Cicatrizes marcadas na alma que nem tatuagem

Imagem de dois braços tatuados levantados para o céu, com folhas de uma árvore ao fundo
Não precisamos ir muito longe para enxergar os sinais que nos impulsiona na vida (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Se a vida fosse fácil, que extraordinário seria passar por nossas experiências terrenas. Como seria simples viver todos os dias. Sem aperreios, perrengues ou sufocos. Lágrimas, somente de felicidade. Dor, só na barriga: e seria de tanto rir. Caretas, só nas brincadeiras. Guerra, somente as de almofadas. Não apenas viveríamos, eternizaríamos nossos momentos. Sabe por que? Pois todas as nossas lembranças seriam de tempos felizes.

Às vezes me pego imaginando como seria se vivêssemos nesse fantástico mundo dos sonhos, rodeados por nossas mais mirabolantes fantasias. Seríamos assim tão contentes? Saberíamos valorizar todas as dádivas dadas, mesmo que sem nenhum esforço? Ser feliz assim, todo o tempo, não esgotaria nossas energias? Como seria viver, dia após dia, sem nenhuma bagagem sofrida para carregar nas costas? Dessa forma, seríamos assim tão fortes?

Houve uma época em minha vida, logo após sofrer – até então – a pior das decepções amorosas, que não aguentava mais escutar os outros dizendo que aquele desgosto me faria crescer, uau!, me faria muito mais forte. O sofrimento, me diziam, com certeza me faria uma pessoa melhor. E que, no futuro, eu iria agradecer por ter passado por tudo aquilo. Por Deus, como eu queria, naquela época, que me transportassem para essa terra dos pôneis coloridos.

Na minha cabeça, eu não precisava ter passado por nada daquilo para aprender algo. Passar bem, obrigada. Eu realmente achava que minha vida seria tão ou muito melhor se aquela tempestade não tivesse desorganizado a minha rotina. Sim, eu acreditava que apenas os dias ensolarados, com suas árvores frondosas e suas flores maravilhosas, seriam suficiente para me ensinar a dominar os malabarismos da vida.

No fundo eu entendia que era somente isso que a gente quer: ser feliz, sem que para isso precisemos levar algumas muitas bofetadas da vida. Eu acreditava que, se nos esquivássemos, sempre que possível, das piores lutas, conseguiríamos, sem muito esforço, um lugar no pódio.

Só após passar por muitas experiências, escutar tantos relatos e observar tantos inimagináveis cenários, é que a gente percebe que aquele mundo lá de cima simplesmente não existe. Não condiz com nossa realidade. E, mesmo que existisse, terminaria por nos engolir aos montes, sem chance de fuga. E sabe por que? É que não tivemos a oportunidade de testar nossas melhores armas e mais habilidosas ferramentas de escapar ou vencer as batalhas.

Chega um momento em que aceitamos que nossas feridas, mesmo quando ainda não saradas, são nossos mais potentes escudos contra diversos monstros. Percebemos, enfim, que nossos processos em busca da cura são nossas mais extraordinárias jornadas. Veja bem, tem coisa mais linda do que se dar conta da mágica que é ser forte mesmo quando não temos mais forças? Você já sequer reparou como é grande a felicidade de alguém que tinha tudo para não se reerguer e finalmente conseguiu dar mais alguns passos?

Agora sei que aquele universo paralelo de felicidade abundante jamais nos transformaria em pessoas melhores – mais humanas, generosas e solidárias. Sabe por que? Porque simplesmente não teríamos para onde olhar, algo em que pudéssemos nos nortear.

