Mês: Fevereiro 2015

Essa mania de apressar o futuro

“Malu, viva o momento! Deixe acontecer!”, já me disseram várias vezes. Que mania a gente tem de apressar o futuro. Contar as horas, esperar demais por certos dias, pular etapas, sofrer por antecipação, remoer situações que ainda nem aconteceram, chorar lágrimas por mágoas que ainda nem apertaram o coração.

Quando eu era pequena, na época de Natal, não conseguia nem aproveitar a Ceia da véspera porque ficava imaginando como seria no dia seguinte, na entrega dos presentes. Queria saber como seria o momento, se meus pais estariam juntos, se seria ao redor da árvore de Natal, se eles entrariam no meu quarto com um café da manhã maravilhoso e um presente gigantesco.

A agonia era tanta que eu passava a noite ao redor da árvore de Natal só para esperar Papai Noel chegar com o meu presente e então poder voltar a dormir em paz.

Acho que tenho medo do futuro. Medo da efemeridade da vida. Medo de amar de menos ou amar demais. Medo de sonhos destruídos e conquistas interrompidas. Medo de não conseguir dizer o que tenho para dizer. Tenho muito medo de pontos finais. Gosto de vírgulas, exclamações! Interrogações tenho muitas – também não gosto delas.

Tenho medo do futuro porque ele nunca me traz respostas. Estou fazendo tudo o que posso fazer pelos outros? Plantarei uma árvore? Escreverei um livro? Terei muitos filhos? Voarei de asa delta? Quanto mais eu pergunto, menos ele me responde.

Tenho tanto medo do futuro que esqueci de aproveitar muitos momentos. Parei. Revi. Mudei. Hoje não penso no futuro. Mentira, claro que penso. Mas venho me blindando com o presente. Eu não tenho certeza, mas acho que o segredo é aproveitar os instantes.

Tomar banho de chuva, olhar o céu, se entregar em um abraço gostoso, sentir o vento, contemplar as flores, se emocionar com palavras, curtir uma viagem. Acreditar no amor, ler um livro, aproveitar qualquer oportunidade para dar uma boa risada. Momentos, assim como o futuro, não me trazem respostas. Mas me dão muitas certezas.

Errar não te faz ruim, te faz humano

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Errar faz parte do aprendizado. E correr atrás do erro é aprender mais ainda (Foto: Free Images)

Sempre tive medo de errar com os outros. Eu nunca entendi direito porque tinha uma necessidade de estar em paz com os outros. Mesmo que não estivesse em paz comigo. Um dia parei para pensar e entendi. Quando criança, tinha um grupo de amigos onde morava que não poderia ter sido pior para mim.

Por algum motivo, eu sempre era escanteada. O bullying era sempre comigo. As piadinhas sempre eram relacionadas a mim. Eu não conseguia entender como crianças podiam ser tão malvadas (!!!!). Por quê comigo? O que eu tinha feito? Até que minha mãe me proibiu o contato. “Antes só do que mal acompanhada”, ela dizia. Continuei sem entender por muito tempo. Eu, que sempre adorei companhia, passei muito tempo sozinha.

Quem passa por bullying desenvolve o hábito da justiça. De não fazer com os outros o que você não gostaria que fizessem com você. Você não vai excluir o gordinho só porque ele é gordinho. Você já passou por isso. Sabe o que é ser excluído. Não vai rir daquele que tem o cabelo estranho porque você sabe como é rirem de você por causa do seu cabelo. Você pode até se deixar levar pela onda, mas vai se policiar eternamente para não cometer com os outros aqueles mesmos erros que cometeram com você.

De pisar tanto em ovos, me policiei muito mais em relação aos meus erros. Cresci com medo de decepcionar os outros – assim como me decepcionaram outras vezes. Mas depois de tanto tempo sozinha, encontrei pessoas que me fizeram entender que errar não me faz ruim, me faz mais humana. Encontrei alguns que me aceitaram do jeito que sou – não me colocaram para trás, não riram do meu jeito e nem desistiram de mim.

Me fizeram entender que errar faz parte do aprendizado. E correr atrás do meu erro é aprender mais ainda. Me fizeram entender que os erros também me dizem muito de quem sou – e de quem quero ser. Agora eu entendi que brigas muitas vezes são desnecessárias mas em outras são parte essencial de qualquer relacionamento. E que eu preciso me entender para entender o outro também.

É. é isso. O mantra de todo dia. Errar não me faz ruim. Me faz mais humana. Mais parte da vida. Mais perto de acertos. Você erra tentando acertar. Por você, pelos outros. Errar também é uma forma de amor.

Você já se colocou no lugar do outro hoje?

Um dia enquanto lavava os pratos e conversava com minha mãe sobre a vida, percebi que ela olhava concentrada para a janela da cozinha. De frente para vários outros edifícios, recheados de outras tantas famílias e com um monte de muitas histórias para contar. “Malu, você já parou para pensar no que acontece dentro destes outros inúmeros apartamentos? Quantas histórias bonitas, sofridas e diferentes para contar? O que estas pessoas fazem, estão felizes, tristes, satisfeitas com a vida que levam?”, mainha perguntou.

Depois deste dia acho até que passei a observar os edifícios de outro jeito. A cada janela com uma luz acesa lá dentro uma nova história passava pela minha cabeça. O que estas pessoas fazem? Levam vidas normais, já viveram tudo o que tinham para viver? Sentem dor? Sofrem de amor?

