaço. Saibamos rir da própria desgraça. Mesmo que ela seja pesada demais. Um dia há de ficar leve. Quem tem um coração que não bate sabe que alguns amores passarão. Alguns hão de ficar.

A imensidão dos nossos sentimentos

Dia desses recebi uma imagem no grupo da família. Era mais uma destas fotos que, a princípio não dizem nada, mas, no fundo, representam muito. Na margem de um rio, um banquinho de madeira. Minha mãe respondeu: “vendo esse banquinho, essa paisagem, vejo a imensidão dos nossos sentimentos”.

Aquilo me fez pensar. Pensei. Pensei. Pensei tanto e, mesmo assim, nenhum dos meus pensamentos me levou a uma conclusão exata sobre a imensidão dos nossos sentimentos. De tão gigantes, eles chegam a ser sufocantes. Será que já paramos para pensar sobre isso? Sentimos tanto que não damos conta de tanto sentimento. Tentamos abraçar o mundo. Mas nos falta tanta coisa. Nos faltam braços, pernas, nos falta amor. Amor dos outros. Amor de nós. Falta também amor próprio.

Lembrei de vezes que a sensação de um sentimento me inundou tanto que eu não consegui me conter em mim. Aquele primeiro amor que em uma noite tão esperada me decepcionou. Chorei para tentar acabar com a mágoa. De tão gigante o amor que eu sentia, não conseguia exprimir em palavras o que me sobrava. Ou talvez o que me faltava.

Imagem de rio com banco de madeira na margem
“Vendo esse banquinho, essa paisagem, vejo a imensidão dos nossos sentimentos”

Lembrei também quando chorei por ciclos concluídos, rompidos e interrompidos. Quando quis juntar o que e quem já não poderia mais ser unido. Lembrei da angústia depois de reclamações no trabalho, da aflição ao receber um castigo dos pais, do medo daquilo que ainda estava por vir. Lembrei de pessoas especiais que se foram. Lembrei de abraços que nunca mais vou ter. De cartas que nunca mais vou receber. Lembrei que o desapego é difícil – tamanha é a dimensão dos nossos sentimentos.

É que quando a gente sente muito, as palavras nos faltam. É tentar traduzir em texto a saudade. Explicar alguns alívios. Substantivar as lágrimas. Compreender algumas sensações. Definir quem somos em apenas um minuto. Tentar falar tudo que achamos de alguém muito importante para nós em alguns instantes. Ou demonstrar todo o nosso amor por certas pessoas. É como tentar transcrever o desconforto de uma despedida. Principalmente aquela forçada. É descrever um pôr do sol. Ou a alegria de reunir todo mundo que a gente gosta em um dia só. É tentar falar da dor e alegria de ser responsável por alguém. É, inutilmente, expressar o que significa um abraço em certos momentos. Inexplicável o tamanho da dor. E até mesmo a grandeza da felicidade. Difícil explicar o que parece não ter sentido, mas tem todo o sentido do mundo.

Não abra portas para pular janelas

Janela
Pular janelas é trilhar novos caminhos, mesmo que mais difíceis, e não voltar por aqueles mesmos atalhos

Pular janelas é insistir na dor. Mas também abraçar o coração ferido. Pular janelas é uma batalha perdida e uma vontade enorme de recomeçar. Pular janelas é tornar a luta mais dolorida. E também mais plausível.

Pular janelas é viver a vida. E saber que ela tem que ser vivida. Pular janelas é não desistir, mesmo depois de um dia difícil. Pular janelas é acreditar que haverá amanhã. Mesmo que o hoje tenha sido sofrido.

Pular janelas é acreditar em mudanças. Recomeços. É não se importar com obstáculos. Pular janelas é ter medo. Mas pular assim mesmo. Pular janelas é o receio de não ser correspondido e mesmo assim bater de cara na porta fechada. Pular janelas é se livrar de palavras desnecessárias para se agarrar às atitudes.

Pular janelas é, sobretudo, uma maneira de trilhar novos caminhos, mesmo que mais difíceis. E escolher não voltar por aqueles mesmos atalhos. Construir relacionamentos. Mesmo que você tenha que pular várias janelas. É insistir no amor.

E quem abre portas ou deixa que pulem as janelas acredita no próximo. Abre o coração. Recebe com gratidão. Deixa a tristeza ir embora e a alegria tomar conta. Faz uma faxina geral. Colore os quartos, enfeita toda a casa. Põe flores na sala. Inaugura aquela nova roupa de cama. Troca os tapetes. Prepara o lar e então se arruma para receber a visita.

Quem recebe deixou que forçassem portas, pulassem janelas, quebrassem barreiras. Para aquele de fora deixar de ser visita e ser de casa. Quem recebe só não quer uma coisa. Que abramos portas para depois voltar correndo e pular as janelas.