Do lado de cá, no entanto, não precisaríamos ir muito longe para enxergar os sinais que nos impulsiona diariamente a correr atrás das nossas alegrias. É que apenas nossas cicatrizes nos faz entender o essencial.. Coisa que muito provavelmente todos aqueles tão sonhados “dias fáceis” jamais nos faria compreender. É que essas marcas estão cravadas – na pele e na alma – que nem tatuagem. Todo o processo, pode ter certeza, dói para caramba. Mas a gente aprende a confiar. No final, você vai gostar do resultado. 🙂

Cuidado com quem você gasta a sua cota de ‘textão’

Imagem de coração vermelho de tecido com pontilhado branco amarrado a corda
Legenda da foto: Insistir em certas relações é que nem ficar forçando a corda. Uma hora ela arrebenta (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Hoje já é quase véspera de Carnaval, então, nem se preocupem, não vou tomar muito dos nossos tempos. Pois claramente, enquanto eu estaria aqui, queimando todos os meus neurônios em busca das frases perfeitas, muito provavelmente você estaria pensando no preço da Skol latão. Tudo bem, eu te entendo perfeitamente. Relaxa, estamos eu e tu na mesma situação!

Precisava, no entanto, compartilhar com vocês urgentemente mais uma sabedoria da minha mãe. Se eu deixar passar, talvez a rotina mais uma vez me faça esquecer as grandes reflexões que nossas mainhas nos proporcionam. Segura aí a pressão.

Ao perceber que eu estava no meio de uma discussão com amigas, tentou acompanhar o buruçu. A cada cinco minutos espiava pela porta do quarto para saber se havia alguma atualização do verdadeiro ‘randevú’ que havia se instaurado. E em cada nova espiada, ela me aconselhava: “Malu, não estenda muito essa discussão não”. E eu, imatura que sou, continuava usando todo o meu latim naquele desentendimento que parecia interminável.

Depois daqueles 323 anos, ao se dar conta que finalmente eu havia me aquietado, ela volta e pergunta: “e aí, em que terminou?”. Eu, toda orgulhosa, mostrei a tela do celular e a deixei conferir aquele textão enviado. Uma longa mensagem meticulosamente elaborada, com argumentos talvez capazes de acabar com a guerra mundial.

– Minha filha, não perca tempo com textão não…

– Mas, mainha, é claro que eu vou escrever um textão. EU preciso, preciso demais dizer o que sinto!

– Acabe com isso de querer falar demais. Às vezes, são apenas palavras. Enquanto você argumenta bastante de um lado, a outra pessoa só vai pensar em rebater tudo o que você expressou. E, no fim, ninguém realmente lê o que o outro escreveu.

Ali eu fiquei sem resposta. Por mais algum tempo ela me explicou que, além de ser muito melhor nos preservar em certos momentos, tem gente que não se importa nem um pouco com nossas palavras. Então pra que esgotar nossas justificativas? É desse jeitinho mesmo, sem tirar nem por.

Então fica a lição para esse e os próximos Carnavais: tenha cuidado com quem você gasta sua cota de textão. Insistir em certas relações é que nem ficar forçando a corda. Uma hora ela arrebenta.

A força do perdão

Da mais boba até a mais difícil situação, nunca é fácil perdoar. As marcas tendem a não querer sair. Mas não deixe isso acontecer (Foto: Pixabay)

Por Lucas Wild
lucaswild@outlook.com

Esses últimos dias foram estranhos para mim. Tudo porque fiquei chateado com um amigo, por questões que não cabem falar agora. Fato é que não sou muito de guardar rancor, nem nada disso. Mas, nesse caso, guardei. E não me orgulho em nada.

Fiquei pensando no por quê. Como assim? Passei quase um mês chateado com alguém e sem coragem de ir falar o motivo. Sei que as vezes guardo muita coisa em meu coração, principalmente coisas que me machucam, mas rancor não era uma delas. Depois de uma mensagem abençoadora,  Deus trabalhou em meu coração e consegui liberar o perdão. Ufa! Que sensação boa. Falei com meu amigo e ficou tudo certo.

O que eu quero dizer é: da mais boba até a mais difícil situação, nunca é fácil perdoar. As marcas, que muitas vezes só ficam no coração, tendem a não querer sair. Não deixe isso acontecer. Lute contra qualquer sentimento de raiva, ódio e rancor, que só te puxarão para um abismo sem volta.