A pergunta da minha mãe, claro, foi mais uma metáfora para me dizer: se coloque no lugar dos outros. Entenda a dor de cada um. Respeite as vontades, as atitudes, as opiniões. Mesmo que não tenham nada a ver com o que você pensa a respeito DE. Não julgue, deixe a vida dos outros seguir em frente.

Analise a história de cada um como se fosse a sua própria história. Assim você se comoverá muito mais facilmente. Questione, intervenha, mas saiba a hora de apenas observar pela janela. De longe, sem se meter. Contemple, imagine o “e se eu estivesse no seu lugar?”.

Quando você olha as janelas, dá para enxergar as portas. Depois de observar bastante, abra algumas delas. E depois feche algumas. Só se elas já não te levarem a lugar algum.

Vamos falar de relacionamentos

No dia do meu aniversário, uma amiga postou nas redes sociais uma resposta para uma pergunta que eu havia feito a ela.

– “Pri, será que vamos continuar amigas até a gente ter uma família?”

– “Rapaz, não dá para prever o futuro, mas eu sei que se depender da gente, a resposta com certeza é sim. Somos simplesmente amigas! (…) Nossa amizade dura porque ela tem essência de amigo. Somos duas pessoas que adoram conversar, desabafar, rir, viajar e que se apoiam. Ser Malu e Pri! Apenas! Duas pessoas interessadas em serem felizes por opção.”

Priscila véia de guerra na esquerda
Priscila véia de guerra na esquerda

Aquela resposta foi como um abraço no meu coração. Um carinho que conforta. Uma certeza para muitas dúvidas. Um afago para estas questões difíceis que são as relações. Relacionamentos são difíceis porque são feitos de duas pessoas. Dois universos completamente diferentes. Se fosse fácil, era feito de um só.

São complicados porque exigem mudanças. Companheirismo, lealdade e muito – MUITO – amor ao próximo. Na maioria das vezes, o orgulho só destrói relações.

Ler a resposta da amiga foi como tirar 10 na prova de matemática. Ou pelo menos um 9,5. A certeza que você passou o ano quebrando a cabeça. Cheio de dúvidas. Mas com muitas certezas também. É saber que valeu a pena tanta noite mal dormida, tanta preocupação, tanto choro e tanto desgosto com os números.

Uma resposta perfeita para o não desprendimento. Por não desistir. Por respirar fundo e seguir lutando por relações que têm tudo para acabar, mas por isso mesmo têm tudo para seguir em frente. Por enxergar as qualidades e não apenas os defeitos. Por fazer as vezes de mãe, pai, irmão e não apenas mais um amigo. Por questionar atitudes e rever as suas. Por não deixar ir. Por insistir mesmo quando você não quer mais ficar.

A resposta da minha amiga foi, enfim, como ganhar um presente após muito esforço. Você nunca enjoa dele. É o seu prêmio por ter se empenhado em não cometer erros. É a certeza de que você vale tanto carinho. Sabe por quê? Porque você fez por merecer.

Não se afaste de si mesmo

Eu tranquila comendo meu sanduíche esperando para minha sessão de terapia. Tenho que confessar: estava escutando a conversa de um homem e uma mulher ao meu lado. Eles falavam sobre as novas tecnologias e a sociedade contemporânea. Em pensamento, eu concordava com tudo que eles falavam – mas sem muita emoção. Até que a mulher respondeu a uma colocação do rapaz com um: “A tendência hoje é você se afastar de si mesmo”.

Quase engasguei com o sanduíche (mentira!). Como aquela frase, vinda de uma completa desconhecida, poderia me atingir tanto? Claro, é porque ninguém nunca tinha conseguido explicar tão bem o que acontece ao meu redor e até comigo!

Quando eu era mais nova, me disseram que eu devia parar de ser tão engraçada. Que eu devia ser mais séria, mais madura. Leia-se: mais igual às outras meninas da minha idade. Passei uma semana igual a todas. Aquilo me incomodava muito, mas eu não sabia o porquê. Até que uma amiga perguntou: “Por que você está tão diferente? Não é a Malu de sempre!”. Eu respondi amuada: “Estou sendo como me pediram pra ser”. Ela – que, inocentemente, havia incentivado minha mudança – respondeu: “Não, volta a ser quem você era! Não tem graça assim do jeito que você está”.

Paremos pra pensar: fazemos o que queremos ou o que os outros acham que é certo fazer? Somos o que somos ou o que os outros esperam que sejamos? Dizemos o que queremos dizer porque temos vontade de dizer ou porque seguimos uma linha lógica de raciocínio elaborado por outras pessoas?

Vamos para as festas que todos vão. Vestimos as roupas que todos vestem. Dizemos as gírias que todos dizem. Rimos das mesmas piadas que todos riem. Vamos fazendo tudo o que os outros querem e quando vemos já não somos nem um pouco do que fomos um dia.

Não falo de opiniões e pensamentos. Eles mudam e nós mesmos mudamos com o tempo. Falo de essência. De personalidade e, principalmente, de caráter. Daquilo que somos quando ninguém está vendo. Ou daquilo que somos na frente de quem gosta da gente do jeito que somos. Venho perdendo pessoas maravilhosas porque elas se perderam na pressão enorme de precisar ser aquilo que o mundo quer que elas sejam.

Naquele dia eu me afastei de mim. Foi horrível. Desde então, prefiro lidar com quem sou. Aceitar minhas fraquezas, meus medos e – por que não? – minhas loucuras. Como já li certa vez: as pessoas que não gostam de mim não vão aceitar minhas justificativas. E aquelas que gostam não precisam de explicação.

Se aceite. Aceite os outros. E leve consigo só o que não lhe afasta de si mesmo.