Esqueça a doença e ela esquecerá você

É preciso aprender a dançar descalço na chuva enquanto o sol não chega (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Dia desses estava no posto do CVV Recife (Centro de Valorização da Vida), onde atuo como voluntária, e me encontrei com outros dois voluntários, bem mais velhos – tanto de idade como de tempo na entidade. Geralmente, no meu horário de atividades, não encontro outras pessoas. Estou acostumada com a solidão no Centro. Por isso, demorei a me entrosar com eles, que em seus intervalos aproveitaram para tomar um cafezinho e conversar sobre a vida. Foi só me oferecerem café que eu já cheguei mais perto.

Conversamos por um bom tempo sobre como o voluntário mais velho era um grande conhecedor da vida. O mais novo afirmava a todo momento que o mais experiente tinha muito a nos ensinar. Com tantos elogios à pessoa, eu já começava a desconfiar que o senhor tinha realmente algo muito importante a nos passar.

Durante todo o tempo em que passamos jogando conversa fora, eu percebi que o senhor mais velho tremia bastante uma das mãos, mas nada o impedia de continuar seus afazeres. Decidi, então, saber um pouco mais da sua história. É o jornalismo na veia, fazer o que?

– Mas o senhor está aqui no CVV há quanto tempo?
– Ah, minha história aqui é longa… entre idas e vindas completo agora três anos na casa. Foi naquela época que descobri o diagnóstico de Parkinson. Ai, para não ficar parado, entrei numa Associação e aqui no CVV.
– Mas o seu Parkinson é bem leve, né?
– Para mim é. Quer dizer, na verdade, eu criei um lema. Esqueça a doença e ela esquecerá você.

Se até então eu ainda não havia entendido o que ele tinha para me ensinar, naquele momento ficou muito claro. Às vezes, Deus fala conosco através de pessoas que nem sequer imaginaríamos que poderiam ser as respostas para as nossas perguntas em direção ao divino.

Terminei nossa conversa agradecendo, com todas as palavras que precisavam ser ditas, pelos ensinamentos em tão curto período. Talvez desacostumado com elogios, o senhor esboçou um sorriso sem graça e disse: Fico feliz que tenha te ajudado. E apertamos as mãos.

Vou falar por experiência própria. Às vezes ficamos tão incomodados com o peso que temos que carregar com certas doenças ou problemas diversos, que esquecemos de tentar olhar ao redor. Na verdade, não é que esquecemos, é que fica difícil evitar de pensar o quão pesada é a carga. Mais do que ninguém, eu sei exatamente como é.

Por muitos momentos a gente questiona todas as divindades e energias superiores possíveis. Mas, não adianta. Parece que a resposta nunca chega. Ou, quando se mostra em nossas vidas, não parece ser o que esperávamos escutar.

Hoje percebo que tal ensinamento funciona para tudo na vida. Você vai ter que aprender a saber sorrir mesmo em meio a tantas lágrimas. Vai precisar continuar o caminho, mesmo que tenha caído e não consiga levantar. Você vai ter que insistir em acreditar que ainda dá para dar a volta por cima, mesmo que você nunca tenha estado em terreno tão baixo na vida.

Enfim, hoje vejo que é preciso aprender a dançar descalço na chuva enquanto os dias ensolarados não chegam. Quem sabe assim a gente esquece como dói conviver com os sintomas do resfriado e tenta aproveitar como é bom os pinguinhos da chuva batendo bem fundo na nossa pele. 🙂

Responsabilidade afetiva também quer dizer arcar com seus erros

Ser responsável com seus afetos é saber ser gentil ao sair da vida do próximo (Foto: Pixabay)

Texto originalmente publicado no Portal NE10

Dia desses estava sentada no banquinho de uma praça, esperando minha professora chegar para iniciar o treino do dia quando escutei um buruçu perto de mim. Quando olhei para o lado, vi que um homem estava discutindo com uma moça. Ela havia se assustado com a aparência dele e se levantou do banco em que estava por medo de ser um assalto. O rapaz discutia com a jovem por ela o ter confundido com um ladrão. A pobre, eu até entendo. Aqui no Recife, a gente prefere ver o capeta do que um sujeito estranho se aproximando (ou dois homens numa moto).

A moça não deu ouvidos para os xingamentos do rapaz e continuou seu caminho. Eis que então sobrou para mim. Fui fazer a desconstruída, sem preconceitos, mas, na verdade, já havia rezado para todos os santos possíveis e imagináveis. O rapaz chegou ao meu lado, me cumprimentou e sentou na grama. E eu só conseguia calcular o rombo no meu orçamento se precisasse arcar com prestações de um novo celular. Fazer o que, recifense já nasce desconfiado. Segue o diálogo:

A menina pensou que eu ia roubar ela, mas eu não ia roubar não.
– … beleza!
– Eu sou carioca, sabe… mas moro aqui tem muito tempo. Meu problema é só com o álcool.
– E tu veio fazer o que aqui no Recife, homi?
– Eu vim atrás de um grande amor. Larguei tudo para vir morar com ela. E depois de tudo isso ela me deixou… moça, você é casada?
– Casada não, sou noiva. (apelei até para um suposto noivo)
– Pois você tem que dar valor ao seu amor… (nessa hora ele já havia deixado escapar, com muita relutância, algumas lágrimas)

Eu não consigo recordar com exatidão como se desencadeou a conversa, mas ele bateu muito na tecla do amor. Senti muita pena, já que para ele se abrir totalmente com uma desconhecida, sentado na grama suja de um parquinho mequetrefe, o assunto devia causar tamanho rebuliço em seu coração.

Dias depois, passando o feed de uma rede social, vi a postagem de um conhecido que dizia: em 2017, eu aprendi a ter responsabilidade emocional. O rapaz não devia ter nem 20 anos. E aquilo me fez pensar em uma conversa que tive com um cara que eu amei para cacete. Depois de ter feito picadinho do meu coração, ele disse que tinha aprendido o que era a tal da “responsabilidade afetiva”. Me desculpe os Hare Krishna, mas a minha vontade foi de socar a cara dele repetidas vezes.

Talvez eu esteja sendo bem repetitiva nos meus textos, mas é que não consigo engolir tanta hipocrisia. Fica engasgada na garganta. E a impressão que tenho é que, se eu não colocar para fora, vou terminar implodindo. Como é tão fácil destroçar a vida do outro e dizer que sabe o que é responsabilidade afetiva? Alguém, pelo amor das deusas, me explica? Por que as pessoas continuam repetindo as mesmas cagadas de sempre e colocam a culpa numa suposta imaturidade emocional? Cacete, até quando vamos insistir no clássico Não é você, sou eu?

Eu nunca fui boa de matemática, mas essa conta aí quem não fecha só pode estar mesmo de sacanagem. Não quer? Dispensa. Não ama? Acaba. Tem consideração? Não magoa. Errou sem intenção? Aprende com o erro. Não tem meio termo nessas situações. Sempre me pareceu simples que a gente precisa ter a certeza sobre a resposta dessas perguntas para seguir em frente com a certeza que não fizemos por onde machucar o próximo.

Eu vou ser legal. Vou dizer o que é responsabilidade afetiva. Bora lá, quem perdeu a aula pode entrar. Responsabilidade afetiva é ser honesto com o outro. É ter um diálogo sensato, sem optar pelas entrelinhas só para satisfazer o seu ego. Responsabilidade afetiva é não dar corda se você não tem interesse. É saber ser gentil ao sair de cena. Deixar boas recordações ao optar por sair da vida dos nossos afetos.

Responsabilidade afetiva diz respeito a ser prudente: ou seja, se causar um acidente, fique lá para prestar um socorro. Mas deixa eu te dizer uma coisa, campeão: a não ser que você deixe de ser um babaca, responsabilidade afetiva também é arcar com seus erros.